{"id":13,"date":"2014-11-09T13:05:16","date_gmt":"2014-11-09T16:05:16","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/thiagocarbonel\/?p=13"},"modified":"2014-11-09T13:05:16","modified_gmt":"2014-11-09T16:05:16","slug":"opinar-doi-mas-soi","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/thiagocarbonel\/2014\/11\/09\/opinar-doi-mas-soi\/","title":{"rendered":"Opinar d\u00f3i, mas s\u00f3i"},"content":{"rendered":"<p>Comentei, recentemente, em sala como me provoca o sentido das palavras, o fato de simplesmente significarem e o percurso desse significar. Propus tal reflex\u00e3o acerca do voc\u00e1bulo &#8220;vestibular&#8221;, que vem de &#8220;vest\u00edbulo&#8221;, palavra que designa antessala &#8211; ou como arrepiaria os cabelos mais \u00edntimos de Aldo Rebelo, &#8220;hall&#8221; &#8211; e \u00e9 usado como qualificador de exame, ou seja, exame que antecede o ingresso, nesse caso, \u00e0 universidade. Ponderando, depois, sobre o ocorrido, pensei em outra: &#8220;papagaiada&#8221;, termo de origem popular que, segundo o velho e j\u00e1 n\u00e3o t\u00e3o bom Aur\u00e9lio (hoje sob a tutela da editora Positivo, mas era o que estava \u00e0 m\u00e3o), tem origem popular e indica a\u00e7\u00e3o ou exposi\u00e7\u00e3o rid\u00edcula. Ri comigo mesmo, tanto pela palavra, quanto pelo fato de, curiosamente, ser um asm\u00e1tico que n\u00e3o \u00e9 al\u00e9rgico a gatos, mas a papagaios. \u00c9 verdade, sou al\u00e9rgico a papagaios. Coisas da vida.<br \/>\nA com\u00e9dia das casualidades me fez constatar, ou voltar a constatar, que sou tamb\u00e9m al\u00e9rgico a papagaiadas &#8211; o que me parece deveras l\u00f3gico. E sinto, a cada dois anos, os inc\u00f4modos sintomas que o palavr\u00f3rio e a ret\u00f3rica de botequim trazidos pelas elei\u00e7\u00f5es me causam. Aberra\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, absurdos procedimentais, mau uso da imprensa, da m\u00e1quina p\u00fablica, de nossa paci\u00eancia e dignidade, enfim, pululam e s\u00e3o tratadas nas rodas de conversa, nos debates e, principalmente, nas redes sociais como algo s\u00e9rio. E \u00e9 s\u00e9rio, por\u00e9m de modo diverso daquele que parece ser o rumo que as conversas tomam.<br \/>\nA coer\u00eancia pessoal e o senso de rid\u00edculo me impediriam de tentar sustentar qualquer postura que, minimamente, sugerisse neutralidade: n\u00e3o sou apol\u00edtico, nem creio que haja cidad\u00e3o (entendido esse indiv\u00edduo como aquele que disp\u00f5e e alguma informa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica para compreender os meandros da pol\u00edtica em qualquer n\u00edvel) apol\u00edtico. Tenho minhas convic\u00e7\u00f5es, sim, mas elas n\u00e3o interferem no que pretendo expor.<br \/>\nTenho ouvido e lido muita papagaiada, na televis\u00e3o, no espa\u00e7o p\u00fablico (na \u00e1gora, como meu j\u00e1 \u00edntimo Bauman insiste), nas conversas informais, aqui na rede social. De um lado, dos pretensos ascetas &#8220;dilmaclastras&#8221; (gosto de brincar com as palavras, uai); de outro, dos irritad\u00edssimos petistas que, tal neur\u00f3ticos com s\u00edndrome do p\u00e2nico, arregalam seus j\u00e1 esbugalhados olhos para proferir palavr\u00f3rios em defesa de acusa\u00e7\u00f5es que, \u00e0s vezes, ainda n\u00e3o foram feitas.<br \/>\nPe\u00e7o ao leitor que, por caridoso favor, n\u00e3o pense que estou aqui a alfinetar &#8220;amigos de face&#8221; que j\u00e1 postaram suas opini\u00f5es. Parafraseando a Adriana Calcanhoto, eu respeito qualquer opini\u00e3o: o que eu n\u00e3o gosto (sic) \u00e9 dos bons modos daqueles que deliberadamente desdobram meias verdades em verdades e meia com o prop\u00f3sito de parecerem cr\u00edticos ou antenados. Apesar de ser um homem das humanidades, aprecio o pensamento l\u00f3gico e a irracionalidade disfar\u00e7ada de raz\u00e3o (quase) consegue me tirar do s\u00e9rio.