{"id":3886,"date":"2018-09-27T21:45:55","date_gmt":"2018-09-28T00:45:55","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/?p=3886"},"modified":"2018-09-27T21:45:55","modified_gmt":"2018-09-28T00:45:55","slug":"homunculo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/2018\/09\/27\/homunculo\/","title":{"rendered":"HOM\u00daNCULO"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\">(O BOCA DO INFERNO \u2013 qualquer semelhan\u00e7a com seres reais, n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A arma de um homenzinho \u00e9 a caneta, <em>a desmem\u00f3ria<\/em> proposital \u00e9 o corretivo ortogr\u00e1fico. O fim da linha \u00e9 a margem da p\u00e1gina e n\u00e3o a desonra em pra\u00e7a p\u00fablica. N\u00e3o conhece honra. Nunca conheceu: \u201cOs inimigos de hoje s\u00e3o os correligion\u00e1rios de amanh\u00e3\u201d. A arma de um antropoide \u00e9 <em>a deshist\u00f3ria<\/em>, a mentirada descaradamente desmentida. A mentira encarnada, o povo descarnado j\u00e1 a tem, por mais que proteste. A raia mi\u00fada rosna, mas n\u00e3o morde, segundo sua <em>desfilosofia<\/em>. Celebra a ignor\u00e2ncia do povar\u00e9u: aquele populacho que vende a pr\u00f3pria carne por um punhado de promessas infact\u00edveis e, \u00e9poca de pleito.<\/p>\n<p>O povo, o povinho, o povar\u00e9u, o populacho, a ral\u00e9, a raia mi\u00fada, esse ser \u201cestranhamente concreto\u201d, ao qual se refere, como se dele estivesse acima. Insuspeito ser acima de tudo, inclusive do reles seu penteado. N\u00e3o era povo, nunca foi, esteve sempre \u00e0 margem daquela coisa fedorenta. Fingia estar sempre apiedado da fome de justi\u00e7a social. Bradava com a fleuma de Ant\u00f4nio Conselheiro para a patuleia ensandecida que queria ape\u00e1-lo do \u201cpud\u00ea\u201d. Sabia que gr\u00e3os de milho contentaria a fome de um dia, ent\u00e3o ser esdr\u00faxulo volta para casa esperando a pr\u00f3xima esmola.<\/p>\n<p>Sentia-se um quiromante. Falava em nome desse ser concretamente abstrato, como um crente fala de Deus: aquela intimidade desmedida.<\/p>\n<p>A mulher de curvas s\u00f3lidas o chamava de benzinho; a filha, cara p\u00e1lida, o chamava de paizinho; a m\u00e3e: uma para ele, outra para os outros, como a de um juiz de futebol, de pluft. O ser por quem falava, o elogiava com palavras n\u00e3o muito elogiosas: golpista! Filho da puta! Safado! E por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>Como Pluft, sempre se moveu sem ser notado, conhecia os caminhos e descaminhos do poder. O modo mais seguro de consegui-lo, era empurrar o cotonete ao limite do razo\u00e1vel no ouvido do correligion\u00e1rio e depois retir\u00e1-lo devagar at\u00e9 que o dito gemesse. Era o seu orgasmo. Sem a cera, outro saberia quem mandava, quem seria o corrompido e o corruptor. Masturbava-se depois. Nunca ningu\u00e9m o notava, era onipresente, onipotente, onisciente; ora adentrava o \u00e2nus de um; ora abocanhava o p\u00eanis de outro; ora perpetrava seus <em>desideais<\/em> no discurso de um; ora empurrava palavras nos ouvidos de outro.<\/p>\n<p>Ele, por baixo dos ralos cabelos brancos, cria no \u201cBenzinho\u201d n\u00e3o muito bem, apesar dos seus bens. Era o m\u00e1ximo que podia suportar da mulher: \u201cbenzinho o arrepiava\u201d. Amor desinteressado, iludia-se mergulhado nas rugas que sobraram depois da \u00faltimo aplica\u00e7\u00e3o do botox. Gestos calculadamente cronometrados, embonecados. Parecia estar eternamente sentado no colo de um ventr\u00edloquo, mas era o contr\u00e1rio. Seu neg\u00f3cio era negociar. E como comprava&#8230;! Como vendia&#8230;! Como desavergonhadamente se vendia&#8230;! Sempre descumpria o que descumprira atrav\u00e9s dos anos, dos \u00e2nus, am\u00e9m. Era