{"id":3401,"date":"2014-05-12T18:15:04","date_gmt":"2014-05-12T21:15:04","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/?p=3401"},"modified":"2014-05-12T21:17:49","modified_gmt":"2014-05-13T00:17:49","slug":"machado-esta-morto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/2014\/05\/12\/machado-esta-morto\/","title":{"rendered":"MACHADO EST\u00c1 MORTO"},"content":{"rendered":"<p>(Prof.: LUIZ CL\u00c1UDIO JUBILATO &#8211; 11\/5\/24)<br \/>\nEstive pensando. E olha que pensar \u00e9 um luxo nesses tempos tecnocratas e burocr\u00e1ticos. O motivo dos meus pensamentos \u00e9 o poss\u00edvel assassinato de Machado de Assis. Mas, ele j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 morto? Perguntariam os menos afeitos ao estudo liter\u00e1rio. Mas ele n\u00e3o est\u00e1 morto desde 1908? Diriam os donos do \u00f3bvio. Como \u00e9 poss\u00edvel matar algu\u00e9m que insiste em n\u00e3o morrer? Observando os estudiosos que esquartejaram sua obra, para melhorar extrair-lhe as v\u00edsceras, h\u00e1 a possibilidade de que partes de sua mente perspicaz esteja insepulta em in\u00fameros caix\u00f5es. Abre-se um livro, uma delas emerge das tumbas vestida de smoking para se digladiar com um leitor de biqu\u00edni ou de bermuda ou de dry fith ou estivador de apostilas\u2026 S\u00e3o leitores desnutridos de vocabul\u00e1rio, conhecimento, experi\u00eancia, imagina\u00e7\u00e3o ou coisa assim, dizem os entendidos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil para os \u201centendidos\u201d, ent\u00e3o, perceber que Machado de Assis, vulgo Bruxo do Cosme Velho, primeiro presidente da Academia de Letras, sepultado como imortal, na verdade, est\u00e1 morto para os internautas, \u201cdadores\u201d de aulas nos cursinhos, \u201cfazedores\u201d de resumos que insistem em mant\u00ea-lo sem brilho, sem vigor, sem \u201calegria\u201d.<\/p>\n<p>A\u00ed, vem uma sacr\u00edlega escritorazinha, com ares de exorcista, para ressuscit\u00e1-lo, arrancando Machado de Assis das prateleiras das livrarias, das bibliotecas, das teses de mestrado, da arrog\u00e2ncia da \u201cintelig\u00eancia\u201d dos intelectuais, das famigeradas listas de livros dos vestibulares, das provas do ensino m\u00e9dio e fundamental para entreg\u00e1-lo a um bombeiro, a um eletricista, a um aluno desnudo de vocabul\u00e1rio e\/ou conhecimento\u2026 de uma escola p\u00fablica, de um lugar qualquer.<\/p>\n<p>Os exterminadores do Machado de smoking, em quest\u00e3o, \u00e9 a escritora Patr\u00edcia Secco e uma equipe jornalistas. Pretendem simplificar o que chamam de \u201cdialeto machadiano\u201d, pois o Bruxo do Cosme Velho tornou-se herm\u00e9tico ao extremo para ser decifrado pelos leitores de Facebook e, quando muito, de livros, se \u00e9 que podemos chamar assim, de autoajuda e de best seller. \u201cOs livros dele [Machado de Assis] t\u00eam cinco ou seis palavras que [os jovens] n\u00e3o entendem por frase. As constru\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito longas. Eu simplifico isso\u201d, afirma Patr\u00edcia, sem qualquer pudor. Heresia.<\/p>\n<p>Os puristas afirmam que os tradutores de obras de muitos grandes e\/ou pequenos autores, acabam desvirtuando-os, porque se tornam coautores ou at\u00e9 donos das obras ou at\u00e9 assassinos desses autores. N\u00e3o creio que Patr\u00edcia tenha essa pretens\u00e3o. O bom mesmo \u00e9 ler o livro \u201cno original\u201d. Certo? O bom mesmo \u00e9 ler Machado no original. Mas, quem l\u00ea livros, num pa\u00eds onde o cidad\u00e3o \u201ccomum\u201d sequer l\u00ea bula de rem\u00e9dio ou manual de instru\u00e7\u00f5es de seja l\u00e1 o que for?