<br \/>\nCada semana h\u00e1 o esc\u00e2ndalo da vez, a pol\u00eamica acalorada do momento, o frenesi alimentar daqueles que t\u00eam sede de sangue e acham Datena o ep\u00edtome de tudo que o jornalismo deve ser. Agora a bola da vez \u00e9 o j\u00e1 desgastado &#8220;caso da refinaria de Pasadena&#8221; (acho engra\u00e7ado o fato de cada jornalista pronunciar o termo em l\u00edngua inglesa de um modo, com o um tom de afeta\u00e7\u00e3o que me parece ser o term\u00f4metro exato da afeta\u00e7\u00e3o de seu senso cr\u00edtico). \u00c9 assunto pol\u00eamico, fato; \u00e9 dinheiro p\u00fablico que pode ter sido mal usado, fato; h\u00e1 uma crise financeira na Petrobr\u00e1s, fato. Fatos e mais fatos. Mas a j\u00e1 referida papagaiada n\u00e3o fica apenas nos fatos.<br \/>\nA ret\u00f3rica ensaboada dos alarmistas de plant\u00e3o me irrita, n\u00e3o apenas por ser mal intencionada, mas, principalmente, por desafiar minha intelig\u00eancia de leitor e cidad\u00e3o. Pois bem, se como eu disse h\u00e1 fatos, \u00e9 aos fatos que se deve recorrer: n\u00e3o a um, mas a todos. E como? Nas fontes que nos pare\u00e7am mais confi\u00e1veis, n\u00e3o?<br \/>\nJ\u00e1 baleei outros papagaios antes, dentre eles os daquela esp\u00e9cie que certos supostos formadores de opini\u00e3o criam em gaiolas de marxismo simplificado e soltam em meio a jovens encantados com o esquerdismo a la &#8220;the walking dead&#8221;. Um desses bichinhos insidiosos repetia por a\u00ed que a VEJA n\u00e3o deve ser lida por ser tendenciosa; que a Folha de S\u00e3o Paulo \u00e9 um jornal &#8220;comprado&#8221;, e por a\u00ed vai. Ora, caro leitor, cr\u00ea voc\u00ea que haja uma \u00fanica senten\u00e7a em nosso universo de linguagem que n\u00e3o seja tendenciosa? Eu poderia trazer a esta mesa improvisada de debates a opini\u00e3o de Bakhtin ou qualquer outro fil\u00f3sofo da linguagem, mas vou me valer de minha pr\u00f3pria autoridade: aceite o que eu digo, tudo que j\u00e1 foi ou ainda ser\u00e1 enunciado \u00e9 tendencioso, da B\u00edblia aos roteiros de filme porn\u00f4.<br \/>\nE sabendo disso, quem \u00e9 cr\u00edtico e pode, portanto, construir opini\u00f5es pr\u00f3prias, simplesmente aprende a separar a informa\u00e7\u00e3o, os fatos, e deixar a avalia\u00e7\u00e3o por conta pr\u00f3pria. Desse modo, se voltarmos \u00e0 famigerada aquisi\u00e7\u00e3o da refinaria em Pasadena, logo percebemos lacunas, que bem poderiam sem chamadas de abismos, na parlapatice dos que acusam Dilma Rousseff (que, reiterando a advert\u00eancia de que minha opini\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 irrelevante, n\u00e3o \u00e9 nenhuma santa, como alguns colegas petistas tentam pintar) de improbidade. Eles se baseiam no fato de que a refinaria foi comprada, por 360 milh\u00f5es de d\u00f3lares, de uma empresa que a havia comprado antes por 42 milh\u00f5es. Foi o que eu li aqui, em v\u00e1rios posts. Nas variadas revistas semanais h\u00e1 algumas informa\u00e7\u00f5es adicionais; nos jornais j\u00e1 pontuam dados extras, por\u00e9m de modo vago. Curiosamente, na fonte que por princ\u00edpio \u00e9tico e por maior acessibilidade aos fatos que constam nas investiga\u00e7\u00f5es \u00e9 que me deparo as piores distor\u00e7\u00f5es: nas falas proferidas na C\u00e2mara dos Deputados e no Senado (preciso confessar que ou\u00e7o &#8220;A voz do Brasil&#8221;). Ok, talvez seja ingenuidade minha crer que os representantes do povo devam ser \u00e9ticos, mas entendam que \u00e9 preciso partir de algum princ\u00edpio, de alguma ordem que organize o caos.