Criar Sistema de Ensino de Língua Portuguesa

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Por que me tornei um blogueiro

No mundo da imagem, do Youtube, do Orkut, do MSN, dos pagers, celulares, Iphones… todo o mundo descobriu que é fundamental se expressar. Algumas dessas formas de expressão tornam o mundo mais virtual, como um namoro via-Internet, outras tornam a descoberta de talentos mais palpável, é só clicar no Youtube para assistir a uma profusão de obras que a maioria das pessoas não teriam chance de ver. Além disso, artistas anônimos tiveram um espaço mais que democrático para expor o seu trabalho. Há aberrações? Claro que há. Mas, há casos muito interessantes como o da Terça Insana que se tornou um fenômeno a partir de takes de suas apresentações postadas nesse espaço comunitário onde todos podem ver o que bem quiserem.
Ao mesmo tempo, uma profusão de escritores de gaveta resolveram colocar a cara para bater no ciberespaço. Há gente escrevendo sobre todo tipo de assunto, das mais diversas formas, com os mais diferentes estilos. Pessoas que, simplesmente, acreditam que têm algo a dizer passaram a fazê-lo de uma forma despudorada, sem as amarras da vergonha que quase sempre acometem os poetas de gaveta. Os blogs deram às pessoas a possibilidade de exercitarem sua verve de escritoras ou simplesmente comentarem temas de assuntos gerais, exercitando seu espírito crítico. O mundo real passou a ver no mundo virtual a democracia na sua mais intensa e sincera projeção.
Hoje, milhares de blogs povoam o ciberespaço e alguns dos portais mais importantes do mundo abrem espaço para quem quiser colocar neles os seus diários virtuais. Ao mesmo tempo, artistas, economistas, analistas, políticos, apocalípticos, sociólogos, sexólogos, cartomantes, quiromantes… acharam espaço para propagarem suas idéias. Acha-se todo tipo de conteúdo, das mais diferentes formas, nos mais diferentes estilos. Além disso, pode-se buscar informação ou diversão nesses espaços virtuais, porque cada dia mais pessoas se aventuram na estrada da opinião e da análise de todo tipo de fato ou questão. Até mesmo o presidente dos EUA, Barack Obama, se rendeu ao poder dos blogueiros e utilizou esse tipo de mídia para vencer as eleioções.
A maioria dos blogueiros atrela-se a um filão e se especializa nele. Grande parte prefere trabalhar com questões ligadas à profissão ou a alguma área de interesse específica, por isso muita gente sabe exatamente onde e o que procurar para sanar dúvidas ou incitar debates. Há pessoas que não saem de casa sem passar por alguns daqueles blogs mais interessantes dentro de sua zona de interesse. Há outras que mudaram comportamentos externando suas convicções em seus blogs ou lendo os de outras pessoas que, para elas, são ícones dentro da sua forma de pensar, agir e viver. A Internet democratizou a forma como os homens passaram a ver os homens.
Por que me tornei blogueiro, então? Tornei-me um blogueiro para ser lido. Como todos os que escrevem, tenho a vaidade de acreditar que o que escrevo pode ter um papel transformador, já que me considero um provocador, muito mais que um educador. Como professor, sempre quis tirar as pessoas do lugar, fazê-las refletir sobre o mundo a sua volta, pois, em alguma momento, terão a obrigação de virá-lo pelo avesso. É como nascer. Renascemos muitas vezes durante a vida, quando limpamos a nossa visão de mundo de muitos conceitos e preconceitos para adquirir uma nova forma de ver as coisas. Renascemos a cada momento para a realidade da vida quando paramos para simplesmente contemplar o que nunca antes tínhamos visto.
Tornei-me blogueiro, porque quero o meu texto compartilhado entre os que acreditarem que podem extrair dele algo. Quero mexer com padrões. Quero quebrar grilhões. Quero mostrar a mim mesmo que posso ir além das minhas convicções. Numa sala de aula, muitas vezes não temos a noção de termos atingido os nossos propósitos. Num blog, a reação é imediata. Pode ser de raiva, indignação, medo, vergonha, delírio ou concordância. O importante é despertar.

 sábado, 14 de fevereiro de 2009
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Desacordo Ortográfico

Desde de 1986, a Comunidade dos Países Lusófonos estuda a possibilidade de um acordo que unificasse a grafia da Língua Portuguesa. A constatação era óbvia: somos o único povo do mundo a possuir duas grafias oficiais e, portanto, a emitir sempre dois documentos oficiais. Por isso mesmo, o Português não pode, por exemplo, ser uma das línguas oficiais da ONU. Parece brincadeira, mas o Congresso Nacional não se preparou adequadamente para a homologação do Acordo, provocando certo constrangimento para o governo Lula que tanto lutou pela sua aprovação.

Muitos professores se referiram ao acordo como “meia boca”, “meia sola”, porque não se aprofundou em questões fundamentais como a dupla grafia de palavras (facto / fato, herva / erva) ou às regras gramaticais inadequadas, como a impossibilidade de iniciar as orações por pronomes oblíquos átonos. Quero e preciso esclarecer que o tal acordo só envolve a grafia, não envolve pronúncia, por isso ninguém irá falar LINGUIÇA, só porque a palavra LINGÜIÇA perdeu o trema e passou a ser grafada assim: LINGUIÇA. No entanto, a coisa complicou porque criamos mais uma exceção à regra sobre acentuação. Por exemplo: os ditongos ÉI e ÓI só serão acentuados em palavras oxítonas (papéis, destrói), as oxítonas perderão (ideia, androide).

