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NA PONTA DA LÍNGUA

Compenetro no obtuso mundo das palavras para louvar a língua.

Sem chave, vago e entretenho-me na poesia vaga.

Com várias vagas, o poema me abstrai.

Distraído, inquieto, mudo

Grito em silêncio os vapores vastos do charuto que não fumo.

Amoroso vassalo das palavras,

Conduzo meu cavalo de cetim por mares de certames.

A língua lambe meu silêncio, e grito insone:

A vida não é pequena!

Levo meu lema:

Navegar é preciso, Criar é imprescindível !

Entretemos vagas e palavras vãs…

Entrem, a chave está na ponta da língua.

 

Paul Degas / junho de 2017

 10 de junho de 2017
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Digestão

Noutro dia, a cólica me fez acordar de madrugada para me enfiar goela baixo mais uma pedra lembrança de tantas coisas pontiagudas, rascantes, quantas engoli para estar aqui. E o que significa estar aqui? Sei lá. Só sei que quero voltar para casa outra vez. Para voltar para ir embora de novo? Talvez.

A cidade é calor. Empoeirado calor. Empoleirado calor.

O calor da cama é cruel, queima. Bicho. Água viva. Está sob e sobre a pele. Bicho geográfico. Sede. Bicho.

Vivo agora estou, sei isso. Dói a noite que me empurrou mais uma daquelas escolhas, a que chamam idiotamente de destino. Deus deveria decidir por mim. Talvez eles estejam certos: Deus escolhe sorrateiro, matreiro, mas existe existindo, na cara contrita, nas mãos espalmadas das pessoas com o livro sacralizado debaixo do braço. Deus se esconde atrás desse mito, desse tal de destino. Ele é o “as” de ouros. Cortando o baralho tal qual navalha. Blefa. Bate. Bota crença na desrazão dos embotados. Bate. Não se compromete nas sombras. Blefa. Alugou-as para o diabo.

Crentes, suas criaturas são omissas. Submissas à sua chibata sequiosa. Precisa amamentar os fracassados, obrigá-los a assumir suas culpas, alimentar suas desculpas. Que culpa? A culpa é a desculpa. Culpa de ter culpa. Deus o abençoe – é assim que se trata os energúmenos.

Uma noite e mais um dia e mais uma noite e mais um dia, tantos quantos eu me dignar a suportar, a levantar para apontar o nariz para qualquer lado do meu universo descrente. Sinto, sinceramente, a tolice. Não convivo bem com a minha burrice. Sou medíocre demais para isso.

Tenho que rodar a maçaneta. Atirar-me porta a fora. Ouvir coisas sobre mim, como se ali não estivesse, e não estou. Engolir a cara dos muitos outros, servir-me de seu odor, do seu fedor, de suas opiniões. Jogar com suas máscaras, brincar suas fantasias de heróis, de princesas, de seres inalcançáveis na plenitude de suas verdades únicas. Vezes e vezes agir como um cego para suportar conviver, sair. Estar vivo é cumprir obrigações. Sair. Querem que eu saia. Sou um empecilho ao seu sossego.

Minha mente, meus sonhos, meus ideais, minhas distopias, minhas obrigações correm muito, muito mais que as minhas pernas descoordenadas, que mal sustentam meus pés tortos, caídos. Uma tropeça na outra. Vacilo de um lado para outro até que alguém me ampare e se desdobre em conselhos que tomaram para si, não praticam desde que os apartaram das fraudas. Minha cara sempre na mira do precipício. Desobediente ao medo, às vezes me rebelo, mas a “lei” da gravidade, sempre cruel, não abre precedentes, age tal qual um verdugo. Neste instante solene, com cara de idiota ensanguentado, cotovelos e joelhos ralados, estou voltando para casa outra vez. Para ficar para sempre? Talvez.

E Perséfone está ao alcance da palma da mão, das unhas, debaixo dos lençóis, o corpo sedento sua, a boca seca de um beijo de favor? Não, de amor. Hades, sempre ele, bafeja sua pestilência noturna: Acorda! Levanta-te. O pênis só abriga água morna, já se submeteu ao esgotamento das ilusões. Um rasgo de paixão não é suficiente para manchar um lençol. Quem sabe invocar Hefesto? Neste instante solene, estou voltando para casa de vez outra vez? Para entrar no papel para sempre? Talvez.

Levanto-me. Mau hálito, mau hábito. O dia de ontem, a noite de hoje, o dia de amanhã, o movimento das horas. Em um rasgo na escuridão, William Blake, encarcerado dentro da capa de couro, agoniza. William, digo, libertarei Tyger da página. Necessito das garras e trovões. A madrugada tem bafo, eu não tenho saudades. Preciso de garras de vez. Estou voltando para casa outra vez, pulando do papel para a sina? Talvez.

The Great Gig In The Sky. Claire Torry grita acordes profanos, ao invés cantar uma pregação. Meu grito é um caldo tórrido de emoções impertinentes em silêncio, sem religião. Sem coração? Minha oração não crê em milagres, crê em profanar religiões com legiões do Inferno de Dante na parede.