<br \/>\nPor ali, circulam, abobalhados, deputados, senadores, seus respectivos e numeros\u00edssimos assessores, procuradores e s\u00e9quito equivalentes, representantes com crach\u00e1s das mais variadas cores, mas ningu\u00e9m parece perguntar o essencial: uma empresa adquire uma refinaria e n\u00e3o faz nenhum investimento no bem adquirido? Se n\u00e3o, h\u00e1 aqui algo muito equivocado na gest\u00e3o empresarial de tal empresa; se sim, onde est\u00e3o os dados de tais investimentos? Sim, pois isso faria o valor da refinaria aumentar. Refinarias &#8211; e meus leitores engenheiros corrijam-me se estiver errado &#8211; mant\u00eam silos de armazenamento do combust\u00edvel produzido. Considerando que a aquisi\u00e7\u00e3o se deu em um momento no qual o valor dos combust\u00edveis batia sucessivos recordes (palavra parox\u00edtona, por favor), imagino c\u00e1 com meus bot\u00f5es que o montante estocado na data da compra tivesse valor significativo. Pois bem: havia combust\u00edvel estocado? Se sim, ele foi comprado pela Petrobr\u00e1s no neg\u00f3cio da aquisi\u00e7\u00e3o? Se foi comprado, quanto era e por quanto foi comprado? O valor confere com os pre\u00e7os praticados \u00e0 \u00e9poca? Ora, todos esses fatos que ainda n\u00e3o pude ler aqui, nem ouvir nos debates, muito menos na fala de parlamentares, podem explicar muito ou, ent\u00e3o, posicionar melhor as interroga\u00e7\u00f5es acusat\u00f3rias.<br \/>\nO que sei e posso j\u00e1 adiantar \u00e9 que acusar Dilma diretamente \u00e9, tecnicamente, um equ\u00edvoco. A decis\u00e3o da compra veio de um um \u00f3rg\u00e3o colegiado que funciona como conselho deliberativo e, no caso da Petrobr\u00e1s naquela \u00e9poca, envolvia empres\u00e1rios que n\u00e3o tomariam decis\u00f5es atrapalhadas, seja pela experi\u00eancia que j\u00e1 haviam demonstrado na gest\u00e3o privada, seja porque tal passo em falso arruinaria suas imagens como administradores &#8211; e, creiam, estou falando de gente que n\u00e3o liga a m\u00ednima para quem \u00e9 presidente do Brasil ou quais interesses pol\u00edticos estejam em jogo por aqui. Trocando em mi\u00fados, a compra foi uma decis\u00e3o de um grupo de pessoas altamente qualificadas e que representavam interesses bem maiores que os do atual governo ou mesmo do ent\u00e3o governo de Lula. Al\u00e9m do mais, adquirir uma refinaria n\u00e3o \u00e9 como comprar um terreno ou carro (&#8220;deu a louca vai l\u00e1 e compra&#8221;): \u00e9 um processo ponderado, antecedido por avalia\u00e7\u00f5es de risco de mercado feitas por consultorias diferentes e cujos pareceres documentados ficam arquivados. Esses dados existem, mas onde est\u00e3o? Por que ainda n\u00e3o foram divulgados?<br \/>\nH\u00e1 n\u00e3o apenas uma, mas at\u00e9 onde sei quatro investiga\u00e7\u00f5es em curso. Estes documentos est\u00e3o sob cust\u00f3dia da lei? Se sim, parece-me muito mais proveitoso que os autores de papagaiadas usem seu f\u00f4lego e ret\u00f3rica para reivindicarem tais fatos que podem comprovar suas acusa\u00e7\u00f5es ou esclarecer seus anseios de cidad\u00e3os preocupados com o bom uso do dinheiro p\u00fablico (eu e minha ingenuidade de novo), n\u00e3o vejo outra conduta a ser seguida. O sil\u00eancio ou a insist\u00eancia no uso de dados vazios indicar\u00e1 a inten\u00e7\u00e3o deliberada de emitir opini\u00f5es deturpadas ou, no pior dos casos, a in\u00e9pcia para o exerc\u00edcio da cidadania. Espero que a verdade venha \u00e0 tona, que os brasileiros recebam os devidos esclarecimentos, que as elei\u00e7\u00f5es tenham como resultado o melhor para nosso pa\u00eds &#8211; estou sendo realmente sincero &#8211; mas, espero, acima de tudo, que os que desejam emitir suas opini\u00f5es n\u00e3o ofendam t\u00e3o descaradamente quem ainda ousa pensar um pouco que seja.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comentei, recentemente, em sala como me provoca o sentido das palavras, o fato de simplesmente significarem e o percurso desse significar. 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