{"id":3802,"date":"2013-08-27T20:03:37","date_gmt":"2013-08-27T23:03:37","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/artigos\/?p=6"},"modified":"2013-08-27T20:03:37","modified_gmt":"2013-08-27T23:03:37","slug":"mais-rapido-mais-rapido-mais-rapido","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/2013\/08\/27\/mais-rapido-mais-rapido-mais-rapido\/","title":{"rendered":"Mais r\u00e1pido, mais r\u00e1pido, mais r\u00e1pido"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Por Alexandre Rodrigues | Para o Valor, de S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Primeiro quase n\u00e3o havia o tempo. Ainda que o avan\u00e7o do dia pudesse ser medido pelos rel\u00f3gios de sol e da noite pelos de \u00e1gua (parecidos com esses que ainda enfeitam shopping centers), os hor\u00e1rios mais confi\u00e1veis ainda eram a alvorada, o sol a pino e o anoitecer. Por mil\u00eanios, para as civiliza\u00e7\u00f5es, medir o tempo \u2013 exceto os respons\u00e1veis pelos sinos das igrejas que anunciavam as missas \u2013 nunca foi propriamente uma obsess\u00e3o. Ent\u00e3o, em algum ponto entre os s\u00e9culos XVIII e XIX, a hist\u00f3ria mudou. M\u00e1quinas e f\u00e1bricas e, mais tarde, trens e cabos telegr\u00e1ficos lan\u00e7aram o mundo em um ritmo de vida com rel\u00f3gios, hor\u00e1rios e pressa, muita pressa \u2013 a revolu\u00e7\u00e3o industrial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Dois s\u00e9culos depois, a humanidade vive uma doen\u00e7a do tempo, afirma o soci\u00f3logo alem\u00e3o Hartmut Rosa, em \u201cBeschleunigung und Entfremdung\u201d (acelera\u00e7\u00e3o e aliena\u00e7\u00e3o), ensaio ainda n\u00e3o publicado no Brasil. Fazendo eco a uma reclama\u00e7\u00e3o generalizada, ele aponta que o excesso de atividades anulou os ganhos que a tecnologia trouxe ao tempo das pessoas. O resultado \u00e9 uma epidemia mundial de estresse, ansiedade e ins\u00f4nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cVivemos para realizar tantas op\u00e7\u00f5es quanto poss\u00edvel da paleta infinita de possibilidades que a vida nos apresenta\u201d, diz. Viver intensamente a vida se tornou o principal objetivo do nosso tempo. \u201cNo fim do dia, nunca fizemos todas as coisas que dever\u00edamos ter feito. N\u00e3o trabalhamos o suficiente, n\u00e3o nos importamos o suficiente com as nossas crian\u00e7as e pais, n\u00e3o estamos em dia com as not\u00edcias. O n\u00famero de dimens\u00f5es em que \u00e9 suposto \u2018otimizar\u2019 a nossa vida, literalmente, explodiu nos \u00faltimos anos e n\u00e3o importa o qu\u00e3o r\u00e1pidos e eficientes somos, nunca \u00e9 o suficiente.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Rosa, autor de outros trabalhos sobre a velocidade na vida moderna e professor da Universidade de Jena, na Alemanha, aponta que nosso atual ritmo de vida \u00e9 fruto de tr\u00eas tipos de acelera\u00e7\u00e3o: mec\u00e2nica, da mudan\u00e7a social e do passo da vida. Iniciada com a revolu\u00e7\u00e3o industrial, a acelera\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica modificou as comunica\u00e7\u00f5es, a produ\u00e7\u00e3o e os transportes. Como consequ\u00eancia, provocou mudan\u00e7as nas sociedades que alteraram o ritmo da vida. Resultado: mais acelera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Rosa, para quem a humanidade vive uma doen\u00e7a do tempo: \u201cN\u00e3o importa o qu\u00e3o r\u00e1pidos e eficientes somos, nunca \u00e9 o suficiente\u201d<br \/>\nSe de J\u00falio C\u00e9sar a Napole\u00e3o a velocidade m\u00e1xima para algu\u00e9m ir de um ponto ao outro continuou a mesma \u2013 a de um cavalo -, os motores, primeiro nos trens e navios no s\u00e9culo XIX, depois nos avi\u00f5es e autom\u00f3veis cem anos depois, encurtaram dist\u00e2ncias e aproximaram o mundo. O mesmo ocorreu nas comunica\u00e7\u00f5es a partir da inven\u00e7\u00e3o do tel\u00e9grafo. As f\u00e1bricas adotaram os hor\u00e1rios para organizar a produ\u00e7\u00e3o e a humanidade ganhou uma companhia: os rel\u00f3gios. Os oper\u00e1rios agora precisavam morar perto do trabalho e isso os agrupou nas cidades, criando as metr\u00f3poles modernas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vistas