{"id":3588,"date":"2014-06-26T12:25:14","date_gmt":"2014-06-26T15:25:14","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/?p=3588"},"modified":"2014-06-26T12:25:14","modified_gmt":"2014-06-26T15:25:14","slug":"o-corpo-que-habitamos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/2014\/06\/26\/o-corpo-que-habitamos\/","title":{"rendered":"O CORPO QUE HABITAMOS"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left\" align=\"center\">R\u00daBIA\u00a0 ALVES<\/p>\n<p align=\"center\">\n<p>E ent\u00e3o, depois de longos dois meses comprando apenas roupinhas amarelas o m\u00e9dico sentenciou: \u201c- \u00c9 um menino\u201d. Dito isso, ele mais do que conceituou o g\u00eanero daquele ser, ele determinou o comportamento e as escolhas dos pais daquele beb\u00ea que passou a ser um menino, que passou a ter o quarto azul e a ganhar brinquedos de carrinho ao inv\u00e9s de bonecas. Com apenas uma palavra, os pais j\u00e1 sabiam o que deveriam fazer: educar um menino, n\u00e3o uma crian\u00e7a, educar para que n\u00e3o fosse chamado de marica, para que fosse homem agindo como um, para que n\u00e3o deixasse ningu\u00e9m bater na cara dele, para n\u00e3o chorar na frente das pessoas e para, pricipalmente, gostar de meninas.<\/p>\n<p>Mas o que o os m\u00e9dicos poderiam ver no ultrassom que iria garantir que aquele beb\u00ea fosse um homem ou uma mulher? A resposta, embora pare\u00e7a \u00f3bvia, n\u00e3o \u00e9. Pois o que diferencia um homem de uma mulher n\u00e3o \u00e9 apenas a genit\u00e1ria masculina ou feminina. Um homem, que perde seu p\u00eanis devido a um acidente, ou por causa de um c\u00e2ncer ou at\u00e9 mesmo por consequ\u00eancias da diabetes (o que \u00e9 mais comum do que se imagina), deixa de ser homem? E uma mulher, que decide tomar horm\u00f4nios e fazer uma cirurgia de g\u00eanero, continuar\u00e1 sendo mulher? O corpo determina o que a pessoa \u00e9 ou j\u00e1 somos capazes de nos libertar dele?<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do g\u00eanero, n\u00e3o raras vezes confundida com sexualidade, \u00e9 um assunto que ainda tem v\u00e1rias interroga\u00e7\u00f5es e poucas respostas. Ainda considerada uma patologia e h\u00e1 pouco tempo, um crime, a mudan\u00e7a de g\u00eanero colocou milhares de trans na clandestinidade e ainda deixa desamparada uma multid\u00e3o, que \u00e9 discriminada e agredida (quase sempre da forma mais humilhante poss\u00edvel) por uma sociedade cheia de tabus preocupada em se autoafirmar e pouco interessada na alteridade.<\/p>\n<p>Mas, a intoler\u00e2ncia e a falta de compreens\u00e3o entre os homens causa s\u00e9rios danos\u00a0 e preju\u00edzos a todos e a qualquer um, como fica evidenciado nos relatos e nos \u00edndices exorbitantes de preconceito em rela\u00e7\u00e3o ao g\u00eanero e \u00e0 sexualidade. E n\u00e3o \u00e9 preciso ser necessariamente um transg\u00eanero ou um homossexual para ser v\u00edtima, sim, v\u00edtima, dessa viol\u00eancia, basta ser confundido com um, como foi o caso dos irm\u00e3os g\u00eameos, Jos\u00e9 Leandro da Silva e Jos\u00e9 Leonardo, que sairam abra\u00e7ados depois de uma festa e foram agredidos at\u00e9 um morrer e o outro ser internado. E do pai, 42 anos, que andava de m\u00e3os dadas com o filho, 18 anos, e perdeu parte da orelha direita depois de ser agredido por dois homens homof\u00f3bicos.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia m\u00e9dica pode considerar o transg\u00eanero um doente, mas s\u00e3o os transg\u00eaneros que sofrem com o preconceito doentio de uma sociedade que os expulsa direta ou indiretamente das escolas, que os coloca em subempregos e que n\u00e3o sabe cuidar, ou melhor, lidar, com pessoas que apresentam uma riqueza e determina\u00e7\u00e3o enorme. E essa sociedade, formada por: religiosos fervorosos, machistas, heterossexuais incomodados com homossexuais, etc, \u00e9 considerada s\u00e3, at\u00e9 agora. E at\u00e9 agora porque ainda acreditamos que quando o m\u00e9dico olha no ultrassom e diz \u00e9 um menino ele est\u00e1 certo, confiamos piamente de que aquele beb\u00ea \u00e9 um menino, e mais do que isso, julgamos necess\u00e1rio criarmos meninos e meninas de formas distintas e quase sempre baseada numa tradi\u00e7\u00e3o repleta de valores que n\u00e3o s\u00e3o valores e que costuma deixar bem claro quem deve exercer o papel do opressor e quem deve ser o oprimido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"right\">Rubia Alves<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>R\u00daBIA\u00a0 ALVES E ent\u00e3o, depois de longos dois meses comprando apenas roupinhas amarelas o m\u00e9dico sentenciou: \u201c- \u00c9 um menino\u201d. 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