{"id":20,"date":"2015-03-22T20:25:54","date_gmt":"2015-03-22T23:25:54","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/thiagocarbonel\/?p=20"},"modified":"2015-03-22T20:25:54","modified_gmt":"2015-03-22T23:25:54","slug":"professor-ou-educador","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/thiagocarbonel\/2015\/03\/22\/professor-ou-educador\/","title":{"rendered":"PROFESSOR OU EDUCADOR?"},"content":{"rendered":"<p>Durante esta \u00faltima semana, p\u00f3s-manifesta\u00e7\u00f5es anti-Dilma, ouvi muitas conversas vazias e procurei me esquivar de quase todas, nem sempre com \u00eaxito. Li bobagens abissais e me decepcionei com coment\u00e1rios irracionais de gente cujo senso cr\u00edtico me parecia razo\u00e1vel. E de toda a paspalhice end\u00eamica e sist\u00eamica (pegando carona no l\u00e9xico da opera\u00e7\u00e3o Lava a jato) o que vomitaram a respeito de educa\u00e7\u00e3o, educadores e professores pareceu-me raz\u00e3o suficiente para uma manifesta\u00e7\u00e3o textual, mais tacanha, por\u00e9m honesta.<\/p>\n<p>Do ponto de vista estritamente lexical, \u00e9 dif\u00edcil decidir se educador \u00e9 &#8220;g\u00eanero&#8221; do qual professor \u00e9 esp\u00e9cie, ou vice-versa. Acho, mesmo, que os debates empreendidos por pensadores de verdade \u00e9 saud\u00e1vel, ainda que n\u00e3o seja conclusivo. O que n\u00e3o posso aceitar \u00e9 verborreia incontinente de oportunistas midi\u00e1ticos como Alexandre Garcia e Rodrigo Constantino, nem como pessoas pretensamente inteligentes engolem a p\u00edlula amarga dos argumentos ruins dos dois.<\/p>\n<p>Meu &#8220;choque&#8221; \u00e9 causado, em grande parte, por n\u00e3o compreender como conceitos simples podem ser manipulados de forma t\u00e3o grosseira e isso ser aceito exatamente por quem &#8220;consome&#8221; tais conceitos. Imagino que deva me explicar melhor, ent\u00e3o vamos l\u00e1.<\/p>\n<p>Quando pensamos no papel do profissional que conduz o aluno em dire\u00e7\u00e3o ao saber, \u00e9 essencial desconstruir a ideia do professor-or\u00e1culo e resgatar a imagem de Plat\u00e3o instigando seus disc\u00edpulos com perguntas (mai\u00eautica) ou a de Arist\u00f3teles, caminhando e ensinando ao mesmo que mostrava os mist\u00e9rios do mundo a seu pupilo mais conhecido, Alexandre Magno (m\u00e9todo peripat\u00e9tico). Essas refer\u00eancias servem para demolir aquele anti-modelo brega do professor que n\u00e3o d\u00e1 aula, pois aula \u00e9 algo chato; d\u00e1 show. \u00c9 o sujeito pat\u00e9tico e teatral que &#8220;faz o diabo&#8221; por pontos no &#8220;Ibope&#8221; da escola e n\u00e3o tem verdadeiro compromisso com a educa\u00e7\u00e3o. Conheci, ao longo da carreira, muitos deles; quase todos s\u00e3o po\u00e7os de simpatia e carisma, mas nutrem profundo desprezo pelo aluno e pelo que lecionam &#8211; neg\u00f3cios, neg\u00f3cios; \u00e9tica, \u00e0 parte.<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m ousa chamar essa caricatura triste de professor, eu prefiro ficar com o r\u00f3tulo de educador. Posso estar ficando velho e rabugento, mas tenho cada vez menos paci\u00eancia para engolir conversas sonsas sobre quest\u00f5es socioecon\u00f4micas da profiss\u00e3o e acho o fim o ros\u00e1rio de reclama\u00e7\u00f5es sobre o perfil dos alunos de hoje e outras ene babaquices que &#8220;repassadores de informa\u00e7\u00e3o&#8221; compartilham, mesmo quando n\u00e3o solicitados, em ambientes coletivos.<\/p>\n<p>Esse ou essa profissional que se atribui o t\u00edtulo de professor \u00e9, muitas vezes, um indiv\u00edduo em transi\u00e7\u00e3o, \u00e0 espera de algo melhor; ou o oportunista que percebeu que subir no tablado, com um pouco de talento art\u00edstico e certa falta de no\u00e7\u00e3o do rid\u00edculo, pode at\u00e9 ser bem rent\u00e1vel. Mas tal categoria, como j\u00e1 disse antes, pertence ao grupo de mercadores de saberes (saberes muitas vezes bem question\u00e1veis, diga-se de passagem). Refiro-me, no t\u00edtulo deste texto, \u00e0queles que se envolveram no processo de ensino e forma\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 por voca\u00e7\u00e3o e\/ou comprometimento com o alto valor social que a profiss\u00e3o tem &#8211; grupo que, felizmente, engloba a maior parte de meus colegas (os que n\u00e3o pertenciam ao grupo fui elegante e educadamente podando, apesar de ainda conviver com esparsos desencontrados).<\/p>\n<p>Comecei com uma indaga\u00e7\u00e3o e a ela retorno: qual nosso verdadeiro papel na forma\u00e7\u00e3o de nossos alunos? Coloco essa provoca\u00e7\u00e3o, pois muitos acreditam que n\u00e3o cabe ao professor aquilo que a fam\u00edlia e outras institui\u00e7\u00f5es formadoras de car\u00e1ter deveriam ter feito antes de a crian\u00e7a alcan\u00e7ar a idade escolar. Eu, particularmente, vejo sob outro \u00e2ngulo e creio que \u00e9 atributo do professor ser, ainda que de maneira diferente daquela dos pais, exemplar e inspirador \u2013 e para os divergentes dessa posi\u00e7\u00e3o, aconselho a leitura da introdu\u00e7\u00e3o dos Par\u00e2metros Curriculares Nacionais, que afirmam categoricamente essa \u201cconvoca\u00e7\u00e3o\u201dda escola a assumir pap\u00e9is at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o demarcados.