Com os dedos da mão direita, que não é a minha, liberto Blake. Tyger pula dos meus lábios secos. Claire liberta o seu grito, o meu rugido. Canto para dentro tal qual o mergulhador chupando ar engarrafado. Minhas garras batem ridículas nas linhas internas do poema em Blake.

Agora sim. Estou personagem sobre uma linha dentro de uma casca. Blake voltou para a estante, Claire para o vinil. Volto estrangeiro para casa outra vez. Para nunca? Talvez.

Deixo meu legado em linhas. Quem as reivindicará, quando eu morrer? Quem se magoará? Quem se regozijará? Quantos me amaldiçoarão? Quantos se verão? Quantos se acharão personagens, culpados, indiferentes? Quantos me perdoarão?

Vou sobreviver um tempo, amarelar um tempo, tirar o sossego por um tempo esmaecendo em um sebo, até o completo esquecimento. É assim que deve ser. Lavoisier nunca esteve tão certo, senão a memória morreria de indigestão.

Agora estou sentado numa linha, percorrerei Juiz de Fora. Agora me metamorfosearei em personagem de onde, entre gritos de Claire e garras de Blake, inferno de Dante. Encarcerado numa imaginação. Dessa, jamais fugirei. Finalmente estarei personagem do personagem de vez.

 28 de maio de 2017
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Há muito

Há muito a poesia não me possui

Cansou-se

Divorciamo-nos

Há calafrio em mim

Os lábios dela eram ferrolho

A saliva, água viva

A língua, sedutora

O beijo, ácido

Corroía à meia noite,

Refugava ao meio-dia

O sangue ferve

O peito dói como cólica de parto

Os olhos duros, a voz de cão danado

Cansei de lapisar

Cansei de dedilhar

Cansei de musicar

Não sei tocar

Divorciamo-nos

Não cala o frio em mim

E pronto

Como é estranho o olhar através de um anteparo

Um helicóptero pousa no prédio

Barulho de milhões de mariposas

Nada de poesia

Concreto

Só concreto

 28 de maio de 2017
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FRIO

Noutro dia.

Frio outono.

Uma mulher de rugas me disse que rugas de expressão, quando se assomam, se espremem no rosto

são marcas de pura felicidade

e eu sequer sinto frio.
(Luiz Cláudio Jubilato, às 22h num dia qualquer deste inverno)

 05 de maio de 2017
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Poeta amador

Com a fumaça de seu cigarro aceso,

Fita ao longe com desapego

Esboçando em guardanapo manchado de gim

A solidão que invade seu peito.

Tentando fazer de suas memórias poemas,

Sua verdade faz do resto mentira

E ele só deseja dizer da vida felicidade,

Mas como solitário trovador que é

A dor de um grande amor descreve desolado.

Triste poeta amargurado!

Que conheceu em certos dias,

A felicidade de ser amado

Deferiu mentiras, magoou e foi magoado

Ele é do mundo.

Um Mersault disfarçado!

Passeia pela vida, liberdade é seu prènom

Mas recorda com olhos marejados: « Liberdade é o ultimo recurso De quem não tem nada a perder »

Sina de quem descreve a dor que deveras sente Que possui em si a alma do desamor

Abre seu peito poeta!

E me ensina novamente a caminhar (sem os pés no chão).

 

Tassiana Frank

 17 de março de 2017
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OS COMEDORES DE BATATAS

(LUIZ CLÁUDIO JUBILATO – 08/07/2016)

O velho Vincent era louco, disse o biógrafo louco para ter razão. Louca razão. Vincent nasceu velho. Escreve certo por linhas tortas ou escreve torto por linhas certas ou escreve torto com o torto. Suas razões, redige com pincéis. Seus pincéis traçam linhas bizarras. Suas canetas escancaram em traços grotescos a grosseira pocilga, onde pernoitam uns quase homens focinhentos, focinhos de ratazanas avançavam sobre batatas murchas. Murchas carnes. Muxibas. Mendigas criaturas. Criaturas famintas da criação. Olhos sanguíneos esbugalhados perscrutando as carnes e muxibas das caras uns dos outros. Famintos. Reconhecem-se na miséria da fome.

Os ratos amontoam-se na toca lúgubre de luz baça. Lúgubres não se tocam. São um ajuntamento de quase gente em andrajos. A loucura de Vincent escarra na cara do comensal observador sua natureza sórdida, distorcida, de nós, enojados, como se a cena contivesse baratas. Mas, baratas não têm focinhos, mas os focinhos devoraram baratas batatas. As cores de Vincent não falam, nem gritam, nem berram, escarram. As cores corrosivas se comem e se transpassam, pulsam e se expulsam, juntam-se e desajustam-se. O quadro, de janelas fechadas, é a escara da fechadura para o que não queremos ser.

