{"id":384,"date":"2013-06-02T00:49:58","date_gmt":"2013-06-02T03:49:58","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/?p=384"},"modified":"2013-06-04T10:45:12","modified_gmt":"2013-06-04T13:45:12","slug":"canibal","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/2013\/06\/02\/canibal\/","title":{"rendered":"CANIBAL"},"content":{"rendered":"<p>DEUS dentes<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ando emoldurado pela neblina e as luzes dos postes. Respiro a cidade com seus guetos, templos, suas vestais e o seu despudor. Nada disso me interessa. Sou um deus, com botas de couro. Piso as po\u00e7as d&#8217;\u00e1gua, sem me molhar com a podrid\u00e3o. Entre a paz e o medo, caminho dividido como um mortal. Venho impregnado de certezas. Me atropelam as incertezas. Carrego o mundo tatuado em vincos. Nas palmas das \u00a0m\u00e3os: trilhas, picadas, as estradas principais, as vicinais, ruas e avenida. Todas em mim. Expremo um chiclete entre dentes. Mordo meu destino com avidez. Pare\u00e7o um ruminante. B\u00fafalo. For\u00e7a desmedida. Sem saber pra que, nem por que. O vermelho na minha boca parece borra de sangue, mas n\u00e3o \u00e9. Cachup engana. Parece, mas n\u00e3o \u00e9. Ando empanturrado de arrog\u00e2ncia. Pan\u00e7a cheia de sandu\u00edches. N\u00e3o creio em armas, nem guerrilhas. Creio no que vejo. Marginais. Rev\u00f3leres. Vejo possibilidades. No corpo, ossos proeminentes. M\u00fasculos indecentes. Criados com anabolizantes. Esculpi a fantasia de gladiador. Enfrento qualquer ladr\u00e3o com o poder da minha espada. Minha h\u00f3stia. Minha cren\u00e7a. Em mim. A religi\u00e3o do eu sozinho. Encastelado na minha f\u00e9 em mim mesmo. Bato na cara dos outros. Sem correr. Sem temer a morte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>ESQUINA quina<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na esquina, vermelhid\u00e3o, est\u00e1tua de pele e pelos. Masculina feminlidade. Denunciam &#8211; talvez o rosto; talvez os olhos&#8230; de gazela&#8230; de le\u00e3o&#8230; talvez o cora\u00e7\u00e3o&#8230; Ele cobi\u00e7a carne. A minha. A nossa. Abate qualquer uma. \u00c9 um a\u00e7ougue. Ambulante. Comerciante de corpos. Ajusta sua mira. Vislumbre de ca\u00e7ador. De matador. Sem perd\u00e3o. Sem remorso. Sem pudor. A quina da parede onde se ap\u00f3ia. \u00a0E tamb\u00e9m o salto. Maachuca suas costas. Nunca temeu a dor. Rela nela. O chicote. O cuspe. O desd\u00e9m. Acostumou-se ao desprezo. D\u00f3i. \u00c9. Como estaca no peito. Como pedras pontiagudas. Ferida no corpo. N\u00e3o na alma. Deseja ter o meu ser. Ele mal se aguenta dentro das cal\u00e7as. Sexo, a sua profiss\u00e3o. Orgasmo, seu parque de divers\u00f5es. Mesmo frustrado. Mesmo pago. Arrasta pelas ruas, esquinas e becos a arma sedutora: a boca. Enorme. Disforme. Pelo batom. Cor de sangue. O f\u00edsico travestido. De mulher. Esconde o homem. As m\u00e3os&#8230; Ah! as m\u00e3os&#8230; O pomo de Ad\u00e3o proeminente. Como placas de neon. Indecente. As unhas escuras. Capazes de arranhar alma corpos e almas quaisquer. Basta cortarem o caminho. Feito faca. Feito destino. Atroz. Feroz. \u00c9. Lutador. Pegador. Sabre em riste. Dedo em riste. P\u00eanis em riste. Cara triste. Cobra o pagamento. Pela lambida. Pela chupada. Estupro na noite. De v\u00e1rios. De todos. Sobras de tudo. Amor de ningu\u00e9m. Aceita f\u00e1cil. \u00c9 assim. Sempre foi assim. Atormentado. Quase fera. Transgressor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>CINZA<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cidade cinza.