{"id":1454,"date":"2017-05-28T11:51:02","date_gmt":"2017-05-28T14:51:02","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/?p=1454"},"modified":"2017-05-28T11:52:26","modified_gmt":"2017-05-28T14:52:26","slug":"digestao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/2017\/05\/28\/digestao\/","title":{"rendered":"Digest\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Noutro dia, a c\u00f3lica me fez acordar de madrugada para me enfiar goela baixo mais uma pedra lembran\u00e7a de tantas coisas pontiagudas, rascantes, quantas engoli para estar aqui. E o que significa estar aqui? Sei l\u00e1. S\u00f3 sei que quero voltar para casa outra vez. Para voltar para ir embora de novo? Talvez.<\/p>\n<p>A cidade \u00e9 calor. Empoeirado calor. Empoleirado calor.<\/p>\n<p>O calor da cama \u00e9 cruel, queima. Bicho. \u00c1gua viva. Est\u00e1 sob e sobre a pele. Bicho geogr\u00e1fico. Sede. Bicho.<\/p>\n<p>Vivo agora estou, sei isso. D\u00f3i a noite que me empurrou mais uma daquelas escolhas, a que chamam idiotamente de destino. Deus deveria decidir por mim. Talvez eles estejam certos: Deus escolhe sorrateiro, matreiro, mas existe existindo, na cara contrita, nas m\u00e3os espalmadas das pessoas com o livro sacralizado debaixo do bra\u00e7o. Deus se esconde atr\u00e1s desse mito, desse tal de destino. Ele \u00e9 o \u201cas\u201d de ouros. Cortando o baralho tal qual navalha. Blefa. Bate. Bota cren\u00e7a na desraz\u00e3o dos embotados. Bate. N\u00e3o se compromete nas sombras. Blefa. Alugou-as para o diabo.<\/p>\n<p>Crentes, suas criaturas s\u00e3o omissas. Submissas \u00e0 sua chibata sequiosa. Precisa amamentar os fracassados, obrig\u00e1-los a assumir suas culpas, alimentar suas desculpas. Que culpa? A culpa \u00e9 a desculpa. Culpa de ter culpa. Deus o aben\u00e7oe \u2013 \u00e9 assim que se trata os energ\u00famenos.<\/p>\n<p>Uma noite e mais um dia e mais uma noite e mais um dia, tantos quantos eu me dignar a suportar, a levantar para apontar o nariz para qualquer lado do meu universo descrente. Sinto, sinceramente, a tolice. N\u00e3o convivo bem com a minha burrice. Sou med\u00edocre demais para isso.<\/p>\n<p>Tenho que rodar a ma\u00e7aneta. Atirar-me porta a fora. Ouvir coisas sobre mim, como se ali n\u00e3o estivesse, e n\u00e3o estou. Engolir a cara dos muitos outros, servir-me de seu odor, do seu fedor, de suas opini\u00f5es. Jogar com suas m\u00e1scaras, brincar suas fantasias de her\u00f3is, de princesas, de seres inalcan\u00e7\u00e1veis na plenitude de suas verdades \u00fanicas. Vezes e vezes agir como um cego para suportar conviver, sair. Estar vivo \u00e9 cumprir obriga\u00e7\u00f5es. Sair. Querem que eu saia. Sou um empecilho ao seu sossego.<\/p>\n<p>Minha mente, meus sonhos, meus ideais, minhas distopias, minhas obriga\u00e7\u00f5es correm muito, muito mais que as minhas pernas descoordenadas, que mal sustentam meus p\u00e9s tortos, ca\u00eddos. Uma trope\u00e7a na outra. Vacilo de um lado para outro at\u00e9 que algu\u00e9m me ampare e se desdobre em conselhos que tomaram para si, n\u00e3o praticam desde que os apartaram das fraudas. Minha cara sempre na mira do precip\u00edcio. Desobediente ao medo, \u00e0s vezes me rebelo, mas a \u201clei\u201d da gravidade, sempre cruel, n\u00e3o abre precedentes, age tal qual um verdugo. Neste instante solene, com cara de idiota ensanguentado, cotovelos e joelhos ralados, estou voltando para casa outra vez. Para ficar para sempre? Talvez.