(LUIZ CLÁUDIO JUBILATO – 28/11/13)
Acabou.
Assim…
Não doeu.
Nem marcou.
Apenas…
Acabou.
O que nem começou
Acabou
Assim…
Sem deixar rastros.
Sem maus tratos.
Apenas
Acabou.
Fechou-se a tampa.
Inerte. O corpo. O rosto.
Inexpressivo.
Acabou.
Assim…
(LUIZ CLÁUDIO JUBILATO – 28/11/13)
Acabou.
Assim…
Não doeu.
Nem marcou.
Apenas…
Acabou.
O que nem começou
Acabou
Assim…
Sem deixar rastros.
Sem maus tratos.
Apenas
Acabou.
Fechou-se a tampa.
Inerte. O corpo. O rosto.
Inexpressivo.
Acabou.
Assim…
(LUIZ CLÁUDIO JUBILATO – 28/11/13)
A farpa entra no dedo. Fere a carne. A carne incha. O tecido inflama. O pus. Cheiro de coisa. Sufoca. Enoja. A gangrena. Dor lancinante. Dor latejante. Dor.
Garganta raspando. Coriza. Corpo. Cansaço. Febre. Tosse. Espirro. Tosse. Olhos lacrimejantes. Febre. Pulmão. Suor. Tosse. Antigripal. Febre. Tosse. Suor. Espesso. Poros arreganhados. Gotas. Suor. Rançoso. Suor.
A farpa traz consigo a doença. Separa a carne. Penetra. Avilta. Separa. Dispara o gatilho. Da dor. Da febre. Da tosse. Do suor. Garganta arranhando. Garras de um gato. Catarro Viscoso. Reação. Alergia. Tosse. Febre. Tosse. Espirro. Tosse. Corpo. Cansaço. Tosse. Doença. Febre. Gangrena. Tosse. Tosse. Tosse. Visita incômoda. Não quer sair. Ir.
A farpa ataca a carne. Flecha. Rompe assim… inesperadamente. Pé ante pé. Minuto a minuto. Passo a passo. Sorrateiramente. Imperceptivelmente. Quando percebemos… tomou conta… ocupou o espaço… turvou os sentidos… obrigando-nos, a aceitar, a conviver com ela. Como com alguém indesejável… alguém que sentou na sala… que não quer ir embora, apesar da nossa rejeição… apesar da nossa indignação… apesar de nós. Da nossa dor.
A suspeita de que não é possível pescá-la. É o bagre ensaboado. Não pode ser pinçado. O anzol não o toca. É a farpa que faz brotar o sangue. Como faca. Dilacera. Avilta. Macera. Como punhal. Fere. Turva nossos sentidos. Rodamos. Dentro de um liquidificador. Até virar certeza. Até virar crueza. Até nos virar pelo avesso. Até apagar nossa lucidez. Até destruir nossa altivez. Até nos fazer reféns. Realidade febril. Verdade doentia. Visão senil. Sentimento vil. Nos prende no gradil. Das nossas emoções. Das nossas contradições. Das nossas sensações. Das nossas irrealizações. Das nossas frustrações.
A suspeita nos quebra. Nos arrasa. Nos mastiga. Nos parte. Nos separa. Nos desespera. Nos desumaniza. Nos humilha. Nos emburrece. Farpa aviltante. Fina dor. Dor mor. Desespero maior. Suor. Fedor. Torpor. Nasce no mundo. Nos apodrece na superfície da pele. Toma conta do peito. Aperta os sentidos. Até explodir em grito. Em raiva. Em autopiedade. Em medo de perder. A medida. O outro. A vida.
A suspeita é a miséria a conta gotas. Miséria humana. Doença humana. Ciúme. Perda. Dos sentidos. Infarto. Dos sentidos. Sintomas. De perigos. Febre. Dos mendigos. Da alma. Do coração. A seta… que rompe. Os tecidos. Os sentidos. Decreta a sorte. A sina. A morte. Sufocante. Catarro. Acachapante. Sangrando. A conta gotas.