na \u00e9poca, essas mudan\u00e7as traziam a promessa de que seres humanos finalmente seriam capazes de moldar sua vida em comum e criar sociedades que os pensadores cl\u00e1ssicos e da Renascen\u00e7a tinham imaginado. O resultado deveria ser uma era de raz\u00e3o em que a felicidade, a prosperidade e a liberdade deveriam ser para todos. No entanto, desde o in\u00edcio, quanto mais a tecnologia economizava tempo, mais ocupados todos se tornaram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cA l\u00f3gica da competi\u00e7\u00e3o militar e dos Estados teve um papel nisso, e a ideia de que podemos ter algo parecido com uma \u2018vida eterna antes da morte\u2019 se a gente for r\u00e1pido o bastante para fazer um n\u00famero indefinido de coisas antes de morrer, tamb\u00e9m\u201d, explica Rosa. Mas o papel mais importante \u00e9 do capitalismo. \u201cPara crescer, economias capitalistas precisam acelerar e inovar incessantemente. Se param de crescer e acelerar, perdem empregos, empresas fecham as portas, as receitas do Estado entram em decl\u00ednio e, como consequ\u00eancia, o sistema pol\u00edtico perde legitimidade.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esse processo, que j\u00e1 seguia em ritmo forte desde a revolu\u00e7\u00e3o industrial, adquiriu uma velocidade alucinante a partir dos anos 1970, com a revolu\u00e7\u00e3o dos computadores. Cada nova tecnologia passou a ser anulada pela produtividade. E com a globaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 trabalhadores, mas tamb\u00e9m pa\u00edses, entraram em competi\u00e7\u00e3o. \u201cComo o trabalho cada vez mais especializado aumenta a produ\u00e7\u00e3o, aumenta a quantidade de produtos e servi\u00e7os que precisam ser consumidos\u201d, diz a dupla de soci\u00f3logos americanos John P. Robinson e Geoffrey Godbey. O resultado \u00e9 um impulso para o consumo constante, seja de produtos, servi\u00e7os ou viagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em resposta, a pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o do tempo come\u00e7ou a mudar. James Tien e James Burnes, professores de matem\u00e1tica aplicada do Instituto Polit\u00e9cnico Rensselaer, nos Estados Unidos, analisaram o crescimento das estat\u00edsticas de produtividade e emiss\u00e3o de patentes em 1897 e 1997 para concluir que a percep\u00e7\u00e3o da passagem do tempo para um jovem de 22 anos \u00e9 8% mais r\u00e1pida do que para algu\u00e9m da mesma idade um s\u00e9culo atr\u00e1s. Para algu\u00e9m com 62 anos, a vida hoje se passa 7,69 vezes mais r\u00e1pida. A acelera\u00e7\u00e3o, dizem outros estudos, continua aumentando essa sensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Petrini, criador do \u201cslow-food\u201d<br \/>\nAs consequ\u00eancias s\u00e3o conhecidas de m\u00e9dicos desde quase o surgimento das m\u00e1quinas. No fim do s\u00e9culo XIX, denunciava-se uma epidemia de neurastenia, causada pelo ritmo de vida nas cidades. Com o avan\u00e7o dos estudos, Larry Dossey, m\u00e9dico americano, criou, nos anos 80, a express\u00e3o \u201cdoen\u00e7a do tempo\u201d para descrever a cren\u00e7a obsessiva de que o tempo est\u00e1 passando e a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o \u00e9 acelerar o ritmo de vida. Dois psic\u00f3logos card\u00edacos americanos, Diane Ulmer e Leonhard Schwartzburd, da Universidade de Berkeley, conclu\u00edram em um estudo, \u201cCora\u00e7\u00e3o e Mente\u201d, que a pressa extrema e constante pode afetar a personalidade e as rela\u00e7\u00f5es sociais, levando tamb\u00e9m a estresse, ins\u00f4nia, problemas card\u00edacos e de concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A sensa\u00e7\u00e3o de pressa tamb\u00e9m cria um estado de busca de ganhos imediatos, mesmo se h\u00e1 chance de uma recompensa maior no futuro, e reduz a propens\u00e3o para fazer economia. \u201cDescobrimos que at\u00e9 mesmo a exposi\u00e7\u00e3o a s\u00edmbolos de fast-food pode aumentar automaticamente a pressa, mesmo sem a press\u00e3o do tempo\u201d, diz Chen-Bo Zhong, psic\u00f3logo canadense da Universidade de Toronto que conduziu, com Sanford E. DeVoe, o estudo \u201cFast-Food e Impaci\u00eancia\u201d. No Jap\u00e3o, onde