{"id":21,"date":"2015-03-08T14:42:10","date_gmt":"2015-03-08T17:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/thiagocarbonel\/?p=21"},"modified":"2015-03-08T14:42:10","modified_gmt":"2015-03-08T17:42:10","slug":"as-dificuldades-da-redacao-entre-o-simples-e-o-simplificado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/thiagocarbonel\/2015\/03\/08\/as-dificuldades-da-redacao-entre-o-simples-e-o-simplificado\/","title":{"rendered":"AS DIFICULDADES DA REDA\u00c7\u00c3O ENTRE O SIMPLES E O SIMPLIFICADO"},"content":{"rendered":"<p>Einstein, certa vez, mencionou que tudo deveria ser simples, por\u00e9m n\u00e3o simplificado. Parto dessa reflex\u00e3o para pensar o ato da escrita agora, no in\u00edcio do ano letivo, porque me parece importante come\u00e7ar com alicerces s\u00f3lidos quando nossa empreitada \u00e9 construir algo tamb\u00e9m s\u00f3lido. No meu caso, preparo alunos em diferentes n\u00edveis de escolaridade para enfrentarem, antes de tudo, os desafios da vida em sociedade e, para tanto, preciso faze-los entender que saber traduzir pensamentos em linguagem \u00e9 o embri\u00e3o da escrita e a chave para a autocompreens\u00e3o.<\/p>\n<p>Ser simples \u00e9 a ess\u00eancia do escrever por in\u00fameros motivos, mas basta apontar o mais importante: clareza. E para ser bem claro com voc\u00ea, leitor, esta caracter\u00edstica do bom texto depende, em \u00faltima an\u00e1lise, de saber o que dizer sobre o tema. Chame isso de bagagem cultural, repert\u00f3rio sociocultural produtivo (como prefere o ENEM), cultura geral, o importante \u00e9 possuir ideias e informa\u00e7\u00f5es. Pronto. S\u00f3 isso? \u00c9, s\u00f3 isso SE voc\u00ea est\u00e1 acostumado com a escrita, se est\u00e1 habituado a conviver com as palavras.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o est\u00e1 tudo bem, porque sua gera\u00e7\u00e3o escreve muito, n\u00e3o? Quanto tempo voc\u00ea fica digitando no iPhone, no iPad, no iTudo? J\u00e1 calculou quantas linhas voc\u00ea escreve entre o Whatsapp, o Facebook, o Twitter e o Instagram? Muitas. Eu calculo, pela minha m\u00e9dia pessoal (e olhe que nem sou um usu\u00e1rio t\u00e3o ass\u00edduo), cerca de duas a tr\u00eas p\u00e1ginas por dia (!). E presumindo que voc\u00ea se faz entender entre seus milhares de amigos e seguidores, \u00e9 corret\u00edssimo afirmar que voc\u00ea escreve bem. Escreve mesmo.<\/p>\n<p>Ora, se tudo isso \u00e9 verdade, por que fazer um curso de reda\u00e7\u00e3o? Ser\u00e1 que aqueles 45, 50 minutos semanais n\u00e3o s\u00e3o suficientes? Ser\u00e1 que um curso avan\u00e7ado n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 para aqueles alunos &#8220;de elite&#8221;, que j\u00e1 fazem \u00f3timas reda\u00e7\u00f5es e querem fazer reda\u00e7\u00f5es melhores ainda? Ser\u00e1 que um aluno que est\u00e1 come\u00e7ando a escrever com frequ\u00eancia consegue acompanhar um curso desses? Vamos pensar sobre isso.<\/p>\n<p>O primeiro ponto a discutir \u00e9 o porqu\u00ea de preparar-se especificamente para reda\u00e7\u00e3o. Apesar de saber escrever, voc\u00ea talvez n\u00e3o esteja habituado a escrever do modo como as propostas dos vestibulares esperam, com progress\u00e3o de ideias, vocabul\u00e1rio diversificado, dom\u00ednio da norma culta, boa articula\u00e7\u00e3o entre sua opini\u00e3o e o embasamento dela. Colocada desse modo, a tarefa da escrita no vestibular parece um bicho de sete cabe\u00e7as, mas acredite, n\u00e3o \u00e9. O grande \u201cpor\u00e9m\u201d \u00e9 o modo SIMPLIFICADO como alguns cursinhos tratam a reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No intuito de mastigar tudo e reduzir toda a hist\u00f3ria do conhecimento humano a um sujeito fantasiado fazendo micagens no tablado, ou um profissional frustrado em sua \u00e1rea que se mete a ensinar outra coisa s\u00f3 porque tem o dom de fazer psicodrama coletivo, as \u201cm\u00e1quinas de aprova\u00e7\u00f5es\u201d reduzem a reda\u00e7\u00e3o ao posto de sub-treco do vice-tro\u00e7o, como diria o grande mestre M\u00e1rio S\u00e9rgio Cortella. Reda\u00e7\u00e3o, assim, \u00e9 algo tratado com menor import\u00e2ncia, encolhido a uma aula curta, apenas pincelando temas, sem um m\u00ednimo de teoria do texto, conceitua\u00e7\u00e3o de g\u00eaneros entre outros conte\u00fados que s\u00e3o, efetivamente, cobrados nos vestibulares.