1. Nosso maior defeito não é o pecado da omissão apenas, mas a insurgência pseudo-raivosa tornada mentirosa esperança, ao empunharmos uma desgrenhada bandeira sem uma razão transformadora. Sem um propósito, nossa atitude se traduz em confortável acomodação. A acomodação nos desfere um tapa na cara, quando menos esperamos, chamado alienação. (LUIZ CLÁUDIO JUBILATO – 12/10/13)
(LUIZ CLÁUDIO JUBILATO – 03/10/2013)
MEUS REFRÕES
não falam de música = não sei cantar
não falam de acordes = não sei tocar
não falam de rodopios = não sei dançar
MEUS REFRÕES
falam de poesia, estou aprendendo a poetar
falam de experiências, estou aprendendo a me entregar
falam de existências, estou aprendendo a mergulhar
falam de esperança, estou aprendendo a acreditar
MEUS REFRÕES
repetem sempre os mesmos versos, ainda aprendo a criar
pisam em terreno pantanoso, ainda aprendo a me guiar
atormentam minhas noites insones, ainda aprendo a revidar
MEUS REFRÕES
não desnudam oceanos, ainda não aprendi a nadar
não guiam revoluções, ainda não aprendi a transformar
não buscam amores impossíveis, ainda não aprendi a me afogar
MEUS REFRÕES
são a minha praga, minha doença, engulo todos para me revirar
as palavras se juntam ao tema, tomam formas, para me devastar
os grilhões da gramática, suas regras infames, querem me escravizar
MEUS REFRÕES
desconstroem a razão, clamam pelo sonho, estão famintos pela ilusão
carregam minha voz rouca, desafinada, desafiante, meu grito de liberdade
observam meu cérebro, meu coração, meus mistérios, meus ideais, meu inferno
apoderam-se de mim, transformam minha forma de querer, de lutar, sem disfarçar
(LUIZ CLÁUDIO JUBILATO – 03/10/2013)
Há distâncias… e… distâncias
as postas
e
as impostas
As postas rabiscadas em linhas tortas finas e grossas
nos mapas
As impostas arraigadas em linhas e entrelinhas cimento e areia
nas palavras
postas concretas possivelmente transpostas
impostas diretas friamente propostas
(LUIZ CLÁUDIO JUBILATO – 02/10/2013)
Inventamos
o amor, o terror, o torpor com tudo a dor
domesticamos
os selvagens, os homens, os animais
domaDOR
Cultivamos
o poder, os governos, os alienados
cultivaDOR
Inventamos
o compensaDOR, o elevaDOR, o amaDor
sádicos
sem fervor, vivemos o terror da dor do amor
masoquistas
sem fervor, mergulhamos no amor terror da dor
(LUIZ CLÁUDIO JUBILATO – 02/10/2013)
Um livro, dentro tramas, metáforas, metonímias, o suor do autor
construtor
quem escreve a obra? o leitor? o escritor?
conflito
o leitor, ser perigoso, de posse da trama
absorve-a, engole-a, expele-a
conflito
desconstrutor
O leitor é, mas não é só cliente, comprador
conflito
transmuta-se em co-autor
compra palavras? personagens? trama? leva de brinde o autor?
onde fica o talento? em quem sabe dizer dizendo o que seduz o comprador?
não é a literatura que não envelhece
é o leitor que, em sua total complexidade, que insiste em não mudar.
