{"id":3945,"date":"2020-06-08T18:25:22","date_gmt":"2020-06-08T21:25:22","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/?p=3945"},"modified":"2020-06-08T18:26:47","modified_gmt":"2020-06-08T21:26:47","slug":"ler-para-que-se-voce-pode-se-esconder","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/2020\/06\/08\/ler-para-que-se-voce-pode-se-esconder\/","title":{"rendered":"Ler para que, se voc\u00ea pode se esconder?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"500\" class=\"size-full wp-image-3946 aligncenter\" src=\"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/files\/2020\/06\/CAPA-DO-PRIMEIRO-LIVRO.jpg\" srcset=\"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/files\/2020\/06\/CAPA-DO-PRIMEIRO-LIVRO.jpg 500w, http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/files\/2020\/06\/CAPA-DO-PRIMEIRO-LIVRO-150x150.jpg 150w, http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/files\/2020\/06\/CAPA-DO-PRIMEIRO-LIVRO-300x300.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Houve um tempo em que o governo, para se mostrar preocupado com a crescente ignor\u00e2ncia da juventude, inseriu a prova de reda\u00e7\u00e3o nas provas dos vestibulares e fez uma campanha bomb\u00e1stica para estimular a leitura. A t\u00e1tica de \u201cdominar um povo burro chegou ao limite\u201d. Para conseguir tal milagre, criou um \u00f3rg\u00e3o pomposo, a \u201cC\u00e2mara do Livro\u201d. Nele instalou \u201cburocratas\u201d, \u201csabujos\u201d, \u201capaniguados\u201d nem imagina\u00e7\u00e3o. Aquele, que se acreditou o iluminado, pariu um slogan sugestivo: \u201cQuem l\u00ea, viaja!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viciados em drogas come\u00e7aram a mergulhar nas p\u00e1ginas dos livros na esperan\u00e7a de al\u00e7ar altos voos. N\u00e3o conseguindo, rasgaram as p\u00e1ginas, enrolaram-nas para fum\u00e1-las. Vendo a inutilidade do feito, pararam para contemplar as letras, depois as palavras, os par\u00e1grafos, as p\u00e1ginas, os personagens. A partir da\u00ed, afogaram-se em hist\u00f3rias. \u00c0s vezes riam, \u00e0s vezes choravam; ora olhos impregnados de horizontes; ora, afundados no ch\u00e3o. Ora perscrutavam os olhos de pessoas; ora, mergulhavam no seu \u00edntimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pais, entre preocupados e desesperados, come\u00e7aram a monitorar os filhos na \u00e2nsia de saber aonde iria dar a tal viagem. Eles pr\u00f3prios tentaram experimentar. Cheiraram as p\u00e1ginas, mas s\u00f3 encontraram odor de papel com tinta. N\u00e3o entendiam como uma capa com um miolo causava tanta euforia, desejo, medo&#8230; Ent\u00e3o decidiram se aventurar pelas primeiras linhas, todavia pararam no primeiro par\u00e1grafo. Largaram. A droga n\u00e3o os drogava. N\u00e3o como um lan\u00e7a-perfume. N\u00e3o como a sonol\u00eancia da maconha ou a avidez da coca\u00edna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um problema, nascido dessa campanha, se tornou cr\u00f4nico: crian\u00e7as n\u00e3o desgrudaram mais dos livros, andavam com eles debaixo do bra\u00e7o ou dentro das mochilas. Contavam hist\u00f3rias fant\u00e1sticas em que viajavam para planetas nem pais nem professores imaginavam onde ficavam. Pior, come\u00e7aram a construir mundos para si, livres das amarras de um sistema educacional que pretendia deseduc\u00e1-las: professores e coordenados que tentavam mold\u00e1-las. &nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os jovens pareciam loucos, choravam porque se identificavam com lugares j\u00e1 h\u00e1 muito esquecidos e pessoas estranhas, com as quais jamais tinham convivido, os tais personagens. Pior, contavam mentiras descaradas, absurdas, imposs\u00edvel de serem concretizadas. Chamavam a isso enredo. Desesperaram-se os dadores de aulas, pregadores de emo\u00e7\u00f5es baratas e lineares, que n\u00e3o conseguiam consol\u00e1-los, usando suas f\u00f3rmulas amarrotadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era comum ver pessoas nos parques, nas