O hífen foi eleito o vilão das novas regras e poderíamos dizer, sem medo de errar, que os estudiosos foram tímidos ao propor essas mudanças. Melhor seria fazer como os espanhóis, aboli-lo, ou como os portugueses, torná-lo, na prática, facultativo, do tipo: “põe quem quer e na hora que desejar”. Do jeito que está, há a necessidade de decorar um monte de prefixos e suas respectivas exceções. Por exemplo: as palavras cujos prefixos vêm associados a palavras iniciadas por H devem ser hifenizadas (pré-histórico, anti-higiênico) – exceção: o prefixo SUB associado à palavra HUMANO vê cair o H e o hífen. Fica, então, SUBUMANO.

Na contramão desse processo, surgiram aqueles que defenderam uma mudança total na forma de escrever o Português. Vamos radicalizar e escrever como falamos. O que poderia parecer uma solução mágica, na verdade se tornaria um pesadelo. Deitaríamos alfabetizados num dia e acordaríamos analfabetos no outro. Uma reforma desse tipo, além de impossível, é irresponsável. As línguas mantêm entre si uma série de perspectivas comuns na escrita, como a historicidade das palavras, porém não mantêm essa mesma relação na fala. Não nos esqueçamos que a língua portuguesa não é um bloco monolítico, ao contrário, tem várias línguas dentro dela.

No Brasil, no estado de São Paulo, temos vários dialetos. Um paulistano não fala como um sorocabano, que não fala como um ribeirãopretano, que não fala como um araçatubense. Imagine a confusão que seria se todos resolvessem escrever como falam. A maioria, depois de certo tempo, não se entenderia. A linguagem da Internet que tem essa perspectiva e tende sempre à simplificação já está criando problema para o usuário justamente por causa disso. De região para região, a maneira de nos referirmos às outras pessoas muda muito e a maneira como denominamos o universo também.

O Acordo Ortográfico é uma tentativa de nos aproximar cada vez mais de Portugal e dos países africanos, com a desculpa de que isso fortaleceria a língua portuguesa como instrumento de divulgação de cultura. Será? O que torna o nosso idioma interessante é a sua diversidade. Um Guimarães Rosa, um Machado de Assis e um Graciliano Ramos são semelhantes na diversidade e é aí que o idioma ganha uma gama enorme de interesses diversos. Poderíamos passar sem essas mudanças que mexerão no bolso de muita gente e não ajudarão ninguém a escrever melhor ou mais fácil. Talvez o mercado editorial ganhe com isso. Talvez os palestrantes. A Língua Portuguesa certamente só ganhou mais exceções.

 quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
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Palavras

Todo o mundo deveria pegar uma folha de papel e sair escrevendo o que lhe desse na cabeça. Poderiam sair frases desconexas, ideias soltas, coisas sem sentido, idiotices de toda ordem, mas com muita espontaneidade. Ao escrever, revelamos muito de nós, dos nossos valores, dos anseios, dos nossos medos, ideais, mea-culpa, idiossincrasias, vontades, traumas, desejos inconfessáveis.

Muita gente me diz que tem muita coisa na cabeça, mas não sabe como colocar no papel. É justamente porque falta espontaneidade. Há coisas que não confessamos nem para nós mesmos, que dirá para o papel. Somos páginas escritas dia a dia. Um texto também é assim. Pode ser refeito infinitamente, pode ser acrescentado a cada manhã de sol ou de chuva. Nossa mente não é uma máquina de xerox, nossos pensamentos não estão organizados em sequência, não basta apenas apertar um botão para empilhar o papel folha a folha.

Muita gente também me diz que não tem nada na cabeça, por isso não consegue escrever nada. O problema aqui é a autoestima. Ao se considerar um nada, o indivíduo não se crê capaz de realizar nada. Isso pode também ser fruto da falsa modéstia. O falso modesto quer, na verdade, construir uma obra prima a cada frase, porém, como tem certeza de que isso é impossível, então prefere não se aventurar. É uma especie de covardia. Vaidade travestida de covardia. Há também o tímido. Mas, os tímidos são conchas com pérolas encrustadas. Um tímido conversa muito consigo mesmo, contudo não se sente à vontade conversando com os outros. Seu casulo é seu mundo. Se o convencermos a conversar com o papel, esse nada poderá se transformar em externações a conta gotas de um universo complexo, mostrando-se sem querer se mostrar.

Escrever é um ato de esforço, muito mais que de talento. O talento é um ingrediente a mais, o tempero com o qual saboreamos o universo a nossa volta. Escrever é virar-se pelo avesso sem saber de que caverna de uma costa íngreme a inspiração e transpiração irão emergir. Escrever é descobrir-se a cada palavra como se ela usasse máscaras num baile com muitos foliões.

Quem quer escrever precisa perceber que palavras não são apenas sons, significados. Palavras têm cheiro, sabor, cor; muitas são ásperas, outras tenras, tantas são ocas e poucas jocosas. Palavras aguçam, machucam, intensificam, temperam, destemperam, arrematam, arrebatam, consomem, informam, transformam, conformam, distorcem, ontorcem, contorcem… ligam-se. Palavras ligam-se em danças infinitas, em banquetes de final de semana, em almoços de todo dia, em beijos abraços tratos distratos sexo conexo…

Para escrever bem, a gente precisa se deixar fluir. Sem amarras, sem âncoras… apenas fluir… influir… usufruir… sair pelos poros… pelos olhos… pela boca… pelo ânus… pelo tato… pela saliva… pelas mãos…

 quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
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