{"id":4104,"date":"2021-09-24T22:08:49","date_gmt":"2021-09-25T01:08:49","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/?p=4104"},"modified":"2021-10-23T22:09:38","modified_gmt":"2021-10-24T01:09:38","slug":"verbalizar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/2021\/09\/24\/verbalizar\/","title":{"rendered":"Verbalizar"},"content":{"rendered":"<div class=\"single_post_module\">\n<div class=\"format-standard has-post-thumbnail\">\n<article class=\"single_post_content\">\n<div class=\"entry\">\n<div class=\"entry\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ontem quis escrever um artigo. Hoje me impus a tarefa, o editor j\u00e1 n\u00e3o pode esperar. Na sua sanha cruel, acredita ele que o leitor \u00e9 um ser \u00e1vido, como se texto fosse \u00e1gua ou ar. Parece que est\u00e1 fora deste mundo c\u00e3o: falta \u00e1gua nas torneiras e est\u00e1 polu\u00eddo o ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei o que escrever, j\u00e1 me torci, retorci, j\u00e1 me sinto em um turbilh\u00e3o, como se estivesse dentro da m\u00e1quina de lavar: as ideias fugiram ladeira baixo ou evaporaram com o gelo seco. Sei que fugiram correndo em desabalada carreira para dentro das trincheiras, como um ex\u00e9rcito Brancaleone em dispers\u00e3o. Todas as palavras bateram em retirada, como se uma bomba explodisse atirando estilha\u00e7os para todos os lados, ferindo gente que j\u00e1 n\u00e3o sangra. N\u00e3o h\u00e1 personagens para descarnar. N\u00e3o h\u00e1 tema para executar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As ideias se rebelaram, como presos atirando a esmo dentro de um pres\u00eddio, pulando muros para escapar do pelot\u00e3o de fuzilamento ou das outras fac\u00e7\u00f5es que se digladiam pelo poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Martelei ideias, como se afundasse um prego na madeira, que, sem piedade, foi se esgar\u00e7ando. E nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um deserto em mim. H\u00e1 um deserto em ti. H\u00e1 um deserto si. E mais nada, s\u00f3 palavras escorregadias. E mais nada. Nada. S\u00f3 o vento as desmanchando: tempestade de poeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrever \u00e9 um ato doloroso, principalmente quando n\u00e3o h\u00e1 o que dizer sobre o nada. Escrever por escrever, escrever sem remexer nas entranhas do leitor, sem sacudir suas convic\u00e7\u00f5es, sem lan\u00e7\u00e1-lo na d\u00favida, na desraz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que juntar um monte de palavras e coloc\u00e1-las em prociss\u00e3o se n\u00e3o sabem aonde chegar, nem santo para o qual rezar. Paga-se um pre\u00e7o muito alto quem se imp\u00f5e a lutar com as palavras, elas t\u00eam vida pr\u00f3pria, escapam dos dicion\u00e1rios, voam, mergulham correm, escoiceiam. N\u00e3o h\u00e1 como dom\u00e1-las, triste gram\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algum energ\u00fameno disse, outros tantos copiaram e, de tanto falar, as pessoas passam a n\u00e3o pensar: &#8220;Escrever \u00e9 um ato de transpira\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de inspira\u00e7\u00e3o&#8221;. Ent\u00e3o, o que fa\u00e7o eu aqui, sem inspira\u00e7\u00e3o, nem transpira\u00e7\u00e3o? Aqui somente o ar \u00e9 condicionado. Escrever sobre nada \u00e9 o qu\u00ea? Um ato de deser\u00e7\u00e3o? Arrancar \u00e1rvores e n\u00e3o plantar nada, \u00e9 ter um Saara de estima\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrever sobre o nada, \u00e9 um ato de desprendimento, muitas vezes de arrependimento, porque o leitor est\u00e1 \u00e1vido pelo factual: um tiro aqui, um esc\u00e2ndalo ali; uma crian\u00e7a baleada aqui; uma m\u00e3e desesperada ali. O factual: fato atual. B\u00eabado em um jornal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Creio que era sobre n\u00e3o escrever que escrevi e me penitencio, paciente leitor do deserto. Se voc\u00ea chegou at\u00e9 aqui, h\u00e1 um deserto em ti. H\u00e1 um deserto em si.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ontem quis escrever um artigo. Hoje me impus a tarefa, o editor j\u00e1 n\u00e3o pode esperar. Na sua sanha cruel, acredita ele que o leitor \u00e9 um ser \u00e1vido, como se texto fosse \u00e1gua ou ar. 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