{"id":1147,"date":"2014-04-04T16:56:59","date_gmt":"2014-04-04T19:56:59","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/?p=1147"},"modified":"2015-06-19T00:25:04","modified_gmt":"2015-06-19T03:25:04","slug":"o-conceito-moral-de-estultice","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/2014\/04\/04\/o-conceito-moral-de-estultice\/","title":{"rendered":"O CONCEITO MORAL DE IMORALIDADE"},"content":{"rendered":"<p>(LUIZ CL\u00c1UDIO JUBILATO &#8211; 4\/3\/2014)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enquanto rabisco bobagens nessa tela est\u00fapida que me corrige quando me concentro em errar. Meu vocabul\u00e1rio intoxicante atesta minhas idiossincrasias. Escrevo para n\u00e3o me entenderem. N\u00e3o tenho saco para essa hist\u00f3ria de ser f\u00e1cil para ser compreendido. Se entenderem, o recurso final atende pelo nome de suic\u00eddio moral. Imbecilidade cultural.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora, um ser quase humano, tornado voz, berra. E chora. Depois, o choro mi\u00fado farfalha. Cochicha. N\u00e3o importa o barulho do cano de descarga dos \u00f4nibus, da descarga das casas. N\u00e3o importa o comedor de fogo puto, xinga, n\u00e3o ganha um centavo no sinal. Minha pena forjada na minha burrice, transcreve o barulho, o inc\u00f4modo, agora minha torta inspira\u00e7\u00e3o. N\u00e3o d\u00e1 o tempo de baixar o vidro. O sinal abriu. D\u00e1 para ver a cara devolver a moeda para o bolso ao primeiro sinal do amarelo virar vermelho. Sorriso verde. Sai.<\/p>\n<p>Xinga baixinho, quase sussurra, a mo\u00e7a da bengala. O mundo ouve o clic da m\u00e1quina. N\u00e3o quer. N\u00e3o deve ouvir. Flash. A objetiva avan\u00e7a. S\u00f3 ela. As pessoas, n\u00e3o. Estacam. Jornalista: Vive de lapsos, de momentos, de flagrantes. Fragr\u00e2ncia de crime. Manter equidist\u00e2ncia profissional? Que nada! Not\u00edcia. Not\u00edcia. Mundo tosco. Vida torta. No ponto do \u00f4nibus, cada olho tem um norte. Nem um olha em frente. Nem um olha pro lado. Nem uma boca pra depor. Contar a est\u00f3ria. Mais uma? Igual? Nem um olho pra chocar. Clic.<\/p>\n<p>S\u00f3 mais uma subtra\u00e7\u00e3o de valor pessoal, disse o policial no jarg\u00e3o policial. No ponto do \u00f4nibus, toda estaca \u00e9 surda-muda. Nenhuma \u00e9 testemunha. O medo fede. O medo ferom\u00f4nio para bandido. Sobrevivente? Craqueiro indecente? Canelas finas fogem. O c\u00e3o sarnento corre. \u00danico. Toma uma atitude. Arrebenta o medo com um latido. O ganido. A raiva na baba rasga o sil\u00eancio das motos sirenes apitos \u00f4nibus buzinas. O barulho empurra minha pena pra frente.<\/p>\n<p>O rep\u00f3rter arrasta pelo bra\u00e7o a personagem do momento. Desconhece sua bengala. Sensacional: &#8220;A v\u00edtima cega, na Rua dos Cegos, roubada. Tinha posse da sua marmita. Sua marmita, seu arroz, feij\u00e3o e ovo&#8221;. Onde estaria ela agora? O comandante esbraveja na entrevista com pinta de macho alfa. Esbraveja. Pol\u00edcia. Incompet\u00eanci. Quem \u00e9 o bandido? A pol\u00edcia que atira ou o bandido que tira? A c\u00e2mera desliga. Depois da mat\u00e9ria. Sensacional: &#8220;O comandante enfia a viola no saco. A prefeita n\u00e3o foi encontrada. Seu assessor tamb\u00e9m n\u00e3o. Nem o assessor do assessor&#8221;. O sil\u00eancio da autoridade \u00e9 tapa. Deixa verg\u00e3o. A cara da popula\u00e7\u00e3o. A pol\u00edcia \u00e9 v\u00edtima. O mundo \u00e9 redondo. A pol\u00edcia sabe; cada um de n\u00f3s, tamb\u00e9m. A pena corre. Foge da minha m\u00e3o. Tem agora cora\u00e7\u00e3o. Propriedade.