{"id":61,"date":"2014-01-10T09:41:50","date_gmt":"2014-01-10T12:41:50","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/artigos\/?p=61"},"modified":"2014-01-10T09:41:50","modified_gmt":"2014-01-10T12:41:50","slug":"dona-bernarda-no-meio-dos-livros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/2014\/01\/10\/dona-bernarda-no-meio-dos-livros\/","title":{"rendered":"Dona Bernarda no meio dos livros"},"content":{"rendered":"<p>\n\t<em><strong>Por Prof. Luiz Cl&aacute;udio Jubilato &nbsp;&ndash; diretor do Criar L&iacute;ngua Portuguesa e Reda&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/em>\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\t<a href=\"http:\/\/cursocriar.com\/artigos\/files\/2014\/01\/Luiz-claudio-2ok1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-62\" height=\"150\" src=\"http:\/\/cursocriar.com\/artigos\/files\/2014\/01\/Luiz-claudio-2ok1-150x150.jpg\" width=\"150\" \/><\/a>D. Bernarda tem aquele sorriso af&aacute;vel e maroto que s&oacute; as av&oacute;s s&atilde;o capazes de portar. As experi&ecirc;ncias lhe conferem o direito de fazer o que bem entender sem parecerem rid&iacute;culas. Personagem da magistral Nath&aacute;lia Timberg, em &#039;Amor &agrave; vida &agrave; vida&#039;, aparece, em quase todos os cap&iacute;tulos, acariciando um livro (de papel, diga-se de passagem), como uma crian&ccedil;a travessa. Com seu sorriso da atriz que se misturou ao personagem e n&atilde;o mais sabemos quem &eacute; quem, indica-o aos outros. Exibe-o sempre acompanhado de uma convincente s&iacute;ntese.<br \/>\n\tNo folhetim de Walcyr Carrasco, h&aacute; tamb&eacute;m um escritor: Thales (Ricardo Tozzi) &eacute; o personagem amb&iacute;guo manipulador e manipul&aacute;vel, que tentou conquistar Natasha (Sophia Abra&atilde;o) escrevendo um livro sobre o seu arrependimento ao trair o amor da irm&atilde; dela. Nos pr&oacute;ximos cap&iacute;tulos, pode provar do pr&oacute;prio veneno. Natasha, volta e meia, mexe com seus sentimentos usando, para isso, um livro. &Eacute; o conquistador sens&iacute;vel, conquistado pela raz&atilde;o, provando o veneno da trai&ccedil;&atilde;o dos seus princ&iacute;pios, como ocorreu com tantos autores e povos ao longo da hist&oacute;ria.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\tAlguma coisa de muito novo e muito interessante acontece nos folhetins da Rede Globo: uma esp&eacute;cie de &#039;cruzada&#039; em favor do livro. N&atilde;o h&aacute; uma novela ou miniss&eacute;rie da emissora em que um personagem n&atilde;o discuta, mesmo que rapidamente, o enredo, os personagens e\/ou o autor de uma obra. No folhetim de Walcir Carrasco, &#039;Amor &agrave; vida&#039;, h&aacute; uma profus&atilde;o de leitores. &quot;Merchan&quot; puro das grandes redes de livrarias, para promover autores de qualidade duvidosa? Poderiam alegar alguns. Pode ser, mas esse tipo de produto n&atilde;o era veiculado em nenhuma circunst&acirc;ncia e, al&eacute;m de tudo, poderia ser outro, uma geladeira, por exemplo, um banco&#8230; E olhe que o Ita&uacute;, tem o projeto Ita&uacute; Cultural para levar livros &agrave;s crian&ccedil;as. Por sinal, muito interesante. N&atilde;o sou funcion&aacute;rio, nem do Ita&uacute;, nem da Globo e, antes que algu&eacute;m diga, n&atilde;o fui pago para escrever este artigo. O mote dele &eacute;, inclusive, a massifica&ccedil;&atilde;o do livro, seja como for e de que forma for &eacute; por quem for.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\tNo programa do Faust&atilde;o, vejam s&oacute;, h&aacute; indica&ccedil;&otilde;es de algumas obras. Liter&aacute;rias? De qualidade duvidosa? Goste-se ou n&atilde;o, ali est&atilde;o indica&ccedil;&otilde;es de livros. Jogada de marketing? &Eacute; claro. Mas, o produto poderia ser outro: sand&aacute;lias, biscoitos&#8230; Algum purista e\/ou moralista poderia questionar: por que voc&ecirc; trata sempre livro como &#039;produto&#039;? Para n&atilde;o soar hip&oacute;crita. Desde o s&eacute;culo XVIII, a burguesia trata as obras de poetas, romancistas, contistas e toda sorte de criadores e pensadores, como produtos. O talento para a venda sempre valia mais que o talento criador.