a pressa se junta \u00e0 press\u00e3o social, colapsos s\u00e3o t\u00e3o comuns que h\u00e1 no vocabul\u00e1rio uma palavra, \u201ckaroshi\u201d, para os casos de trabalhadores que morrem com sobrecarga de trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Economistas se deram conta do fen\u00f4meno depois que o sueco Staffan Linder (1931-2000), publicou, nos anos 70, \u201cA Classe Ociosa Atormentada\u201d, prevendo que os trabalhadores se tornariam atarefados demais para o lazer. D\u00e9cadas depois, n\u00e3o s\u00f3 as previs\u00f5es se confirmaram \u2013 segundo a soci\u00f3loga americana Juliet Schor, 37% do tempo de lazer foi perdido nas na\u00e7\u00f5es industrializadas desde meados dos anos 70 \u2013 como a acelera\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica mudou drasticamente a economia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cTem sempre um mercado aberto. Tem que estar sempre ligado no celular ou Skype\u201d, comenta Gabriel Franke, operador de mesa da corretora XP Investimentos. Com o \u201chome broker\u201d e as bolsas eletr\u00f4nicas, cota\u00e7\u00f5es mudam segundo ap\u00f3s segundo, afetando todos, e as negocia\u00e7\u00f5es nos mercados podem seguir em qualquer hora ou lugar. \u201c\u00c0s vezes tem cliente que est\u00e1 posicionado numa opera\u00e7\u00e3o que tem influ\u00eancia de mercado l\u00e1 fora e a\u00ed fico de olho mesmo. E alguns mercados, como o de moedas, nunca fecham.\u201d Tempo para o lazer? \u201cAcabo tendo algum no domingo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A percep\u00e7\u00e3o da passagem do tempo para um jovem de 22 anos \u00e9 8% mais r\u00e1pida do que para algu\u00e9m da mesma idade um s\u00e9culo atr\u00e1s<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os efeitos s\u00e3o ainda mais sentidos no mundo digital. Segundo Eric Schmidt, CEO do Google, o volume de informa\u00e7\u00e3o produzida entre o in\u00edcio das civiliza\u00e7\u00f5es e 2003 hoje \u00e9 criado a cada dois dias. A capacidade de processamento dos computadores, seguindo a chamada Lei de (ex-presidente da Intel Gordon) Moore, continua a dobrar a cada 18 meses. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 acelera\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica no crescimento da popula\u00e7\u00e3o (o n\u00famero de pessoas nascidas desde 1950 \u00e9 o mesmo dos primeiros quatro milh\u00f5es de anos da humanidade) e at\u00e9 no n\u00famero de doen\u00e7as descobertas (28 novas infecciosas desde os anos 70, de acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A acelera\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 a mesma para todos. Em um estudo chamado \u201cA Geografia do Tempo\u201d, o psic\u00f3logo social americano Robert Levine, da Universidade da Calif\u00f3rnia, pesquisou a maneira como os habitantes de 31 cidades pelo mundo vivenciam o tempo. Em um exerc\u00edcio curioso, os pesquisadores mediram a velocidade das pessoas para percorrer um trecho de 18 metros. Os japoneses caminham mais apressados. Os brasileiros \u2013 ele viveu por um ano no pa\u00eds e se sentiu torturado pela falta de pontualidade local \u2013 ficaram com o 28\u00ba lugar. Em um trabalho parecido, pesquisadores da Universidade de Hertfordshire, na Inglaterra, conclu\u00edram que a cada dez anos as pessoas faziam o mesmo trecho um segundo mais r\u00e1pido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cEmbora eu n\u00e3o tenha dados emp\u00edricos, acredito que o ritmo acelerou no pa\u00eds, mas seletivamente\u201d, observa Levine. \u201c\u00c0 medida que a agita\u00e7\u00e3o atual demonstra, o crescimento econ\u00f4mico permanece limitado a certas pessoas e lugares e, na maioria das vezes, o mesmo pode ser dito sobre o ritmo resultante da vida.