{"id":889,"date":"2013-10-22T21:58:12","date_gmt":"2013-10-23T00:58:12","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/?p=889"},"modified":"2013-10-23T15:25:27","modified_gmt":"2013-10-23T18:25:27","slug":"o-que-daremos-aos-nossos-filhos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/2013\/10\/22\/o-que-daremos-aos-nossos-filhos\/","title":{"rendered":"EM QUE ESQUINAS FICARAM OS NOSSOS IDEAIS?"},"content":{"rendered":"<p>(PROFESSOR LUIZ CL\u00c1UDIO JUBILATO &#8211; 18\/10\/2023)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nossos filhos entoavam hinos \u00e0 liberdade, contaminamos cada um deles com o desvario da esperan\u00e7a. Levant\u00e1vamos os punhos cerrados. \u00a0Brig\u00e1vamos contra nossos pr\u00f3prios erros. Cremos na paz, mas us\u00e1-la para provocar a revolu\u00e7\u00e3o. Nossas certezas exprimiam-se entre os cantos das bocas e o ranger dos dentes. Os perdigotos balizavam a secura da nossa saliva. Nossas vozes roucas ganhavam corpo. Quer\u00edamos a revolu\u00e7\u00e3o. March\u00e1vamos sem fuzis, pistolas nem canh\u00f5es. Nossas armas s\u00e3o nossos corpos, nossa indigna\u00e7\u00e3o. Os velhos carregavam nos ombros as saudades dos anos 60: &#8220;Caminhando e cantando\/e seguindo a can\u00e7\u00e3o\/somos todos iguais\/bra\u00e7os dados ou n\u00e3o&#8221;. Os jovens gritavam, com raiva, por uma nova na\u00e7\u00e3o, sem politicagem, sem corrup\u00e7\u00e3o: &#8220;Quem sabe\/faz a hora\/n\u00e3o espera acontecer&#8221;. Ro\u00e7avam seus corpos suados invocando a democracia, \u00fanica teia que os uniam.<\/p>\n<p>Milhares de pessoas marchavam sem coturnos, mas com disposi\u00e7\u00e3o. A multid\u00e3o cansada investiu contra bandeiras viciadas de partidos empanturrados de poder. Sindicalistas infiltrados levaram bofetadas com suas bandeiras surradas, pois queriam tomar para si a paternidade da revolu\u00e7\u00e3o. Os que tinham cara de dedos duros e cabos eleitorais foram reduzidos a ratos escorra\u00e7ados, o que, na verdade, s\u00e3o. Nas esquinas das cidades, embolavam-se berros, punhos, cartazes e cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Na multid\u00e3o de an\u00f4nimos, a criancinha carregada no colo do pai exibia a foto: \u00a0&#8220;Minha fralda \u00e9 mais limpa que o congresso nacional&#8221;. A foto nos telejornais, nas capas de revistas e jornais virou o que se chama hoje de marketing viral. Todos os que viram, riram. Todos os que riram, n\u00e3o viram o \u00f3bvio. Todos os que riram, n\u00e3o se reconheceram na foto. Ela \u00e9 a s\u00edntese da nossa incompet\u00eancia, de toda a nossa aliena\u00e7\u00e3o. N\u00f3s estamos na merda. Os porcos continuam entocados no poder. Sabemos onde est\u00e3o, fazendo o que e por qu\u00ea? Por que n\u00e3o prestamos aten\u00e7\u00e3o nos risos sarc\u00e1sticos, nos discursos cheios de palavras intraduz\u00edveis para os pobres, repletos de sedu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>A toca \u00e9 a s\u00edntese do n\u00e3o: n\u00e3o fazemos nada para os outros, somente para n\u00f3s; n\u00e3o adianta gritarem, n\u00e3o acreditamos em revolu\u00e7\u00e3o; n\u00e3o, n\u00e3o interessa o que quer o povo, se for preciso sacrificaremos gera\u00e7\u00f5es. Vamos dar ao populacho, \u00e0 patuleia ensandecida o que ela mais ama, mas n\u00e3o sabe o que elas escondem: um monte de promessas vazias e siglas que ningu\u00e9m entende, mas aprecia: ENCEJA, \u00a0PROUNI, ENEM, PAC.