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\tSou da opini&atilde;o de que as pessoas devem come&ccedil;ar a ler a partir de um tema que lhes interesse, mesmo que indicado por algu&eacute;m, v&aacute;-la, que esteja interessado apenas em faturar com vendas. Conhe&ccedil;o hist&oacute;rias de pessoas que come&ccedil;aram a ler encontrando livros no lixo. &Eacute; o caso do Ot&aacute;vio C&eacute;sar Santana, criador da biblioteca Itinerante do Morro do Alem&atilde;o. Assim que ela passa, as crian&ccedil;as correm atr&aacute;s dela. O trabalho &eacute; feito por amor e idealismo. N&atilde;o vende nada.No morro, nasce uma comunidade de leitores. Nem a viol&ecirc;ncia do lugar a inibe.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\tLuto para divulgar o livro em qualquer lugar. Minha escola tem o Projeto &#039;Criar Leitores&#039;. O projeto leva livros a pra&ccedil;as, pontos de &ocirc;nibus e outros lugares de grande circula&ccedil;&atilde;o. Simplesmente os deixa ali. As pessoas os pegam e, pode parecer brincadeira, mas n&atilde;o: elas saem lendo. Rindo, gostando, como se fossem crian&ccedil;as.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\tNo programa do J&ocirc;, volta e meia, um escritor &eacute; entrevistado. Jogada de marketing de grandes livrarias? Que seja. Mas, poderia ser de um outro produto. Em feiras de livros, n&atilde;o ocorre a mesma coisa? O livro n&atilde;o &eacute; um produto? N&atilde;o &eacute; em torno dele e, por causa dele que as pessoas lotam pra&ccedil;as, teatros, galp&otilde;es, centros culturais? Os autores d&atilde;o palestras. Participam de debates. O objetivo n&atilde;o &eacute; expor o autor para que ele venda mais suas obras ou as tire do ostracismo?\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\tPode-se discutir a tem&aacute;tica e\/ou a qualidade da obra tanto quanto a do autor, mas &eacute; relevante o livro se tornar elemento recorrente nos folhetins da Globo, um grande ve&iacute;culo de massa, a ponto de se tornar personagem. O gal&atilde;, Cau&atilde; Raimond, o Leandro, protagonista da miniss&eacute;rie, &#039;Amores roubados&#039;, n&atilde;o conquista as mulheres mais belas valendo-se de um livro de poemas do pernambucano Joaquim Cardozo?\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\tRoberto Saviano, amea&ccedil;ado de morte, autor de &#039;Gomorra&#039; e de &#039;A beleza e o inferno&#039; vive escondido, protegido pelos carabinieri (pol&iacute;cia italiana), pois seus livros demoliram a m&aacute;fia italiana. Salman Rushdie, autor de Versos Sat&acirc;nicos, tamb&eacute;m foi condenado &agrave; morte pelo Aiatol&aacute; Khomeine, l&iacute;der do Ir&atilde;, porque consideradou sua obra ofensiva ao profeta Maom&eacute; e &quot;blasf&ecirc;mia contra o Isl&atilde;&quot;. &Eacute; a sina de autores que resolveram, &agrave; custa da pr&oacute;pria vida, mudar um mundo. O livro &eacute; capaz disso. A B&iacute;blia n&atilde;o &eacute;?\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\tNo Natal, n&atilde;o sei se o consumidor, influenciado ou n&atilde;o por essa &#039;cruzada&#039; global, lotou as livrarias. Foram os &uacute;nicos lugares em que presenciei longas filas. As bermudas, camisetas, t&ecirc;nis e pijamas, tradicionais presentes, nos famigerados amigos secretos, renderam-se ao livro. Valeu D. Bernarda\/Nath&aacute;lia. Seu sorriso encheria de prazer a livraria de Franz (Bruno Gagliasso, em J&oacute;ia Rara) e derreteria Os Himalaias. O seu poder de convencimento anda mudando comportamentos.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\tSe grandes ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o e at&eacute; bancos ajudam a massificar a leitura, se voc&ecirc; teve paci&ecirc;ncia de chegar at&eacute; aqui, num texto deste tamanho, o mundo, ent&atilde;o, ainda tem salva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Prof. Luiz Cl&aacute;udio Jubilato &nbsp;&ndash; diretor do Criar L&iacute;ngua Portuguesa e Reda&ccedil;&atilde;o D. Bernarda tem aquele sorriso af&aacute;vel e maroto que s&oacute; as av&oacute;s s&atilde;o capazes de portar. As experi&ecirc;ncias lhe conferem o direito de fazer o que bem entender sem parecerem rid&iacute;culas. 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