{"id":784,"date":"2013-09-13T22:49:15","date_gmt":"2013-09-14T01:49:15","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/?p=784"},"modified":"2014-01-19T09:33:12","modified_gmt":"2014-01-19T12:33:12","slug":"vita-vaos-e-seus-desvaos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/2013\/09\/13\/vita-vaos-e-seus-desvaos\/","title":{"rendered":"VITA,V\u00c3OS E SEUS DESV\u00c3OS"},"content":{"rendered":"<p>(PROF.:LUIZ \u00a0CL\u00c1UDIO JUBILATO)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ruas v\u00eam, ruas v\u00e3o. Os passantes trope\u00e7am nos seus pr\u00f3prios cal\u00e7ados, nos v\u00e3os. Nos peda\u00e7os de cal\u00e7ada, nos desn\u00edveis, nas po\u00e7as d&#8217;\u00e1gua, nos pedintes, nos vendedores de falsidades, nos proxenetas travestidos de gente.<\/p>\n<p>Passageiros enfrentam-se do queixo para baixo. Os homens olham para tr\u00e1s, as mulheres visam e desvisam os olhos sempre para frente. Guerra. Ombro a ombro. Bal\u00e9 de mancos: um pra l\u00e1; dois pra c\u00e1.<\/p>\n<p>Passantes passageiros espremem-se entre a parede e a sarjeta. Emburrecidos, nem se viram emparedados; equilibristas, p\u00f5em um p\u00e9 aqui, outro ali; um na cal\u00e7ada, outro no asfalto. Ro\u00e7am nos outros. N\u00e3o se olham. N\u00e3o se veem. Nunca se sentem. Jamais se sentir\u00e3o.<\/p>\n<p>Engenheiros quebram as ruas com as esquinas. Nelas penduram a cangalha entre os postes. Todo gado tem de olhar pra cima. Para os lados. Para frente. Pra tr\u00e1s. Firmar o corpo pra n\u00e3o ser empurrado. \u00c9 a regra, a lei para os bo\u00e7ais.<\/p>\n<p>A cangalha amarela avisa: &#8220;Olha! A morte \u00e9 vermelha. Pare. Pense. Est\u00e1 \u00e0 espreita no corpo parado ou nos riscos de pneus no asfalto; a liberdade \u00e9 verde, pode ser mera ilus\u00e3o. Andar guiado por sinais. Pris\u00e3o. Algemas invis\u00edveis. Muletas. O vermelho projeta a grade por tr\u00e1s dos olhos, \u00e9 sangrar; O verde \u00e9 a esperan\u00e7a. Quebra os grilh\u00f5es. Nos tira da in\u00e9rcia. Ser\u00e1?<\/p>\n<p>Quantos sacrificaram vidas avan\u00e7ando; quantos a mantiveram ao parar? Quantos morreram parados; quantos escaparam ao se projetar?\u00a0A necessidade nos obriga a seguir. Cumpriremos. Temos de engolir qualquer competidor. Deglutir um opositor. Carregamos o cabresto. Estamos armados de impaci\u00eancia, suor, desejo, metas, dist\u00e2ncia. Querem nos adestrar os gurus de gest\u00e3o, os chefes de setor, os comensais. Estamos debaixo do relho. Gemeu, est\u00e1 fora. Despedido. Mandado embora.<\/p>\n<p>Senho franzido. Corrida suada. Olhos fixados na presa. Impregnados das incertas certezas. Temos de seguir os manuais para resolver irresolutas quest\u00f5es. H\u00e1 uma b\u00edblia guiano nossas atitudes, encarcerando em mandamentos tamb\u00e9m em t\u00f3picos nossa inensatez, nossa lucidez, nossa estupidez.<\/p>\n<p>Somos passantes passageiros como que na janela de um trem. Passageiros no guich\u00ea de uma rodovi\u00e1ria. Passantes no eterno check in do aeroporto. Por um segundo, nos encontramos, \u00a0nos percebemos, nunca nos sentiremos, mesmo se a m\u00e1quina parar.\u00a0Seres m\u00e1quinas. Escolha pr\u00f3pria. Pessoal.<\/p>\n<p>Passantes passageiros carimbados com o fedor na pressa da cidade que borbulha, anestesia, estupra, consome, violenta. N\u00f3s um dia sairemos dela, ela, com seus n\u00f3s, jamais sair\u00e1 de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Ruas, seus v\u00e3os, uns os veem, outros desv\u00e3os. E todos n\u00f3s habitamos nossos corpos, as mentes dos outros. Que nos desprezam. Que nos amam. Que nos querem dentro de si ou n\u00e3o. Estamos s\u00f3s, com nossas saudades, desejos, medos, constru\u00e7\u00f5es. Queremos o mar. Queremos a terra. Queremos a seguran\u00e7a. Queremos voar. As vit\u00f3rias n\u00e3o nos redimem, as derrotas tamb\u00e9m n\u00e3o. Carregamos conosco nossas carnes j\u00e1 sustentadas por nossos ossos. A vida \u00e9 mera condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estamos estacados na esquina. Cidade quebrada. destinos quebrados, sen\u00e3o emaranhados. A pris\u00e3o ou a liberta\u00e7\u00e3o n\u00e3o interessam. \u00a0Ignoramos\u00a0o verde e o vermelho. Esticamos a m\u00e3o. Gritamos: t\u00e1xi!!! Cheio. O condutor finge n\u00e3o nos ver. A nossa existente inexist\u00eancia \u00e0 beira da cal\u00e7ada. N\u00e3o \u00e9 um corpo, mas mera m\u00e3o.<\/p>\n<p>Se vazio, o condutor p\u00e1ra para saber se , do nosso destino, se dignar\u00e1 a participar. Olha os nossos trajes, afinal correspondeu somente ao\u00a0nosso sinal, ao nosso anseio. Somos apenas agora a nossa m\u00e3o. Abre os dentes sem simpatia. Somos agora a carne apenas para preencher o est\u00f4mago do vazio. Sustento. Nada mais.<\/p>\n<p>Os dias s\u00e3o assim enfim: t\u00e1xis param ou avan\u00e7am obedecendo a sinaliza\u00e7\u00e3o. Cheios de vida, n\u00e3o param para ningu\u00e9m. Carregam os \u00a0protagonistas das prmessas. Das com\u00e9dias, trag\u00e9dias, s\u00e9ries de possibilidades. Os vazios procuram nas cal\u00e7adas os coadjuvantes, diretores dirigidos, roteiristas de bares soturnos onde escrevem todos os dias o roteiro da sua cultivada tamb\u00e9m adubada solid\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(PROF.:LUIZ \u00a0CL\u00c1UDIO JUBILATO) &nbsp; Ruas v\u00eam, ruas v\u00e3o. Os passantes trope\u00e7am nos seus pr\u00f3prios cal\u00e7ados, nos v\u00e3os. Nos peda\u00e7os de cal\u00e7ada, nos desn\u00edveis, nas po\u00e7as d&#8217;\u00e1gua, nos pedintes, nos vendedores de falsidades, nos proxenetas travestidos de gente. Passageiros enfrentam-se do queixo para baixo. 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