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Pesquisadores mediram a velocidade das pessoas para percorrer um trecho de 18 metros em 31 cidades. Os japoneses s\u00e3o os que caminham com mais pressa<br \/>\nEmpregos, relacionamentos, amizades, at\u00e9 la\u00e7os familiares, nada mais \u00e9 para sempre. Um aspecto positivo \u00e9 que as sociedades se tornaram mais heterog\u00eaneas, com o reconhecimento das minorias, direitos das mulheres, estilos de vida alternativos e novas formas de relacionamento. Quanto mais a tecnologia se acelera, mais rapidamente os pa\u00edses, os ocidentais, por enquanto, se tornam mais plurais. Hoje, 585 milh\u00f5es de pessoas vivem em pa\u00edses onde o casamento gay \u00e9 legalizado. Doze anos atr\u00e1s, esse n\u00famero era zero. Em junho, a Suprema Corte dos Estados Unidos retirou algumas prote\u00e7\u00f5es aos negros americanos, considerando que n\u00e3o s\u00e3o mais necess\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O lado negativo \u00e9 o que levou Rosa a escrever o ensaio, um processo que ele chama de \u201caliena\u00e7\u00e3o\u201d. O termo, tomado emprestado de Karl Marx, \u00e9 o resultado final das mudan\u00e7as sociais, quando o pr\u00f3prio ritmo da vida \u00e9 alterado, exigindo novas tecnologias, que v\u00e3o criar mais mudan\u00e7as sociais e mais altera\u00e7\u00f5es do ritmo da vida, como em um c\u00edrculo que se retroalimenta. \u201cAliena\u00e7\u00e3o envolve um estado em que as pessoas j\u00e1 n\u00e3o se sentem em casa no seu mundo porque t\u00eam que mudar de lugar, trabalhos, ferramentas, rotinas, amigos e, talvez, at\u00e9 mesmo fam\u00edlias o tempo todo\u201d, aponta Rosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esse fen\u00f4meno estaria por tr\u00e1s de alguns conflitos sociais da atualidade. Parte das pessoas, segundo ele, n\u00e3o consegue dar conta das complexidades do mundo atual e busca ref\u00fagio no conservadorismo. Se n\u00e3o se tornam dogm\u00e1ticas, radicalizando posi\u00e7\u00f5es como no conflito permanente entre democratas e republicanos nos Estados Unidos, prop\u00f5em, como ocorre atualmente na Alemanha, o abandono das discuss\u00f5es em nome da r\u00e1pida adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">M\u00e1 not\u00edcia para os pol\u00edticos. Como a sociedade se move a um ritmo cada vez mais alucinante, h\u00e1 um abismo entre a pol\u00edtica e as pessoas. \u201cEssa fenda \u00e9 a consequ\u00eancia de uma falta de sincronia entre o ritmo da pol\u00edtica, de um lado, e a velocidade da mudan\u00e7a social no outro. A pol\u00edtica tornou-se lenta demais\u201d, reflete o soci\u00f3logo alem\u00e3o. \u201cEm muitos casos, a pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 mais o marca-passo das tend\u00eancias de mudan\u00e7a social, s\u00f3 est\u00e1 preocupada em apagar inc\u00eandios.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Segundo CEO do Google, o volume de informa\u00e7\u00e3o produzida entre o in\u00edcio das civiliza\u00e7\u00f5es e 2003 \u00e9 criado, hoje, a cada dois dias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Trata-se de uma amea\u00e7a \u00e0s democracias. Os pol\u00edticos, afirma, est\u00e3o deixando de ser relevantes, abrindo espa\u00e7o ao surgimento de l\u00edderes populistas. Os argumentos saem de cena em troca de ressentimentos e instintos irracionais. Seria uma das raz\u00f5es que atualmente levam multid\u00f5es \u00e0s ruas em todo o mundo. \u201cO nosso sistema \u00e9 muito burocratizado e com v\u00e1rias normas que no fim das contas afastam as pessoas\u201d, faz coro o professor Rafael Alcadipani, coordenador de pesquisas organizacionais da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV-SP), que tem estudado os protestos recentes no pa\u00eds. \u201cA pol\u00edtica precisa dar respostas e isso n\u00e3o tem acontecido.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Seja com os artistas e escritores do romantismo, transcendentalistas ou os do Arts &amp; Crafts, movimentos pela desacelera\u00e7\u00e3o acompanham a pr\u00f3pria hist\u00f3ria da acelera\u00e7\u00e3o. Sua vers\u00e3o moderna desde os anos 90 prega a op\u00e7\u00e3o pela lentid\u00e3o. O pioneiro, o movimento \u201cslow-food\u201d (comida lenta), foi fundado pelo italiano Carlo Petrini em 1986 em rea\u00e7\u00e3o \u00e0 presen\u00e7a de uma filial do McDonald\u2019s no centro hist\u00f3rico de Roma e reage ao fast-food. Inspirados nos viajantes-escritores do s\u00e9culo XIX, os praticantes do \u201cslow-travel\u201d (viagem lenta) advogam o envolvimento dos turistas com os locais visitados. Artistas do \u201cslow-art\u201d (arte lenta) produzem \u2013 e tamb\u00e9m defendem que seja assim a aprecia\u00e7\u00e3o das obras \u2013 com todo o tempo do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">H\u00e1 ainda a \u201cslow-fashion\u201d (rejeita as roupas produzidas em massa, preferindo as costuradas \u00e0 m\u00e3o), o \u201cslow-data\u201d (chega de produzir tanta informa\u00e7\u00e3o) e o \u201cslow-stocks\u201d (prega recompensas do mercado aos acionistas que mantiverem suas a\u00e7\u00f5es por mais tempo). Cada um leva a seu campo a luta contra o rel\u00f3gio. E, como tudo come\u00e7ou com a tecnologia, por que n\u00e3o reduzir o ritmo da ci\u00eancia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Marlene Bergamo\/Folhapress \/ Marlene Bergamo\/FolhapressManifesta\u00e7\u00e3o em junho, em S\u00e3o Paulo: como a sociedade se move a um ritmo cada vez mais alucinante, h\u00e1 um abismo entre a pol\u00edtica e as pessoas, observa soci\u00f3logo<br \/>\n\u201cPrecisamos ter tempo para pensar muito cuidadosamente sobre cada avan\u00e7o cient\u00edfico \u2013 a fim de descobrir a melhor maneira de us\u00e1-lo no mundo real\u201d, afirma Carl Honor\u00e9, escoc\u00eas radicado no Canad\u00e1, autor do best-seller \u201cDevagar\u201d. Em 1990, ele esperava um voo no aeroporto de Roma, quando leu um texto chamado \u201cA Hist\u00f3ria de Dormir de um Minuto\u201d, em que autores condensavam cl\u00e1ssicos das hist\u00f3rias infantis para pais sem tempo. Foi o ponto de partida para se tornar um militante da desacelera\u00e7\u00e3o. \u201cEu n\u00e3o acho que devemos reduzir a ci\u00eancia. Pelo contr\u00e1rio. Eu acho que precisamos usar a ci\u00eancia de forma mais sensata. E a sabedoria e a lentid\u00e3o andam de m\u00e3os dadas.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Outra iniciativa: na Inglaterra e nos Estados Unidos, foi criado o \u201cBanco do Tempo\u201d, onde pessoas trocam servi\u00e7os, como pequenos consertos e cuidar de crian\u00e7as e idosos, por um certo n\u00famero de horas que d\u00e1 direito a contratar outras pessoas para as pr\u00f3prias necessidades. A solu\u00e7\u00e3o lembra a premissa do filme \u201cO Pre\u00e7o do Amanh\u00e3\u201d, do diretor neozeland\u00eas Andrew Niccol, no qual cada humano precisa comprar mais tempo para seguir vivendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cEu sou muito c\u00e9tico quanto a esses movimentos\u201d, rebate Hartmut Rosa. \u201cNa verdade, sempre houve movimentos sociais e culturais contra a alta velocidade da modernidade. Por exemplo, em Paris, por volta de 1900, houve uma moda de andar com tartarugas em uma coleira, como forma de protesto. Mas, no fim, a velocidade sempre vence.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Resta ainda a pergunta: aonde a acelera\u00e7\u00e3o nos levar\u00e1? Alguns estudiosos como Raymond Kurzweil, otimistas, apontam para a singularidade tecnol\u00f3gica, um grande salto cient\u00edfico, previsto para o s\u00e9culo XXI, capaz de resolver quase todos os problemas \u2013 econ\u00f4micos, ambientais, sociais. Para o soci\u00f3logo alem\u00e3o, contudo, o pior perigo \u00e9 a acelera\u00e7\u00e3o se tornar uma forma de totalitarismo. E ele n\u00e3o tem nenhuma sugest\u00e3o para controlar o monstro. \u201cNo momento eu n\u00e3o tenho sequer um esbo\u00e7o de como isso poderia ser feito.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Alexandre Rodrigues | Para o Valor, de S\u00e3o Paulo Primeiro quase n\u00e3o havia o tempo. Ainda que o avan\u00e7o do dia pudesse ser medido pelos rel\u00f3gios de sol e da noite pelos de \u00e1gua (parecidos com esses que ainda enfeitam shopping centers), os hor\u00e1rios mais confi\u00e1veis ainda eram a alvorada, o sol a pino [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[4,5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3802"}],"collection":[{"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3802"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3802\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3802"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3802"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3802"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}