(LUIZ CLÁUDIO JUBILATO – 02/10/2013)
Cada pessoa tem seu guarda roupa
peças quanto caras combinadas, arrumadas para usar
A cada manhã abre a gaveta, agarra uma, vê seu oposto no espelho
nem pensa, automaticamente veste ambas e sai, vê, crê: é possível
nesse dia mudará a si, tudo. Mudará o mundo
daqui a cinco minutos, perdendo pele, mascando chiclete, cuspindo na rua
nada, nada, nada mesmo está igual
suada, come o fast food, toma banho, abre o guarda roupa
enfia a mão na gaveta
agora, com forças recobradas insiste em recomeçar
A cada noite chega joga o mundo agora velho no sexto de roupas sujas
o jantar, requentar o fast food da manhã, nada, nada realmente é igual
abre o guarda roupa retira a última cara com a roupa do dia
sexo cumprido, dever cumprido, tarefas cumpridas, de manhã recomeçar
pra viver o amanhã como hoje, o hoje como o ontem, o ontem como o anteontem
assim foi, assim é, assim será… como sempre está sendo.
(PROFESSOR LUIZ CLÁUDIO JUBILATO – 18/10/2023)
Nossos filhos entoavam hinos à liberdade, contaminamos cada um deles com o desvario da esperança. Levantávamos os punhos cerrados. Brigávamos contra nossos próprios erros. Cremos na paz, mas usá-la para provocar a revolução. Nossas certezas exprimiam-se entre os cantos das bocas e o ranger dos dentes. Os perdigotos balizavam a secura da nossa saliva. Nossas vozes roucas ganhavam corpo. Queríamos a revolução. Marchávamos sem fuzis, pistolas nem canhões. Nossas armas são nossos corpos, nossa indignação. Os velhos carregavam nos ombros as saudades dos anos 60: “Caminhando e cantando/e seguindo a canção/somos todos iguais/braços dados ou não”. Os jovens gritavam, com raiva, por uma nova nação, sem politicagem, sem corrupção: “Quem sabe/faz a hora/não espera acontecer”. Roçavam seus corpos suados invocando a democracia, única teia que os uniam.
Milhares de pessoas marchavam sem coturnos, mas com disposição. A multidão cansada investiu contra bandeiras viciadas de partidos empanturrados de poder. Sindicalistas infiltrados levaram bofetadas com suas bandeiras surradas, pois queriam tomar para si a paternidade da revolução. Os que tinham cara de dedos duros e cabos eleitorais foram reduzidos a ratos escorraçados, o que, na verdade, são. Nas esquinas das cidades, embolavam-se berros, punhos, cartazes e cidadãos.
Na multidão de anônimos, a criancinha carregada no colo do pai exibia a foto: “Minha fralda é mais limpa que o congresso nacional”. A foto nos telejornais, nas capas de revistas e jornais virou o que se chama hoje de marketing viral. Todos os que viram, riram. Todos os que riram, não viram o óbvio. Todos os que riram, não se reconheceram na foto. Ela é a síntese da nossa incompetência, de toda a nossa alienação. Nós estamos na merda. Os porcos continuam entocados no poder. Sabemos onde estão, fazendo o que e por quê? Por que não prestamos atenção nos risos sarcásticos, nos discursos cheios de palavras intraduzíveis para os pobres, repletos de sedução?
A toca é a síntese do não: não fazemos nada para os outros, somente para nós; não adianta gritarem, não acreditamos em revolução; não, não interessa o que quer o povo, se for preciso sacrificaremos gerações. Vamos dar ao populacho, à patuleia ensandecida o que ela mais ama, mas não sabe o que elas escondem: um monte de promessas vazias e siglas que ninguém entende, mas aprecia: ENCEJA, PROUNI, ENEM, PAC.
Aprendemos que política não se discute, detestamos política, odiamos os políticos. Preferimos as novelas, o chope, o ódio represado, não canalizado, que não nos leva a lugar nenhum. Surgem os profetas nos bares; os revolucionários da sala de aula; os universiotários do dizer e do desdizer: uns pregam em grego, outros gritam em latim, muitos falam em inglês, a maioria não faz nada em português.
Essa criança um dia será um jovem, o tempo exibirá sua foto, sua curta história. Riremos mais uma vez, mas o que contaremos a ele? Por que nossos gritos e atitudes não limparam o cocô? Conseguiremos, com nossos olhos sem lágrimas, esbugalhados, pasmados, dizer a ele que, mais uma vez fracassamos? Fomos manipulados. Desviaram nossas atenções do que era mesmo importante. Até quando usaremos esse discurso de que a culpa não é minha, não votei em ninguém? São todos iguais, todos assaltam alguém.