<\/p>\n<p>Machado divertia-se com o realismo \u201ccolorido\u201d de Manuel Ant\u00f4nio de Almeida (Mem\u00f3ria de um sargento de mil\u00edcias), cuja linguagem remontava aos sub\u00farbios cariocas, onde vivia o \u201chomem comum\u201d. O Velho Machado n\u00e3o tinha qualquer pudor em falar dessa admira\u00e7\u00e3o. Se o homem suburbano podia entender Manoel, porque n\u00e3o a ele? Depois, apoiou Lima Barreto que seguia a mesma trilha. Machado era desprovido do pudor que agora se reverte contra a sua obra. Vivia no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que a literatura vai muito al\u00e9m do mero linguajar, contudo Shakespeare n\u00e3o deixou de ser Shakespeare, porque foi traduzido para o Cinema, nem E\u00e7a deixou de ser E\u00e7a, porque virou miniss\u00e9rie de tev\u00ea. A ess\u00eancia de suas obras continua l\u00e1, a n\u00e3o ser que Patr\u00edcia e seu \u201cgrupo terrorista\u201d pretendam desmascarar de vez a suposta ad\u00faltera Capitu ou nos entregar, de bandeja, o sentimento amb\u00edguo que Bentinho nutria pelo amigo Escobar, cujo corpo t\u00e3o bem traduzia, em palavras, de tanto observar.<\/p>\n<p>De tanto olhar para um \u00fanico lugar, cr\u00edticos tendem a cultivar verdades absolutas ou sofrer do mal da soberba. Lima Barreto, destru\u00eddo pela pseudo-intelectualidade de sua \u00e9poca, devido a sua linguagem despojada, n\u00e3o pode ser entendido, hoje, sem um dicion\u00e1rio. Graciliano, o grande Graciliano, abusado no uso do falar do homem animal nordestino, s\u00f3 pode ser entendido e, mal entendido, quando um paciente leitor manipula, sem nenhum temor, um dicion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Machado de Assis escreveu uma obra \u201catemporal\u201d, \u201cuniversal\u201d, mas, de que adianta toda essa genialidade, se n\u00e3o pode ser vestida, captada, entendida para ser amada. O Bruxo est\u00e1 literal e literariamente morto para as novas gera\u00e7\u00f5es, queiramos ou n\u00e3o, inclusive para os candidatos ao curso de letras nas universidades que preferem os resumos ao original.<\/p>\n<p>Segundo o pr\u00f3prio Bruxo do Cosme Velho, para que o cr\u00edtico julgue uma obra, \u201ccumpre-lhe meditar profundamente sobre ela, procurar-lhe o sentido \u00edntimo, aplicar-lhe as leis po\u00e9ticas, ver enfim at\u00e9 que ponto a imagina\u00e7\u00e3o e a verdade conferenciaram para aquela produ\u00e7\u00e3o. Assim espero que Patr\u00edcia Secco aja ao se propor a mexer e remexer na linguagem machadiana, sem mexer na ess\u00eancia de sua obra.<\/p>\n<p>Uma vers\u00e3o \u201ctraduzida\u201d de \u201cO Alienista\u201d ser\u00e1 lan\u00e7ada em junho. As frases vir\u00e3o em uma ordem mais direta. Segundo D\u00e9bora, \u201ca ideia n\u00e3o \u00e9 mudar o que ele disse, s\u00f3 tornar mais f\u00e1cil\u201d. 600 mil exemplares de \u201cO Alienista\u201d ser\u00e3o distribu\u00eddos gratuitamente pelo Instituto Brasil Leitor.<\/p>\n<p>Louvo sempre qualquer iniciativa para fazer o livro chegar \u00e0s m\u00e3os do leitor. No entanto, escrevo este texto, como todos os que se dignaram a criticar a iniciativa, no escuro. Sempre, nesses casos, prefiro esperar para ver. Se essa for uma maneira de ressuscitar as \u201cMem\u00f3rias P\u00f3stumas\u201d do nosso maior autor, aplausos. O pr\u00f3prio Machado tomaria atitude semelhante, esperaria, pois alguns dos seus detratores disseram e ainda dizem o que ele nunca disse; que ele sofria influ\u00eancia de autores que ele sequer lera. Espero para ver a rea\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica quando autores cl\u00e1ssicos forem submetido ao \u201cinternet\u00eas\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Prof.: LUIZ CL\u00c1UDIO JUBILATO &#8211; 11\/5\/24) Estive pensando. E olha que pensar \u00e9 um luxo nesses tempos tecnocratas e burocr\u00e1ticos. O motivo dos meus pensamentos \u00e9 o poss\u00edvel assassinato de Machado de Assis. Mas, ele j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 morto? Perguntariam os menos afeitos ao estudo liter\u00e1rio. Mas ele n\u00e3o est\u00e1 morto desde 1908? 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