{"id":15,"date":"2015-03-08T14:40:09","date_gmt":"2015-03-08T17:40:09","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/thiagocarbonel\/?p=15"},"modified":"2015-03-08T14:40:09","modified_gmt":"2015-03-08T17:40:09","slug":"autofobias-e-narcisismos-equivocados","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/thiagocarbonel\/2015\/03\/08\/autofobias-e-narcisismos-equivocados\/","title":{"rendered":"AUTOFOBIAS E NARCISISMOS EQUIVOCADOS"},"content":{"rendered":"<p>Meu trabalho como professor me p\u00f5e em contato com muitas pessoas, em muitos lugares, o que acaba me levando \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de observador privilegiado de comportamentos e emo\u00e7\u00f5es alheios. Do muito que eu poderia compartilhar sobre isso, um ponto vem a calhar com o dia de hoje e com a avalanche de textos sobre mulheres e suas contradi\u00e7\u00f5es (algumas que, devo confessar, n\u00e3o entendo): a rela\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria imagem e a necessidade de pertencer ao grupo (seja ele qual for) e estabelecer identidades a partir da apar\u00eancia.<\/p>\n<p>Por um lado, entendo a l\u00f3gica por tr\u00e1s desse mecanismo emocional, at\u00e9 por ter feito parte disso. Numa breve digress\u00e3o confessional, quando eu era adolescente, at\u00e9 o meio dos anos na faculdade, fui bem gordo. Para algu\u00e9m com menos de vinte anos, isso pode ser um pesadelo e, hoje, a quest\u00e3o \u00e9 mote para infind\u00e1veis discuss\u00f5es que v\u00e3o de bullying a dismorfia corporal. N\u00e3o fui exce\u00e7\u00e3o e, por isso mesmo, ao longo de dois anos, com supervis\u00e3o m\u00e9dica e paci\u00eancia, perdi 50 quilos.  O fim do processo coincidiu com mudan\u00e7as importantes em minha vida e ter boa apar\u00eancia tornou-se uma esp\u00e9cie estatuto que me inseriu em espa\u00e7os onde, antes, n\u00e3o podia estar. Cultivei isso por muito tempo, at\u00e9 perceber que s\u00f3 valia a pena pela parte do ser saud\u00e1vel, e que sacrif\u00edcios como n\u00e3o tomar cerveja com amigos ou levar uma marmita com salada e frango na feijoada do Dia das M\u00e3es era rid\u00edculo. Hoje, na idade do lobo, deixei para tr\u00e1s a busca por resultados sup\u00e9rfluos e curto a acabemia como uma forma de terapia, sem medir ningu\u00e9m e pouco me importar com quem, eventualmente, me me\u00e7a. <\/p>\n<p>Divido isso como &#8220;leitmotiv&#8221; para uma reflex\u00e3o sobre as fobias que tenho notado em pessoas j\u00e1 n\u00e3o t\u00e3o jovens (al\u00e9m das muito jovens, claro), que deixam de viver o agora em busca de uma constru\u00e7\u00e3o tant\u00e1lica do eu inating\u00edvel. Observo como \u00e9 imperativo afirmar-se por meio do registro, como prova material, do &#8220;eu estou fazendo tudo para ser um semi-deus, e voc\u00ea?&#8221;; observo ainda como muitos amigos e conhecidos se privam da vida por acharem que n\u00e3o fazem parte do clube do tanquinho, da bunda dura, do b\u00edceps 42 cent\u00edmetros e por a\u00ed vai. E se homens, historicamente menos cobrados quanto a isso, est\u00e3o sofrendo, imagino as mulheres que ainda n\u00e3o apertaram o bot\u00e3o do foda-se para tais cobran\u00e7as.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou me alongar nas considera\u00e7\u00f5es, nem vou citar Bauman para provar minhas teses pessoais: deixo isso para meus leitores, como desafio. Mas alerto que a quest\u00e3o aqui colocada dialoga abertamente com condutas que est\u00e3o na pauta da hora. O incidente com o estudante da UNESP de Bauru, morto ap\u00f3s ingerir doses extra-dionis\u00edacas de vodka (se \u00e9 que era vodka mesmo), tamb\u00e9m est\u00e3o ligadas a esse assunto: criar identidade a partir de um tra\u00e7o de car\u00e1ter espec\u00edfico. No caso do rapaz, avento a hip\u00f3tese de que, desde o in\u00edcio da faculdade, ele tenha se definido como &#8220;o cara que toma todas&#8221;, do mesmo modo que h\u00e1 &#8220;o cara que pega todas&#8221;, &#8220;o cara que tem pai rico&#8221;, &#8220;o cara mais bonito&#8221; e por a\u00ed segue a lista.<\/p>\n<p>Proponho a reflex\u00e3o, pois creio que \u00e9 apenas a partir dela que o indiv\u00edduo se torna um sujeito social consciente de si e livre da necessidade desse crach\u00e1 invis\u00edvel que, como tentei demonstrar, pode ser doloroso ou, em \u00faltima an\u00e1lise, letal. Abra\u00e7o e boa semana para todos, todas e todXs!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu trabalho como professor me p\u00f5e em contato com muitas pessoas, em muitos lugares, o que acaba me levando \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de observador privilegiado de comportamentos e emo\u00e7\u00f5es alheios. 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