\u00a0Pessoas cinzas. Sentadas sobre fatos. Jornais sanguessugas. Enchem a barriga de crimes. Transpiram imund\u00edcie. O inumano. A demoniza\u00e7\u00e3o da vida. Dos marginalizados. Para os que trazem a religi\u00e3o nos bolsos. Mercadores da f\u00e9. Refestelam-se para o bem de. Maldi\u00e7\u00e3o dos outros. Pecados dos outros.\u00a0\u00c9. Sordidez. Estupidez. Ele sabe disso. Ele \u00e9 a cor. Expl\u00edcita. Berrante. Agride. Tem garras. O Botox n\u00e3o disfar\u00e7a sua idade. O silicone n\u00e3o compra outra natividade. Esconde-se onde a luz n\u00e3o est\u00e1. Por tr\u00e1s da maquiagem. Onde os puros n\u00e3o se criam. Apenas os torpes. Os viciados em a\u00e7\u00e3o. Sua casa s\u00e3o as esquinas. Seu condom\u00ednio, os quarteir\u00f5es. Os becos imundos. O submundo de luz ba\u00e7a. De len\u00e7\u00f3is tatuados com manchas. De desprazer. Medido pelos minutos. Pelos poucos reais. Pagamentos irreais. Pelo trabalho suado. Marginalizado. Desgra\u00e7ado. Desgarrado. Incriminado. Pelos falsos profetas. N\u00e3o quer ser salvo. N\u00e3o v\u00ea sa\u00eddas. Suborna, com voz for\u00e7ada. Doce. Gutural. Quem se atreve. Se aproxima. Querendo. Implorando. Quem porta propostas. Amorosas. \u00a0Sorri. Cobra. Expreita a presa. Prostitui-se dentre possibilidades. Ama o indecoroso. Nunca se submete. Tece teias. Aranha que \u00e9. Somente a calcinha arrochada. Disfar\u00e7a. O perrturba. O expreme. O incomoda. Parte da cidade dorme. Outra parte se mant\u00e9m son\u00e2mbula. \u00a0O medo mant\u00e9m virgens os \u00e0 procura de afeto. N\u00e3o de sexo. Idiotas. H\u00edmen. Lugar estranho para colocar a honra familiar. Desde crian\u00e7a n\u00e3o sabe o que \u00e9 virgindade. Dignidade. Marginal que \u00e9.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A B\u00cdBLIA porrada<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Arrogante, creio ser capaz de ser o bem. Amado. Idolatrado. Arrasto. Deus mortal. A minha solidez. Minha estupidez. Sinto-me rocha pontiaguda arrebentando. A parede. Aguentando trombadas. Elas esculpem. Meu car\u00e1ter. Meu senso. Minha B\u00edblia s\u00e3o minhas convic\u00e7\u00f5es. \u00a0Meu altar. Minhas varizes queimam como \u00e1cido. S\u00e3o o meu sacrif\u00edcio. Em prol da humanidade. Creio. Minha doa\u00e7\u00e3o ao risco. Creio. Minhas l\u00e1grimas e minhas pernas me levam a nadar sobre o submundo.\u00a0As ruas infectas. Gente porcaria. Creio. Mastigo minha l\u00edngua. Uso a \u00e1gua da chuva. Me sinto limpo. Creio. Empurro o sangue goela abaixo. Dobro a esquina sem ser tocado. Cora\u00e7\u00e3o na boca. Peito arfante. Driblei o destino. Repeli olhares pid\u00f5es. Quero a seguran\u00e7a da moral. Da hipocrisia. Dos bons costumes. Na inseguran\u00e7a segura. Da minha casa. Da b\u00edblia. Arisco. N\u00e3o corro riscos. N\u00e3o me afogo na lama do pecado. Acredito. Nas regras sociais. Nas leis. Nos mentirosos. De roup\u00e3o. Ladr\u00f5es de consci\u00eancias. Tr\u00f4pegas. Acr\u00edticas. Na falsidade. Sou alicerce. Sustent\u00e1culo. Me submeto. Impass\u00edvel. Corrig\u00edvel. Aos ditames.