{"id":3441,"date":"2014-05-22T19:05:33","date_gmt":"2014-05-22T22:05:33","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/?p=3441"},"modified":"2014-05-22T23:06:42","modified_gmt":"2014-05-23T02:06:42","slug":"este-texto-voces-vao-odiar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/2014\/05\/22\/este-texto-voces-vao-odiar\/","title":{"rendered":"ESTE TEXTO VOC\u00caS V\u00c3O ODIAR"},"content":{"rendered":"<p>(O BOCA DO INFERNO &#8211; 19\/5\/14)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Antes de os portugueses descobrirem o Brasil, os portugueses tinham descoberto a felicidade&#8221;. Jos\u00e9 Oswald de Andrade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nestas praias paradis\u00edacas, de um c\u00e9u azul anil, desembarcaram piratas b\u00eabados, doentes, famintos para nos acorrentar, estuprar nossas mulheres, roubar nosso Pau Brasil. Nesse tempo, us\u00e1vamos ervas para curar nossas feridas, n\u00e3o faz\u00edamos a menor ideia de como empunhar um fuzil. Logo depois, desembarcou por aqui um homem com roupas esquisitas, um sobrenome deveras curioso, h\u00e1bitos estranhos: um tal de Sardinha. Quase morreu afogado. Para um povo antrop\u00f3fago, acostumado a comer peixes enrolados em folhas de bananeiras, n\u00e3o houve problema algum. O mar deixou esse petisco muito bem temperado. Foi deglutido com mandioca e cebola, em fogo baixo, bem assado.<\/p>\n<p>Logo depois do pescado e assado Sardinha, deram, com os cornos no nosso para\u00edso, um povo vestido de preto trazendo nos ombros uma coisa maldita, que chicoteava e matava em nome de Deus: a tal da Inquisi\u00e7\u00e3o. Vestiam-se como corvos, ca\u00e7avam nativos com uma m\u00e3o na espada e a outra na cruz. Usavam tamb\u00e9m a chibata ou cutucavam os corpos feridos com um ti\u00e7\u00e3o. Os que eles chamavam de \u00edndios ou se convertiam ou viveriam, para sempre, sem ver a luz. Pusemos \u00a0para correr, \u00e0 custa de muitas vidas inocentes, esses urubus. Depois dessa fuga, \u00edndios, negros, mesti\u00e7os, voltaram a andar nus.<\/p>\n<p>Depois pularam em cima de n\u00f3s os piratas franceses. Vinham carregados da ilus\u00e3o de tamb\u00e9m nos embebedar, para nos amarrar, dominar, estuprar. Expulsamos, com nossos tacapes, aqueles frufrus fedorentos. Lutamos, obrigados, ao lado de um tal Est\u00e1cio de S\u00e1, mais tarde, tamb\u00e9m o pusemos para correr com tanto medo at\u00e9 se cagar. N\u00e3o gostamos nem um pouquinho dos seus intentos. O safado fugiu para as terras de al\u00e9m mar. S\u00f3 ouv\u00edamos o barulho dos portugueses entrando em canoas, como ouv\u00edamos os seus lamentos. Os holandeses empurrados por uma tal Cia. das \u00cdndias Ocidentais quiseram a cana de a\u00e7\u00facar, ouro branco, que plant\u00e1vamos em Pernambuco. Tanto eles, quantos os franceses foram expulsos por \u00edndios e negros, mesti\u00e7os, enfim brasileiros, na ponta de um trabuco.<\/p>\n<p>Mandamos embora um imperador portugu\u00eas para assaltar um Portugal decadente. Em seguida, devolvemos para a Europa outro imperador. Esse, por\u00e9m, era mais decente, diferente. Amava o Brasil. Mas, quem n\u00e3o ama, exceto o brasileiro demente? O velho foi embora, deixando o produto do roubo, como se fosse um favor. Imigrantes chegaram de todo lugar, atr\u00e1s de um pa\u00eds de bra\u00e7o abertos para se entregar a um povo salvador. Cultivaram a terra dos coron\u00e9is como escravos, comendo os restos de comida, como porcos, curtiram sua esperan\u00e7a com a dor. Depois de muita porrada, encheram a boca um sorriso pr\u00f3spero, mas ir\u00f4nico. Misturaram-se tanto aos brasileiros, at\u00e9 inventaram juntos uma nova l\u00edngua, o &#8220;portugu\u00eas macarr\u00f4nico&#8221;.<\/p>\n<p>Passamos pelas m\u00e3os de cru\u00e9is dominadores. Povos &#8220;achados&#8221;, como o nosso, sem pai, cuja m\u00e3e \u00e9 uma caravela, n\u00e3o escapam das armas, arma\u00e7\u00f5es, roubos, corrup\u00e7\u00e3o, submiss\u00e3o, carregaram na pele, no suor, nas fezes, os seus fedores. Ao contr\u00e1rio do que se conta nos livros de hist\u00f3ria, somos lutadores. Batemos na cara deles, com gana suficiente para registrarmos cada um dos nossos atos na mem\u00f3ria. E por que, ent\u00e3o, n\u00e3o temos mem\u00f3ria? Porque, povos descobertos, aprendem a esquecer a \u00a0barb\u00e1rie. Interessa ao dominador que nos sentamos tolos, toscos, burros, esquecemos o que \u00e9 morder, nos impingem a ideia de que nossos dentes est\u00e3o cheios de c\u00e1ries. \u00c9 f\u00e1cil imitar como papagaio, \u00a0implicitamente isso interessa a algu\u00e9m. O dif\u00edcil \u00e9 lutar para n\u00e3o se sentir um Z\u00e9 Ningu\u00e9m. Lindo \u00e9 adorar uma beleza imposta. Feio \u00e9 se curar do complexo de se sentir uma ferida exposta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(CONTINUA)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(O BOCA DO INFERNO &#8211; 19\/5\/14) &nbsp; &#8220;Antes de os portugueses descobrirem o Brasil, os portugueses tinham descoberto a felicidade&#8221;. Jos\u00e9 Oswald de Andrade. &nbsp; Nestas praias paradis\u00edacas, de um c\u00e9u azul anil, desembarcaram piratas b\u00eabados, doentes, famintos para nos acorrentar, estuprar nossas mulheres, roubar nosso Pau Brasil. 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