Nossas bandeiras eram amplas demais. Então, por que as empunhamos? Por que permitimos que um bando de idiotas tomassem de assalto os protestos legítimos que fazíamos? Ah! Alguém dirá: “Isso é democracia. Todo mundo tem o direito de se manifestar”. É verdade: até todos aqueles que jamais assumirão suas culpas. Até aqueles que só se indignam antes do jantar. Até aqueles que nunca mudam e nunca contribuíram com nada pra mudar. Até mesmo os modistas, os que desfilaram nas ruas suas grifes porque era modismo gritar.
A democracia é assim, tem seus princípios básicos: todo mundo tem o direito de falar e também se calar. Os porcos continuam ditando as regras, na “democratura”, comendo no almoço e no jantar fatias suculentas da nosso trabalho, nossas idiotices, convertidas em poder. E, nós, acorrentados em nossos pelourinhos invisíveis, ainda temos o despautério de reclamar. Vamos continuar com essa história de que a democracia é assim? Então devemos ter uma ditadura? Claro que não. Porém, do jeito que está e estará, não pode ficar.
Os que se disseram revolucionários um dia, mas não quiseram, nesse momento crítico, se levantar. Vêm com o discurso burro e fracassado de que fizeram tudo para mudar. E tudo está como está. Eles são a frauda. Por culpa deles que não nós legaram nada e por que também nào achamos saída é que somos a frauda e estamos na merda.
(PROFESSOR LUIZ CLÁUDIO JUBILATO – 18/10/2023)
Pegamos em hastes. Pregamos nelas panos.
Rabiscamos palavras de ordem.
Fizemos passeatas. Nossa arma são nossas vozes.
Instituímos com paus e pedras a desordem.
Cortamos essas hastes com nosso suor.
Carregamos cartazes, faixas. Berramos: “NÃO”.
Não temos heróis. Não temos certezas.
Não temos barreiras. Berramos: “SIM”.
Sim, faremos a revolução. Sim, destruiremos a corrupção.
Sim, teremos o pão. Berramos: “SENÃO”.
Senão invadiremos o congresso.
Senão, quebraremos tudo: PELO SIM, PELO NÃO.
O que faremos, agora, dos nossos corações…
Há gente blefando
Os que protestavam, sumiram das ruas.
Os que já protestaram um dia, nem descolaram a bunda dos sofás
Os que corrompem, solaparam nossos ideais, caparam refrões das nossas canções,
cegaram nossos olhos com bombas de gás
Não, não chegamos até agora a lugar algum.
Sim, sim nossa vingança contra as raposas políticas ficou para trás
O que faremos, agora, com os nossos corações…
Agente matando
A polícia infiltrada estropiando palavras de ordem,
vontades e corpos.
A polícia com seus cassetetes e truculência reduzindo ideias,
opiniões a pós
A polícia apoiando líderes
comprados arrastando nossa força por caminhos tortos
A polícia atrás de escudos e
bandidos mascarados massacraram as convicções de todos nós
A gente começou
Vencendo a luta por 20 centavos.
Perdendo para partidos conchavados.
Partidos de olhos arregalados nas próximas eleições
Politiqueiros com a boca aberta para engolir milhões e milhões
Bandeiras e anseios traziam reivindicações amplas demais
Problemas estruturais não se resolvem apenas com decretos federais
Nossas garras, como queríamos, não arrancaram o Brasil dos falsos trilhos
Não temos agora o que dizer, no futuro, aos companheiros, nem aos nossos filhos
Nossa boca
Hoje desdentada, não mais grita, acostumada a calar amordaçada.
Hoje cariada, mostra o desespero das nossas vozes desafinadas.
O que faremos, agora, sem as multidões, nem as nossas razões,
nem as nossas canções, muito menos nossos corações?