\u00a0Das incont\u00e1veis igrejas. Da religi\u00e3o. Da prega\u00e7\u00e3o. Cheia de meias verdades. Massacradas pela autoridade. Escravizadora. Comercial. Da dem\u00eancia. Causada pela falta de indigna\u00e7\u00e3o. De imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>+ \u00a0EU carne<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Passo. N\u00e3o olho pro lado. S\u00f3 pra frente. Olhares me dissecam. Dilaceram. Minha carne. Minha pele. Minha idoneidade conservadora. Bajuladora do poder. Macho contido. Supostamente heterossexuado. Sem batom. N\u00e3o porto m\u00e1scara. Acho. Nem fantasia. Acho. N\u00e3o \u00e9 carnaval. Pelos menos acredito no n\u00e3o. Ele ataca. Masculinamente mulher. Musculosamente quase mulher. Promessas rasgam meus ouvidos. Ouvidos moucos. N\u00e3o quero ver. Nem ouvir. O medo risca minhas entranhas. Martelo a tecla. N\u00e3o posso ceder. Quero catequis\u00e1-lo. S\u00f3 n\u00e3o o fa\u00e7o porque chove. Acho. Tenho a minha miss\u00e3o. Acho.N\u00e3o me digno a coloc\u00e1-la diante de um ser. Que a sociedade. Dita do bem. Rosna que \u00e9 enfermidade. Penso em correr. Ele tem miss\u00e3o. A dele. Perscruta. Quer. Muda de dire\u00e7\u00e3o. N\u00e3o esfrego na cara possibilidades. N\u00e3o quero. Acho. N\u00e3o vou. Curioso. Escondido atr\u00e1s dos olhos. Tenho a vis\u00e3o arrebatadora. Da falta. De moral. Social. Ele a ignora. Se escangalha de rir. Troca de presa. Sem aviso. Sem ju\u00edzo. De valor. Valor capitalista. Elitista. Pseudo. Pseudo tudo. Fico com raiva. Acho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>CANIBAL animal<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que aplaca sua vol\u00fapia? Seu desejo de abater? Carne nova. Imberbe. Ou homens supostos. Escondidos atr\u00e1s de alian\u00e7as. Avan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o a um carro. A placa est\u00e1 coberta. Considera se vale a pena. A v\u00edtima est\u00e1 ali. Escondida pelo vidro enegrecido de prop\u00f3sito. Parada. Sem saber de seus dentes de sabre. Tem tamb\u00e9m sede de amor. Bandido. O propositor some na noite. Engolido pelas Sombras. Transeunte carcomido pelas circunst\u00e2ncias. Do desejo incontrol\u00e1vel. Que agride sua ess\u00eancia. Em crise de normas. Se perder\u00e1 nos descaminhos da vida. Vira n\u00famero. Comedido. Casado. Frustrado. A ca\u00e7ada recome\u00e7a. O pre\u00e7o transmuta-se . Em sustento. \u00c9 comida. E comedor. Pantagru\u00e9lico. Guloso. Intimidador. Ainda n\u00e3o amanheceu. H\u00e1 carne \u00e0 solta. corpos an\u00f4nimos. Para serem consumidos. Mercadorias. Consumadas ou consumir. Afia a genit\u00e1lia. Range os dentes. Hora do ataque. Pretendo crucific\u00e1-lo. A sociedade. J\u00e1 o fez. Quero sair de mim. De si. Dali. Quem a ca\u00e7a? Quem o ca\u00e7ador? Quem o mal? Eu vestal. Ele o mal. Quem de n\u00f3s todos. \u00c9 o animal? O predador? O comensal? O canibal?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(Por Luiz Cl\u00e1udio Jubilato &#8211; 02\/06\/2013)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DEUS dentes &nbsp; Ando emoldurado pela neblina e as luzes dos postes. Respiro a cidade com seus guetos, templos, suas vestais e o seu despudor. Nada disso me interessa. Sou um deus, com botas de couro. Piso as po\u00e7as d&#8217;\u00e1gua, sem me molhar com a podrid\u00e3o. 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