<\/p>\n<p>E como se n\u00e3o bastasse a neglig\u00eancia com a aula em si, muitas coordena\u00e7\u00f5es parecem esquecer-se de que reda\u00e7\u00e3o sem corre\u00e7\u00e3o n\u00e3o faz sentido. Como tal cr\u00edtica, por\u00e9m, \u00e9 velha, alguns cursinhos fizeram a gambiarra de contratar alunos de gradua\u00e7\u00e3o em Letras (em alguns casos de cursos EAD), muitas vezes sem a devida experi\u00eancia ainda, presumindo que o sujeito, s\u00f3 porque est\u00e1 no curso j\u00e1 sabe corrigir uma reda\u00e7\u00e3o. N\u00e3o vou me deter muito nisso, mas s\u00f3 para voc\u00ea, leitor, entender, uma boa corre\u00e7\u00e3o mobiliza praticamente todas os saberes que s\u00e3o adquiridos ao longo da forma\u00e7\u00e3o do professor, de modo que n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 qualquer um que pode corrigir BEM sua reda\u00e7\u00e3o. A corre\u00e7\u00e3o ideal \u00e9 feita no \u201ccara a cara\u201d (no \u201ct\u00eate-a-t\u00eate, como dizem os franceses), lendo junto, fazendo voc\u00ea perceber o que deu certo e o que deu errado, discutindo o que pode ser aprofundado, o que ficou demais, o que soa mal na linguagem, enfim, o que o cursinho n\u00e3o pode oferecer (e quando tenta oferecer, mais atrapalha que ajuda).<\/p>\n<p>Meu segundo ponto \u00e9 a quem se destina, entre os vestibulandos, este tipo de curso. Voc\u00ea talvez j\u00e1 tenha ouvido dizer de tudo, desde que \u00e9 algo s\u00f3 para quem n\u00e3o consegue aprender com o \u201cbasic\u00e3o\u201d que expus acima, at\u00e9 que \u00e9 sofisticado demais e se destina apenas a alunos muito bons. Bem, nenhuma das explica\u00e7\u00f5es est\u00e1 correta: um curso de reda\u00e7\u00e3o se destina a todo mundo, inclusive (e eu diria principalmente, se pudesse desenvolver melhor essa ideia \u2013 talvez em outro texto) a n\u00e3o vestibulandos.<\/p>\n<p>Um curso de reda\u00e7\u00e3o \u00e9 o mais democr\u00e1tico dos cursos, pois, a partir de primeiro dia de aula, todos saem rigorosamente na mesma posi\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea pode estar se perguntando: ora, se um sujeito j\u00e1 fez cursinho dois, tr\u00eas anos, ele ou ela n\u00e3o come\u00e7am em vantagem? N\u00e3o. E sabe por qu\u00ea? Simples: reda\u00e7\u00e3o \u00e9 pr\u00e1tica, \u00e9 um exerc\u00edcio de constante retomada (consciente) da tarefa de escrever. Voc\u00ea olha para o lado e v\u00ea aquele dinossauro que est\u00e1 prestando medicina h\u00e1 cinco anos, ok? \u00c9 bem prov\u00e1vel que ele ainda esteja no jur\u00e1ssico, entre o Ensino M\u00e9dio e a universidade, exatamente porque tem a ilus\u00e3o de que o problema dele s\u00e3o exatas, por exemplo, e n\u00e3o liga para reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa \u201cfilosofia\u201d, ali\u00e1s, \u00e9 o que alimenta o mito de que n\u00e3o se estuda reda\u00e7\u00e3o. E quando se estuda, \u00e9 algo dif\u00edcil, que exige demais. Com isso, outro mito se fundamenta: fazer curso de reda\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cpuxado\u201d. Eu me pergunto: assistir a uma aula um pouco mais longa que os meros 50 minutos, fazer uma reda\u00e7\u00e3o por semana, gastar meia hora corrigindo com um plantonista experiente (que j\u00e1 corrigiu ENEM e outros vestibulares) e assistir a outras aulas que lhes s\u00e3o disponibilizadas \u00e9 \u201cpuxado\u201d?<\/p>\n<p>Definitivamente, fazer um bom curso de reda\u00e7\u00e3o \u00e9 simples, simples at\u00e9 demais. Por\u00e9m, muitas vezes o que \u00f3bvio e simples \u00e9 t\u00e3o simples e \u00f3bvio que o observador descuidado n\u00e3o percebe (se voc\u00ea tiver tempo, procure um conto de Edgar Allan Poe, \u201cA carta roubada\u201d, leia e deixe seu coment\u00e1rio aqui). Meu conselho como professor \u00e9: saiba diferenciar o SIMPLIFICADO do SIMPLES. A reda\u00e7\u00e3o boa, que vai lhe aprovar no que quiser, \u00e9 simples; os macetes que querem fazer voc\u00ea engolir como aula de reda\u00e7\u00e3o s\u00e3o algo simplificado, portanto ruim. Abra o olho agora e seja \u201cbixo\u201d ano que vem; ou, ano que vem, leia um texto bem parecido com este.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Einstein, certa vez, mencionou que tudo deveria ser simples, por\u00e9m n\u00e3o simplificado. Parto dessa reflex\u00e3o para pensar o ato da escrita agora, no in\u00edcio do ano letivo, porque me parece importante come\u00e7ar com alicerces s\u00f3lidos quando nossa empreitada \u00e9 construir algo tamb\u00e9m s\u00f3lido. 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