Eu Tenho a Doença, Ela Não Me Tem

Autor: Luiz Cláudio Jubilato

Há algum tempo, estava assistindo à mini-maratona do Rio de Janeiro, quando o repórter, entrevistando corredores anônimos, virou-se para um e perguntou: – “Por que a sua perna está tremendo?” Ele respondeu: – “Porque tenho esclerose múltipla”. – “Mas, não dói?” – “Claro que dói!” – “Mas, você vai correr mesmo assim?” – “Vou.” – Mas, por quê?” – Porque eu tenho a doença, mas a doença não me tem”. Numa ensolarada manhã de domingo, em que nada acontecia, esse homem anônimo aconteceu em mim, fez com que eu mexesse em várias das minhas convicções.

Hoje, um poema de Manoel Bandeira, tuberculoso dos 18 aos 33 anos de idade, numa época em que se mal era praticamente incurável, remeteu-me àquela manhã de domingo. Bandeira, nos últimos versos de Antologia, canta: Vou-me embora p’ra Pasárgada! / Aqui eu não sou feliz. / Quero esquecer tudo: / – A dor de ser homem… / Este anseio infinito e vão / De possuir o que me possui. O poeta da vida, da estrela da vida inteira, pretendia, no seu anseio, controlar a tuberculose que controlava todos os seus movimentos, suas expectativas de futuro, seu desejo de vida, sua vontade de ter o outro e de ser possuído pela paixão e pelo corpo de alguém. O tesão de se entregar sem reservas, sem culpas, sem meias-palavras ou meia-boca. Manuel conseguiu vencê-la depois de perder a juventude para ela.

Hoje, dei de cara com um depoimento assustador de uma neurocientista americana, de 37 anos, chamada Jill Bolte Taylor. Uma serena mulher de olhos azuis como o mar driblou a morte também. Ao acordar na manhã de 10 de dezembro de 1996 com uma dor aguda na cabeça, percebeu algo tenebroso: estava sendo vítima de um derrame cerebral. Ela, que conhecia tudo sobre as várias áreas do cérebro humano, sentiu na pele o que é ser literalmente abandonada por ele. O mais curioso é que, pela primeira vez na História, ali estava a pessoa que poderia estudar esse órgão de dentro para fora. Depois de uma longa batalha, não apresenta qualquer seqüela da doença. A experiência rendeu o livro A Cientista que curou seu próprio cérebro. A obra já vendeu 500.000 exemplares nos EUA. São duas façanhas e tanto.

Parece que a grande lição aprendida por Jill Bolte e Manuel Bandeira para se curar foi tentar a todo custo domar o mal que insistia em possuí-los, subjugá-los. O corredor anônimo, controlando a perna que insistia em fugir do seu controle, tomou seu destino nas mãos. Não aceita a morte. Não quer morrer. Luta contra ela, mesmo que ela se transmute num vírus, numa bactéria, num defeito genético. Dribla seus desígnios nos remédios, nas mesas de operação, nas clínicas estéticas, nas academias de ginástica e nos cremes rejuvenescedores. Brinca de Deus para enganá-la mapeando o genoma humano, entregando-se desesperadamente às pesquisas sobre clonagem. A cada ano, novos cremes dentais, novas técnicas cirúrgicas, novas formas de alimentação mais saudáveis visam empurrar a expectativa de vida para o fim do túnel da existência. No Japão, por exemplo, a esperança de vida para quem nasceu em 2003 é de 81 anos. No Brasil é de 73. Estamos longe ainda das nações desenvolvidas, mas melhoramos muito.

Se a ciência não consegue resolver a imortalidade, procuramos a imortalidade na literatura, na música, na escultura, no cinema, na filosofia, nas coisas que realmente fazem sentido para nós. Ao transmutamos a morte em personagem, temos a chance única de matá-la, destruí-la, ridicularizá-la. Mas, precisamos repensar nossas ações. Com todos esses hormônios, inseticidas e agrotóxicos consumidos em cada refeição, com tantos alimentos estranhos ao nosso organismo cheios de conservantes, espessantes, revigorantes, edulcorantes… torna-se quase impossível não morrer de câncer, de doenças ligadas à obesidade ou de doenças degenerativas do cérebro, como Ausaimer ou esclerose. Se o corredor de perna trêmula pode domar o seu destino, então podemos, com um pouco de inteligência e vontade, escrever o nosso. Sem defensivos agrícolas. Sem violentarmos a nós mesmos. Publicado no Blog do Luiz Cláudio

 segunda-feira, 09 de setembro de 2013