<\/p>\n<p>O que entendo como exemplar e inspirador pouco ou nada tem a ver com quem o professor \u00e9 na vida pessoal. O posicionamento pat\u00e9tico de certos pretensos educadores que instituem c\u00f3digos de conduta para o que professores podem ou n\u00e3o fazer \u00e9, al\u00e9m de il\u00edcito (ass\u00e9dio moral), il\u00f3gico. O bom senso \u00e9 que determina aquilo que qualquer profissional (salvo pouqu\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es) deve expor e aquilo que deve resguardar, de tal modo que uma foto com amigos bebendo cerveja n\u00e3o \u00e9 em nada conden\u00e1vel, afinal pessoas saud\u00e1veis se divertem e compartilham a alegria com outras pessoas; via contr\u00e1ria, de nada vale a austeridade e cuidado com a imagem se o professor \u00e9 mal formado e comete equ\u00edvocos conceituais s\u00e9rios, ou, no que eu acho bem pior, n\u00e3o tem prepara\u00e7\u00e3o emocional para lidar com a profiss\u00e3o e ser o que os alunos esperar e precisam dele.<\/p>\n<p>Essas demandas, ali\u00e1s, est\u00e3o muito al\u00e9m do ir para a sala de aula, passar seu conte\u00fado, entregar provas corrigidas em dia e manter registro do trabalho. Isso \u00e9 tecnicamente importante, mas n\u00e3o dispensa os aspectos humanos da atividade, que incluem a rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a (distinta da de amizade) que deve se estabelecer, de modo que o aluno tenha no professor um aliado em seu progresso, n\u00e3o um inimigo de seu estilo de vida. Vejam que n\u00e3o estou propondo a \u00e9tica da camaradagem em detrimento da austeridade ou do car\u00e1ter mais s\u00e9rio. Proponho que o professor se veja como algu\u00e9m que constr\u00f3i pontes para al\u00e9m das compet\u00eancias e habilidades de sua disciplina, tornando-se, em algum ou mais de um aspecto, uma refer\u00eancia positiva para seus alunos.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que por esse trabalho n\u00e3o h\u00e1 pagamento e muitos veem apenas o fato de que, no setor privado, ganha mais o cara engra\u00e7ado e sem conte\u00fado do que o comprometido e apaixonado pela profiss\u00e3o. Por isso, talvez, alguns leitores achem minha tese ing\u00eanua demais e prefiram alardear o \u201cn\u00e3o ganho para isso\u201d. Tudo bem, respeito opini\u00f5es diferentes, mas n\u00e3o posso deixar de lembrar que cada um de n\u00f3s fez sua escolha profissional por algum motivo.<\/p>\n<p>Eu optei por ser professor, mesmo sendo advogado (inclusive inscrito na OAB\/SP), por uma convic\u00e7\u00e3o s\u00f3lida de que esta \u00e9 minha miss\u00e3o na vida, bem como pela influ\u00eancia de minha av\u00f3, uma mulher que me inspirou em tudo e que endeuso como refer\u00eancia. Quando eu era crian\u00e7a e passeava com ela pelas ruas de S\u00e3o Carlos, ficava observando quando algum ex-aluno a reencontrava e agradecia pela diferen\u00e7a que ela havia feita na vida deles. Foi esse o trabalho que escolhi para a vida, mesmo sabendo que \u00e9 uma carreira de cominhos tortuosos, pouco reconhecida, insuficientemente remunerada. N\u00e3o obstante, dediquei-me a ela desde o primeiro ano de faculdade (na verdade, eu j\u00e1 era monitor de literatura em reda\u00e7\u00e3o quando ainda estava no terceiro ano do Ensino M\u00e9dio), ganhei meu espa\u00e7o e n\u00e3o consigo compartilhar o sentimento de insatisfa\u00e7\u00e3o de alguns colegas.<\/p>\n<p>A caminhada \u00e9 dura e h\u00e1 anos de mais bonan\u00e7a, como h\u00e1 anos de crise. Como em qualquer carreira (imagino), mais vale a perseveran\u00e7a e a racionalidade de buscar alternativas do que a ladainha de resmungos e rabugices. Hoje, para manter o estilo de vida que gosto de levar, leciono em seis cidades diferentes, dou 74 aulas por semana, viajo cerca de mil quil\u00f4metros semanalmente, escrevo materiais did\u00e1ticos, reviso e traduzo textos, al\u00e9m dos \u201cefeitos colaterais\u201d, como corrigir provas e reda\u00e7\u00f5es, resolver quest\u00f5es burocr\u00e1ticas e outras atividades. \u00c9 cansativo, n\u00e3o nego, mas \u00e9 o que precisa ser feito e fa\u00e7o com paix\u00e3o. Paix\u00e3o porque sei, a despeito dos percal\u00e7os, dos fabulosos resultados que posso obter e que um dia, eu tamb\u00e9m reencontrarei quem se lembre de mim como algu\u00e9m que fez diferen\u00e7a. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante esta \u00faltima semana, p\u00f3s-manifesta\u00e7\u00f5es anti-Dilma, ouvi muitas conversas vazias e procurei me esquivar de quase todas, nem sempre com \u00eaxito. 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