<\/p>\n<p>E Pers\u00e9fone est\u00e1 ao alcance da palma da m\u00e3o, das unhas, debaixo dos len\u00e7\u00f3is, o corpo sedento sua, a boca seca de um beijo de favor? N\u00e3o, de amor. Hades, sempre ele, bafeja sua pestil\u00eancia noturna: Acorda! Levanta-te. O p\u00eanis s\u00f3 abriga \u00e1gua morna, j\u00e1 se submeteu ao esgotamento das ilus\u00f5es. Um rasgo de paix\u00e3o n\u00e3o \u00e9 suficiente para manchar um len\u00e7ol. Quem sabe invocar Hefesto? Neste instante solene, estou voltando para casa de vez outra vez? Para entrar no papel para sempre? Talvez.<\/p>\n<p>Levanto-me. Mau h\u00e1lito, mau h\u00e1bito. O dia de ontem, a noite de hoje, o dia de amanh\u00e3, o movimento das horas. Em um rasgo na escurid\u00e3o, William Blake, encarcerado dentro da capa de couro, agoniza. William, digo, libertarei Tyger da p\u00e1gina. Necessito das garras e trov\u00f5es. A madrugada tem bafo, eu n\u00e3o tenho saudades. Preciso de garras de vez. Estou voltando para casa outra vez, pulando do papel para a sina? Talvez.<\/p>\n<p>The Great Gig In The Sky. Claire Torry grita acordes profanos, ao inv\u00e9s cantar uma prega\u00e7\u00e3o. Meu grito \u00e9 um caldo t\u00f3rrido de emo\u00e7\u00f5es impertinentes em sil\u00eancio, sem religi\u00e3o. Sem cora\u00e7\u00e3o? Minha ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o cr\u00ea em milagres, cr\u00ea em profanar religi\u00f5es com legi\u00f5es do Inferno de Dante na parede.<\/p>\n<p>Com os dedos da m\u00e3o direita, que n\u00e3o \u00e9 a minha, liberto Blake. Tyger pula dos meus l\u00e1bios secos. Claire liberta o seu grito, o meu rugido. Canto para dentro tal qual o mergulhador chupando ar engarrafado. Minhas garras batem rid\u00edculas nas linhas internas do poema em Blake.<\/p>\n<p>Agora sim. Estou personagem sobre uma linha dentro de uma casca. Blake voltou para a estante, Claire para o vinil. Volto estrangeiro para casa outra vez. Para nunca? Talvez.<\/p>\n<p>Deixo meu legado em linhas. Quem as reivindicar\u00e1, quando eu morrer? Quem se magoar\u00e1? Quem se regozijar\u00e1? Quantos me amaldi\u00e7oar\u00e3o? Quantos se ver\u00e3o? Quantos se achar\u00e3o personagens, culpados, indiferentes? Quantos me perdoar\u00e3o?<\/p>\n<p>Vou sobreviver um tempo, amarelar um tempo, tirar o sossego por um tempo esmaecendo em um sebo, at\u00e9 o completo esquecimento. \u00c9 assim que deve ser. Lavoisier nunca esteve t\u00e3o certo, sen\u00e3o a mem\u00f3ria morreria de indigest\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora estou sentado numa linha, percorrerei Juiz de Fora. Agora me metamorfosearei em personagem de onde, entre gritos de Claire e garras de Blake, inferno de Dante. Encarcerado numa imagina\u00e7\u00e3o. Dessa, jamais fugirei. Finalmente estarei personagem do personagem de vez.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Noutro dia, a c\u00f3lica me fez acordar de madrugada para me enfiar goela baixo mais uma pedra lembran\u00e7a de tantas coisas pontiagudas, rascantes, quantas engoli para estar aqui. E o que significa estar aqui? Sei l\u00e1. S\u00f3 sei que quero voltar para casa outra vez. 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