<\/p>\n<p>Abro a porta da sacada. Estou no 14\u00ba andar. Minha vis\u00e3o cega corrompe a cegueira da mo\u00e7a cega. Vejo o mundo de cima. 14\u00ba andar. Minha indigna\u00e7\u00e3o dura at\u00e9 a hora do almo\u00e7o. Polenta com frango. N\u00e3o vi a cara dela. N\u00e3o como de marmita. S\u00f3 o pesco\u00e7o. S\u00f3 lembro do policial ganindo no jarg\u00e3o policial : &#8220;Ainda bem que subtra\u00edram uma marmita, n\u00e3o subtra\u00edram uma vida&#8221;. Ser\u00e1? Quem \u00e9 mais bandido: o bandido que sente culpa ou a pol\u00edcia que inventa desculpas? N\u00e3o entende que comida \u00e9 vida.<\/p>\n<p>Pretensiosos, escritores, poetas, intelectuais, poetas, idiotas de todas estirpes veem o mundo de cima. 14\u00ba andar. Tecem suas teses antropof\u00e1gicas. Antropol\u00f3gicas?Supostamente l\u00f3gicas. Ajoelham-se diante das evid\u00eancias. Ficam de quadro. O rabo abanando. Estacas. Nem sequer imitam um c\u00e3o sarnento ganindo. Interferem de longe, acobertados pela dist\u00e2ncia entre ler e entender. A pena p\u00f5e o ponto na imagina\u00e7\u00e3o. N\u00e3o na raz\u00e3o. Burrice. Burrice. Burrice. Animal. Escrita comercial. Hist\u00f3ria fotografada pra jornal.<\/p>\n<p>Esses caras parasitam a vida dos outros. Vampirizam seu anomimato. Vivem de sugar a pele, o corpo, o destino, o choro. A reinventar os outros que acham que existem de fato, quando s\u00f3 existem no fato. Olha que hist\u00f3ria faminta por emo\u00e7\u00e3o? Exagero? Como\u00e7\u00e3o? A marmita da cega, com ovo e feij\u00e3o, roubada na rua dos cegos.<\/p>\n<p>Enquanto rabisco nessa porra desse teclado que insiste em n\u00e3o me deixar errar. Minha pena corre em desabalada carreira. A mo\u00e7a e\/ou o jornalista \u00e9\/s\u00e3o inspira\u00e7\u00e3o. Acho que a ponta do meu dedo corre para o final da linha, como quem p\u00f5e final a uma vida. N\u00e3o \u00e9 ponto de \u00f4nibus, nem ponto final. \u00c9 ponto crucial.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora o mundo \u00e9 real. Gente come gente. Comem-se com seus olhos, suas bocas, suas palavras, sua burrice, suas ideologias, seus estratagemas, suas drogas. O mundo \u00e9 redondo disse o meu av\u00f4. O c\u00e3o, \u00fanico a morder uma canela fina, de um bando ido, me diz no 14\u00ba andar: o mundo \u00e9 uma droga. Ningu\u00e9m toma partido. Todo mundo desaprendeu a gritar. Clic. Desaprendeu a pensar. Clic Clic clic clic<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(LUIZ CL\u00c1UDIO JUBILATO &#8211; 4\/3\/2014) &nbsp; Enquanto rabisco bobagens nessa tela est\u00fapida que me corrige quando me concentro em errar. Meu vocabul\u00e1rio intoxicante atesta minhas idiossincrasias. Escrevo para n\u00e3o me entenderem. N\u00e3o tenho saco para essa hist\u00f3ria de ser f\u00e1cil para ser compreendido. Se entenderem, o recurso final atende pelo nome de suic\u00eddio moral. 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