filas, nos consult\u00f3rios, no metr\u00f4 e, at\u00e9 mesmo nos banheiros, lendo. Era ainda mais comum ver aquele olhar perdido a sonhar com o destino de outras pessoas que as influenciavam. Leitores de todas as idades come\u00e7aram a se embrenhar, contaminados pela doen\u00e7a das linhas e entrelinhas. Traziam consigo aquele olhar s\u00f4frego de quem se revira em busca de <em>um n\u00e3o sei qu\u00ea, que nasce n\u00e3o sei onde, vem n\u00e3o sei como, e d\u00f3i, n\u00e3o sei por que<\/em>. Muitos mergulhavam nos significantes das palavras, para se travestirem com seus significados, como se se carnavalizassem. As cidades passaram a criar feiras, nas quais, ao inv\u00e9s de frutas e legumes, as barracas vendiam passagens para a imagina\u00e7\u00e3o, a alegria, o sofrimento, os desejos dos mais superficiais aos mais ocultos. O imposs\u00edvel se tornou poss\u00edvel; poss\u00edvel, imposs\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Crian\u00e7as, jovens, adultos, velhos que se embrenhavam pelo intrincado mundo da literatura pol\u00edtico-social, tornaram-se incrivelmente cr\u00edticos. Cr\u00edticos ferinos, intrag\u00e1veis na sua sanha de justi\u00e7a. Passaram a usar express\u00f5es ofensivas contra os poderosos, como: \u201cJusti\u00e7a social\u201d, \u201cAbaixo a censura\u201d e coisas tais. Os que se dedicavam aos romances come\u00e7aram a expor seus sentimentos com tal falta de pudor, que incomodaram os carolas e os violentos, dando-lhes motivos para essas mentes obtusas agredi-los fisicamente em quaisquer lugares, pois n\u00e3o conseguiam agredir suas convic\u00e7\u00f5es. V\u00e1rios deles se dedicaram ao suspense e \u00e0 fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Os civis passaram a usar suas habilidades dedutivas para resolver intrincados crimes, que a pol\u00edcia n\u00e3o resolvia com suas armas. Os idiotas da objetividade acreditavam no seu poder de decidir destinos, n\u00e3o suportavam ser confrontados por personagens egressos da hist\u00f3ria, agora desvestidos pela literatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os que se criam detentores de algum poder, vomitadores de regras, normas, leis, disseminadores do medo, come\u00e7aram a se preocupar com o seu pr\u00f3prio futuro. Espalharam, sem nenhuma vergonha, o boato de que a leitura tornava as pessoas frouxas, sens\u00edveis em demasia, desconectadas da realidade objetiva. Tecnocratas transformaram o boato na teoria do comportamento. V\u00e1rias reportagens tomaram conta do hor\u00e1rio pobre. Era preciso mudar esse estado de coisas. Urdiram, ent\u00e3o, um plano demolidor. A primeira medida: aumentar o pre\u00e7o dos livros. A segunda: colocar capas monumentais com couro bordado com fios de ouro em obras ocas. Arrancaram as p\u00e1ginas, estupraram obras, para que pudessem servir como objetos decorativos. A terceira: contratar pseudoescritores para reescrever obras de grandes autores dando a elas roupagens simpl\u00f3rias. Dos dedos frouxos e imagina\u00e7\u00f5es capengas, brotaram hist\u00f3rias rasas de autoajuda, com o intuito de embotar, fazer uma lobotomia nos viciados. &nbsp;A quarta: transformar livrarias em papelarias, cafeterias, sorveterias, brinquedotecas tirando delas a sua ess\u00eancia. A quinta: encarcerar os cr\u00edticos, arrancar sangue das suas frontes para que reneguem seus ideais e se tornem cidad\u00e3os papel higi\u00eanico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os &#8220;burrocratas&#8221;, subornados, submissos, sabujos fizeram pior, espalharam que ser escritor era ter uma esp\u00e9cie de doen\u00e7a da alma, um s\u00e9rio desvio de car\u00e1ter. Todo escritor \u00e9 um mentiroso compulsivo. Pior, afirmaram, de p\u00e9s juntos que, quem l\u00ea, se torna chato, intrag\u00e1vel, porque se torna cr\u00edtico demais e ser cr\u00edtico, \u00e9 muito ruim, afasta os amigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os comedores de dicion\u00e1rios, j\u00e1 deformados pela superficialidade, prolixos, puramente