seu pr\u00f3prio deus e a manipula\u00e7\u00e3o de sua \u00fanica religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Recebeu v\u00e1rios apelidos: Gar\u00e7\u00e3o de filmes de terror; Dr\u00e1cula; Pin\u00f3quio; Corleone. Mas, gostava de um em especial: Ghost. \u00a0Sentia-se seu gostwritter. Discursava sobre o tema no qual n\u00e3o acreditava. Discursava um discurso que n\u00e3o era dele entre dentes, mas imposto pelas circunst\u00e2ncias. Sabia jogar o jogo. Mamando sangue, sabia que o \u201cdele\u201d estava retirando da ponta da linha reta. Devagar, empurrava o outro em dire\u00e7\u00e3o abismo: sarcasticamente, oferecia o paraquedas e tamb\u00e9m o veneno, caso o outro preferisse o suic\u00eddio, \u00e0 procura\u00e7\u00e3o. Gritava: \u201cD\u00ea-me a procura\u00e7\u00e3o. Berrava pra dentro. Esquecia o perdigoto\u201d.<\/p>\n<p>Seus sapatos 35 o levaram muito mais longe do que jamais poderia imaginar: ao seu plano alto, gabava-se, escondido atr\u00e1s das pilastras e dos vidros pretos da Limosine. Para realiz\u00e1-lo, prop\u00f4s-se a ser pernilongo e n\u00e3o raquete, pera e n\u00e3o vidra\u00e7a, mosquito, mas n\u00e3o merda. Chupou sangue contaminado, at\u00e9 enfraquecer o arrogante incauto. Passadas matem\u00e1ticas \u00e0 espera de que ra\u00edzes, enfim, brotassem sob seus pesinhos de gueixa, mas elas insistiam em continuar sementes. E balan\u00e7ou, sem crer que jamais crer na queda. Sempre esteve indeciso entre o \u201cOutono do patriarca\u201d e \u201c1984\u201d. N\u00e3o criou ra\u00edzes, como o patriarca; nem seria o \u201cGrande irm\u00e3o\u201d, sabia. Mas, quem sabe o pequeno irm\u00e3o? Ou o irm\u00e3o adotado pela imbecil arrogante.<\/p>\n<p>Media as palavras, compassava-as com r\u00e9gua, sempre solenes, at\u00e9 quando dizia: \u201cPreciso, deveras, de um penico\u201d. Contido, dardejava palavras, aprisionava os plurais exatamente, jamais duvidava da concord\u00e2ncia delas com o sujeito, preferia as palavras proparox\u00edtonas, os superlativos, os verbos no imperativo, as mes\u00f3clises, os poemas parnasianos em dodecass\u00edlabos (mais perfeitos que a perfei\u00e7\u00e3o), amava os sonetos fechados com chave de ouro&#8230; Ouro&#8230;!<\/p>\n<p>O nariz adunco superava o queixo altivo. Ora parecia \u00e1guia, ora rato, nunca papagaio. Seus dedos pequenos executavam poemas e pessoas a bordo da tinta preta da caneta ambicionada. N\u00e3o se podia dizer que vivia escondido nas sombras, a sua era pequena demais para existir. Ex\u00edmio constitucionalista, tra\u00eda a constitui\u00e7\u00e3o, como se trai a mulher desamada, desalmada. Era sua b\u00edblia, mas tamb\u00e9m seu \u00edndex.<\/p>\n<p>Ex\u00edmio manipulador, acabou encarcerado pela ambi\u00e7\u00e3o. Esqueceu-se de um de seus princ\u00edpios b\u00e1sicos: nunca colocar a bunda na janela. Minotauro, acabou \u201cGeneral no seu labirinto\u201d.<\/p>\n<p>Homenzinho, zinho, inho. N\u00e3o era um monstro como se pode imaginar, j\u00e1 ultrapassara essa barreira. Amava, incondicionalmente, cobras e estrelas. Mas, n\u00e3o amava pessoas, elas eram apenas objetos de decora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 mais nada a dizer. A hist\u00f3ria dir\u00e1. E se sela o reduzir ao seu tamanho?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(O BOCA DO INFERNO \u2013 qualquer semelhan\u00e7a com seres reais, n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia) &nbsp; A arma de um homenzinho \u00e9 a caneta, a desmem\u00f3ria proposital \u00e9 o corretivo ortogr\u00e1fico. O fim da linha \u00e9 a margem da p\u00e1gina e n\u00e3o a desonra em pra\u00e7a p\u00fablica. N\u00e3o conhece honra. 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