<\/p>\n<p>Aprendemos que pol\u00edtica n\u00e3o se discute, detestamos pol\u00edtica, odiamos os pol\u00edticos. Preferimos as novelas, o chope, o \u00f3dio represado, n\u00e3o canalizado, que n\u00e3o nos leva a lugar nenhum. Surgem os profetas nos bares; os revolucion\u00e1rios da sala de aula; os universiot\u00e1rios do dizer e do desdizer: uns pregam em grego, outros gritam em latim, muitos falam em ingl\u00eas, a maioria n\u00e3o faz nada em portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Essa crian\u00e7a um dia ser\u00e1 um jovem, o tempo exibir\u00e1 sua foto, sua curta hist\u00f3ria. Riremos mais uma vez, mas o que contaremos a ele? Por que nossos gritos e atitudes n\u00e3o limparam o coc\u00f4? Conseguiremos, com nossos olhos sem l\u00e1grimas, esbugalhados, pasmados, dizer a ele que, mais uma vez fracassamos? Fomos manipulados. Desviaram nossas aten\u00e7\u00f5es do que era mesmo importante. At\u00e9 quando usaremos esse discurso de que a culpa n\u00e3o \u00e9 minha, n\u00e3o votei em ningu\u00e9m? S\u00e3o todos iguais, todos assaltam algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Nossas bandeiras eram amplas demais. Ent\u00e3o, por que as empunhamos? Por que permitimos que um bando de idiotas tomassem de assalto os protestos leg\u00edtimos que faz\u00edamos? Ah! Algu\u00e9m dir\u00e1: &#8220;Isso \u00e9 democracia. Todo mundo tem o direito de se manifestar&#8221;. \u00c9 verdade: at\u00e9 todos aqueles que jamais assumir\u00e3o suas culpas. At\u00e9 aqueles que s\u00f3 se indignam antes do jantar. At\u00e9 aqueles que nunca mudam e nunca contribu\u00edram com nada pra mudar. At\u00e9 mesmo os modistas, os que desfilaram nas ruas suas grifes porque era modismo gritar.<\/p>\n<p>A democracia \u00e9 assim, tem seus princ\u00edpios b\u00e1sicos: todo mundo tem o direito de falar e tamb\u00e9m se calar. Os porcos continuam ditando as regras, na &#8220;democratura&#8221;, comendo no almo\u00e7o e no jantar fatias suculentas da nosso trabalho, nossas idiotices, convertidas em poder. E, n\u00f3s, acorrentados em nossos pelourinhos invis\u00edveis, ainda temos o despaut\u00e9rio de reclamar. Vamos continuar com essa hist\u00f3ria de que a democracia \u00e9 assim? Ent\u00e3o devemos ter uma ditadura? Claro que n\u00e3o. Por\u00e9m, do jeito que est\u00e1 e estar\u00e1, n\u00e3o pode ficar.<\/p>\n<p>Os que se disseram revolucion\u00e1rios um dia, mas n\u00e3o quiseram, nesse momento cr\u00edtico, se levantar. V\u00eam com o discurso burro e fracassado de que fizeram tudo para mudar. E tudo est\u00e1 como est\u00e1. Eles s\u00e3o a frauda. Por culpa deles que n\u00e3o n\u00f3s legaram nada e por que tamb\u00e9m n\u00e0o achamos sa\u00edda \u00e9 que somos a frauda e estamos na merda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(PROFESSOR LUIZ CL\u00c1UDIO JUBILATO &#8211; 18\/10\/2023) &nbsp; Nossos filhos entoavam hinos \u00e0 liberdade, contaminamos cada um deles com o desvario da esperan\u00e7a. Levant\u00e1vamos os punhos cerrados. \u00a0Brig\u00e1vamos contra nossos pr\u00f3prios erros. 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