{"id":112,"date":"2012-12-03T12:40:04","date_gmt":"2012-12-03T15:40:04","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/?p=112"},"modified":"2012-12-03T12:40:04","modified_gmt":"2012-12-03T15:40:04","slug":"eu-vi-um-menino-correndo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/2012\/12\/03\/eu-vi-um-menino-correndo\/","title":{"rendered":"Eu vi um menino correndo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Eu vi um menino correndo&#8230; E vi tamb\u00e9m um adulto se escondendo. Era uma esquina de uma cidade como essa em que gente vive. Mas, que gente? Demente? Doente? Ausente? N\u00e3o sabemos dela, de nada, nem de n\u00f3s, nem de ningu\u00e9m. Passamos o tempo correndo, porque corremos atr\u00e1s do preju\u00edzo. Quando o encontramos, n\u00e3o h\u00e1 mais o que fazer. Mais um ser humano perdido, invis\u00edvel, desprez\u00edvel, indiz\u00edvel. Imposs\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu vi um menino morrendo&#8230; E vi \u2018otoridades\u2019 se escondendo. N\u00e3o vi gente indignada gritando. Menos um FEBEM, NINGU\u00c9M. Roubo. De quem? O homem sem cabelos e sem desvelos morreu. Perdeu o dinheiro. O menino sem dinheiro e sem futuro. Perdeu a vida. \u00danico bem. \u00danico fardo. Estendido na cal\u00e7ada. O sangue pisado, fedido, talhado.<\/p>\n<div id=\"attachment_113\" style=\"width: 298px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-113\" class=\" wp-image-113    \" title=\"Ilustra\u00e7\u00e3o: Obra de Antonio Veronese\" src=\"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/files\/2012\/12\/antonioveronesefe9.jpg\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o: Obra de Antonio Veronese\" width=\"288\" height=\"384\" srcset=\"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/files\/2012\/12\/antonioveronesefe9.jpg 480w, http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/files\/2012\/12\/antonioveronesefe9-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 288px) 100vw, 288px\" \/><p id=\"caption-attachment-113\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Obra de Antonio Veronese<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu vi um menino sofrendo&#8230; E todo mundo se escondendo. Do presente esqu\u00e1lido, de futuro maltrapilho. Nenhum gr\u00e3o de comida no inchado ventre vazio. Nenhuma perspectiva no imenso vazio da cidade. Sem pai, sem m\u00e3e, sem enredo. Vi tamb\u00e9m pessoas passando. Ningu\u00e9m parando. Muito menos se importando. Gente do lixo. Lixo de gente. S\u00e3o apenas passantes. Seres itinerantes. Meros viajantes de uma morte sem fim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu vi um menino matando. Eu vi a vida. Escapando no meio dos dedos. Manchando a cal\u00e7ada. O solit\u00e1rio, ot\u00e1rio, caiu sangrando, cagando na entrada da feira. Seminu, comida de urubu, nas manchetes dos jornais. N\u00e3o vi nenhum educador, somente o infrator, canino, sem seu destino, ainda menino, dentro do cambur\u00e3o. A sirene da pol\u00edcia. A raiva entre os dentes. O soco no olho. Caolho. Indiferente. O buraco no ventre. As v\u00edsceras de fora. Agora. Na primeira p\u00e1gina. Terror. Torpor. Horror.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu vi um menino cantando&#8230; Can\u00e7\u00f5es de guerra. Tinha a inten\u00e7\u00e3o de revirar a terra, para plantar. Menino sem futuro, menino no escuro; crian\u00e7a que nunca soube crian\u00e7ar. Menino velho, enrugado, seco decr\u00e9pito que jamais soube brincar. Menino abandonado, viciado, violentado, f\u00e1cil de cooptar. Sem identidade, sem verdade, sem vontade de continuar. Menino nervoso, raivoso, f\u00e1cil de manobrar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu vi um menino fumando&#8230; Um delinquente. Vi seu futuro demente, inconsequente. N\u00e3o vi um padre trabalhando, nem um volunt\u00e1rio se esfor\u00e7ando, nem uma \u2018otoridade\u2019 planejando para faz\u00ea-lo parar. Vi o menino avi\u00e3o, extenuado, no ch\u00e3o, como na tela no cinema. Onde mis\u00e9ria \u00e9 apenas est\u00e9tica, tema e n\u00e3o uma arena onde gente \u00e9 comida de gente, cuja humanidade \u00e9 f\u00e1cil de arrancar. Filho do tr\u00e1fico, do traficante, meliante, que o estado ajuda a forjar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu vi um menino andando&#8230; N\u00e3o vi o rumo. Vi-o se esgueirando entre os carros numa esquina. Uma esmola pelo amor de Deus, pelo amor dos seus que um dia ele pode matar. S\u00f3 n\u00e3o vi ningu\u00e9m se esfor\u00e7ando para fazer o seu futuro mudar. Eu vi um menino riquinho abaixando o vidro para v\u00ea-lo esmolar. Ele descobrir\u00e1 facilmente que a morte \u00e9 coisa r\u00e1pida, que a vida daquele menino ir\u00e1 ceifar. Um presente sem futuro, cujo \u00f3dio a sociedade ir\u00e1 eliminar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu vi a gritaria dos maus&#8230; Vi tamb\u00e9m o sil\u00eancio dos bons. Todos querem salvar o planeta para os seus filhos, mas quando ir\u00e3o salvar os seus filhos para o bem do planeta? Vi muitas bandeiras se agitando, vi muita gente falando, sem jamais olhar para o umbigo. Sem jamais olhar para o lado. S\u00f3 olham para a frente, sem prestar aten\u00e7\u00e3o ao passado, acuado, sem hist\u00f3ria para contar. Vi a ignor\u00e2ncia dos tolos. Mas, vi a omiss\u00e3o dos acomodados. Vi a predi\u00e7\u00e3o dos resignados. Mas, vi tamb\u00e9m uma semente nos olhos dos indignados que, quem sabe, um dia, resolvam parar de falar para come\u00e7ar a trabalhar para mudar.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em style=\"text-align: right;\"><strong>Luiz Cl\u00e1udio Jubilato<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu vi um menino correndo&#8230; E vi tamb\u00e9m um adulto se escondendo. Era uma esquina de uma cidade como essa em que gente vive. Mas, que gente? Demente? Doente? Ausente? N\u00e3o sabemos dela, de nada, nem de n\u00f3s, nem de ningu\u00e9m. Passamos o tempo correndo, porque corremos atr\u00e1s do preju\u00edzo. Quando o encontramos, n\u00e3o h\u00e1 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/112"}],"collection":[{"href":"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=112"}],"version-history":[{"count":7,"href":"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/112\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":120,"href":"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/112\/revisions\/120"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=112"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=112"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/cursocriar.com\/poetadegaveta\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=112"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}