Nosso futuro biógrafo terá suas razões para tentar obter a nossa falta de razão, quando frios, como mármore de carrara, nos vemos diante dos comedores de areia e bebedores de petróleo. Aqueles consumidos pela peste da fome. Aqueles que abandonam suas semicasas. Aqueles cujos corpos dão nas praias enrugados. A morte enruga. Aqueles que estão soltos pelo mundo em busca de porquês. Eles, os roedores comedores, estão ali, estão aqui; as batatas baratas também; as razões sem razão também, a loucura também, mas Vincent não, nem os porquês. Nem suas cores, nem seus traços que expõem as vísceras, as feridas da miséria humana que nos recusamos a entender. Mas, vamos falar de cor cinzenta amarronsada do quadro cena janela: O velho Vincent não precisa estar onde sempre esteve. Sua biografia é o seu tracejado violento, seres que saltam das telas.

 11 de julho de 2016
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O GRITO

(Luiz Cláudio Jubilato – 10/07/2016)

E eu que queria gritar…
E eu que vi o universo derreter…
E eu que estava só…
E eu que abri a boca sem dentes…
E eu que encarava o infinito em desespero…
Estamos todos sós atravessando a ponte entre o nada e parte alguma…
Estamos todos sós perdendo nossos corpos e nossas almas em meio ao caos…
Estamos todos sós derretendo em traços e cores violentas…
Todos os traços e cores convergem para a boca sem dentes.
Todos os traços violentos convergem para o grito oco.
Todas as cores violentas trazem o caos para o grito mudo.
O quadro todo agride: distorções violentas.
O quadro todo agride: desencanto violento.
O quadro todo dói nas retinas.
O quadro todo dói na temática.
O grito violento ecoa preso na tela.
Edvard era louco (?) na sua lucidez e nós lúcidos(?) na nossa loucura.
Edvard grifou todos nós como um só. Somos a garatuja. Somos a rubrica.
Edvard? Há outras “coisas” na ponte.
São eles? Os que mandam em nós?
São eles? O que querem de nós?
Elas usam cartolas e fatiota.
Não têm cara. São sombras.
Edvard? Há canoas na água.
Elas navegam na luz do fogo.
Navegam sem medo no caos.
Edvard Munch estava trancado num hospício; nós soltos noutro.

 11 de julho de 2016
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CAMPBELLS SOUP

(Luiz Cláudio Jubilato – 11/07/2016)
Andy?… Annndy…!
você se vendeu, ensopado.
Andy?… Annndy…!
Você nos vendeu enlatados
Andy?… Annndy…!
Aqui está sua Monalisa, a perfeição estética
Andy?… Annndy…!
Aqui está o capitalismo, a perfeição fétida
Andy?… Annndy…!
Você posou de anticapitalista, caiu na sua própria armadilha
Andy?… Annndy…!
Você posou de artista, caiu da sua própria guerrilha
Andy?… Annndy…!
Você é pop
você é top
Andy?… Annndy…!
Você é ego
Você é cego
Andy?… Annndy…!
Você é atadura decorada
Você é caricatura descorada
Andy?… Annndy…!
Você chegou ao Olimpo e não chegou limpo
Você conquistou a glória e manchou sua história
Andy?… Annndy…!
Você é massa de manobra
Você é barata mão de obra
Andy
Você vendeu Coca, vendeu sopa, vendeu Marilyn, vendeu Elvis,
vendeu Che, vendeu, Kennedy, vendeu Mao
Capitalizado, vendeu a alma para o diabo
Famoso, morreu viciado na própria sombra
Repetiu, repetiu, repetiu… até que o aplauso exauriu…

 11 de julho de 2016
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A COR DOS TEUS OLHOS

Olho teus olhos. Remo no raso. Me atiro, sem escafandro, até o rumo

Me olham Me seguem Me olham Me amam Me olham Me desprezam Me olham

Me olham Me vasculham Olham Olham até não mais mirar meus contornos

 

Calor

Me olham me engolindo

Me olham me despindo

Me olham me comendo

Me olham me sentindo

Me alham me amando

Me olham se entregando

 

Cólera

Teus olhos não me dão colo

Me cortam  Me rasgam  Me buscam  Me amam  Me detestam

Olham  Não me veem  Olham  Nada creem Olham só Somente

 

Noite

Teus olhos me vasculham Me desnudam Me mapeiam

Me seguem nas vielas Me querem não querem

Sangue

Vultos vislumbrados arrastados pelo glaucoma

 

Meio dia a dia

texturas de Castanhas

Amêndoas Nozes Avelãs

 

A tarde tarde

toques de Morangos

Cerejas Uvas Maçãs

 

Sem luz

Perdidos divagantes viajantes

Noiva Neve Névoa Neblina

 

Por mim

Paixão Com paixão compaixão

Amor com amor  desamor

Pudor sem pudor despudor

 

(Luiz Cláudio Jubilato – 29/07/15)

 

 

 26 de julho de 2015
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DIZER O QUE?

Antes de ontem. Não sei.

Ontem, vivi. Acho

 

Hoje, na manhã, estava vivo. Creio.

Hoje, agora, estou vivo. Penso.

Amanhã. Não sei.

 

Passado. Passante. Passageiro.

Presente. Passante. Perdigueiro.

Futuro….Furo… Sem fundo.

 

Não sei.

Sei que não sei.

Saberei?

 

(Luiz Cláudio Jubilato – 28/07/15)

 26 de julho de 2015
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