gramatiqueiros, ditadores da palavra, cultuadores das denota\u00e7\u00f5es olhavam desconfiados os aficionados pela subjetividade, os idealismos, os amantes das revolu\u00e7\u00f5es internas, das conota\u00e7\u00f5es sem entender o real motivo de uma pessoa passar a vida sendo governada, sem o desejo inerente aos humanos de governar. N\u00e3o entendiam tamb\u00e9m, como leitores encontravam o equil\u00edbrio entre a fic\u00e7\u00e3o e as evid\u00eancias, tornavam o hist\u00f3rico, atual; o atual, hist\u00f3rico; o hist\u00f3rico e o atual, atemporais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os magnatas, comerciantes de palavras, organizaram grupos de mercadores de consci\u00eancias, de acordo com a sua conveni\u00eancia, para falarem o \u00f3bvio para os \u00f3bvios, tolices para os tolos, para os inseguros, os medrosos, os impotentes, os desiludidos, os iludidos, os t\u00edmidos, os inseguros. Conclamaram aproveitadores das desgra\u00e7as alheias: executivos, psic\u00f3logos, t\u00e9cnicos de esportes, os que criam ter encontrado o milagre para atrair o dinheiro f\u00e1cil, os que criaram modelos de qualidade de vida para parirem livros apelativos: \u201cComo emagrecer em sete dias\u201d. \u201cComo deixar de ser t\u00edmido\u201d. Batizaram o amontoado de palavras de \u201cliteratura\u201d de autoajuda. No entanto, n\u00e3o s\u00f3 faltava a literatura como tamb\u00e9m a ajuda. Como o apelo comercial \u00e9 enorme, as pessoas sempre est\u00e3o doentes da raz\u00e3o, o grande neg\u00f3cio do neg\u00f3cio \u00e9 fazer chorar. Para come\u00e7ar o rid\u00edculo p\u00e9riplo de p\u00e1ginas, cunharam coisas assim: &#8220;Toda caminhada come\u00e7a com o primeiro passo&#8221;. Ent\u00e3o, tolos viram sabedoria na ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fantasias her\u00e9ticas a lendas urbanas, de ilus\u00f5es rom\u00e2nticas a pesadelos realistas, a literatura foi perdendo gradativamente o contato com a palavra. Com o tempo, o \u00f3bito de personagens, enredos, tramas, fantasias foi inevit\u00e1vel. Morreram os leitores de livros, nasceram os internautas. Esses se entregaram ao Instagram, ao Facebook, como \u00e0s balinhas de ecstasy. O Google passou a ser a casa, a consci\u00eancia, seu mundo. No auge da excita\u00e7\u00e3o, os argonautas do ciberespa\u00e7o inventaram at\u00e9 um novo idioma, sem as palavras. Comunicavam-se por gestos, grunhidos, carinhas, bichinhos, que substitu\u00edram momentos de amor, desespero, raiva, pudor, humor por frases desconectadas de textos \u00ednfimos, sem enredo. As redes sociais pescaram a criatividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Houve um tempo em que as pessoas entendiam melhor o mundo, porque entendiam melhor as palavras. Sabiam que tudo que est\u00e1 dentro ou fora de cada um, na imagina\u00e7\u00e3o ou na raz\u00e3o, \u00e9 traduzido por palavras. Ler \u00e9 adquirir vocabul\u00e1rio, portanto entender melhor as coisas e poder falar melhor com elas e sobre elas. Talvez seja por isso que as guerras s\u00e3o cada vez mais frequentes. O discurso faliu. A diplomacia morreu As pessoas se tornam cada vez mais agressivas, n\u00e3o conseguem expressar mais suas emo\u00e7\u00f5es, se \u00e9 que ainda as t\u00eam. Ser\u00e1 que ainda t\u00eam capacidade de se indignar? O mundo de hoje est\u00e1 muito sem gra\u00e7a. A arte de transmutar o mundo em palavras, letras e significantes e significados faliu. A cria\u00e7\u00e3o parece um deserto. Virou &#8220;cover&#8221; e \u201creleitura\u201d. &nbsp;A originalidade agoniza. Caminhamos massificados em um deserto criativo: uberiza\u00e7\u00e3o; macdonaldiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Houve um tempo em que o governo, para se mostrar preocupado com a crescente ignor\u00e2ncia da juventude, inseriu a prova de reda\u00e7\u00e3o nas provas dos vestibulares e fez uma campanha bomb\u00e1stica para estimular a leitura. A t\u00e1tica de \u201cdominar um povo burro chegou ao limite\u201d. 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