{"id":3389,"date":"2014-05-10T16:56:07","date_gmt":"2014-05-10T19:56:07","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/?p=3389"},"modified":"2014-05-11T11:24:40","modified_gmt":"2014-05-11T14:24:40","slug":"biscoito-da-terra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/2014\/05\/10\/biscoito-da-terra\/","title":{"rendered":"BISCOITO DE TERRA"},"content":{"rendered":"<p>(PROF.: LUIZ CL\u00c1UDIO JUBILATO \u2013 10\/5\/14)<\/p>\n<p>A rep\u00f3rter cumpriu a pauta direitinho. Competente, dissertou sobre o belo trabalho dos soldados brasileiros na reconstru\u00e7\u00e3o de uma terra arrasada. Terra de sofrimento, desespero, mas cheia de dignidade. Destacou a mis\u00e9ria absurda, a fome absurda, as crian\u00e7as desnutridas, os adultos desnutridos, o pa\u00eds desnutrido. Narrou a saga do trabalho incans\u00e1vel das freiras e dos volunt\u00e1rios. Das l\u00e1grimas, que desciam de rostos encovados, era poss\u00edvel distinguir as lavas do inferno interior. Entrevistou m\u00e3es inconformadas; crian\u00e7as desdentadas.<\/p>\n<p>Teve coragem at\u00e9 de se meter em ruelas onde impera a viol\u00eancia de grupos armados. Armas vindas de onde? Dadas? Vendidas? Por qu\u00ea? Por quem? Arriscou-se no mercado de produtos contrabandeados. Conversou com pessoas, viu, constatou, pesquisou. Perguntou, perguntou, perguntou\u2026<\/p>\n<p>Mais do que de um terremoto devastador, o Haiti foi devastado por sucessivas ditaduras sanguin\u00e1rias, ladras que carregavam suas pan\u00e7as cheias empasinadas dos subornos das grandes pot\u00eancias que usavam o pa\u00eds como entreposto para espalhar produtos roubados e\/ou capturar bra\u00e7os, mesmo surrados, para a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse momento, onde est\u00e3o as grandes pot\u00eancias piratas? Est\u00e3o escondidas debaixo da sua carapa\u00e7a da dignidade? Simplesmente mandaram esmolas e pa\u00edses subdesenvolvidos para cuidar de uma na\u00e7\u00e3o estropiada, quando mal cuidam de si? O Haiti n\u00e3o serve para nada. De fato, nunca serviu. Sempre foi uma ferida purulenta \u00e0s portas das grandes na\u00e7\u00f5es para onde um povo faminto poderia fugir.<\/p>\n<p>O C\u00e2mera foi de uma compet\u00eancia \u00edmpar. Closes em crian\u00e7as nuas, criancinhas abaixo do peso, pessoas de todas as idades e sexos, a ponto de enlouquecer. Cresce, em n\u00f3s, uma raiva canina da ONU,UNESCO, NAFTA, OEA\u2026 bandos de siglas criadas para nos fazer calar. N\u00e3o sei nem porque falo de tudo isso. As imagens, os relatos, descri\u00e7\u00f5es e narra\u00e7\u00f5es falam melhor do que eu.<\/p>\n<p>Na verdade, escrevi para falar n\u00e3o sobre onde o Haiti est\u00e1, mas sim sobre onde ele n\u00e3o est\u00e1. Nele as pessoas comem biscoito de terra para subornar a fome. L\u00f3gico, n\u00e3o h\u00e1 nutrientes, apenas barro assado infestado de todo tipo de bact\u00e9rias e coliformes fecais. Podem, evidentemente, provocar a morte. Mortos, em p\u00e9, todos est\u00e3o. A rep\u00f3rter n\u00e3o se dignou a participar do banquete, contudo logo pespegou a pergunta \u00f3bvia a um moleque sorridente: \u201cQue gosto tem?\u201d, ao que ele respondeu de imediato: \u201d Tem gosto de manteiga\u201d. Provavelmente, n\u00e3o tem. \u00c9 poss\u00edvel constatar, como \u00e9 poss\u00edvel prever que aquela crian\u00e7a nunca tenha visto manteiga na vida. Nasceu na trag\u00e9dia, morrer\u00e1 antes de ela acabar.<\/p>\n<p>Como a imagina\u00e7\u00e3o misturada com imagina\u00e7\u00e3o e manteiga faz uma crian\u00e7a saltar, navegar, correr e voar&#8230; Quem sabe, um dia, sentir\u00e1 gosto de frango e, no outro, at\u00e9 de caviar? Diante da lente suja de morte e mis\u00e9ria, sorriu desdentado para um Brasil desdentado que ele provavelmente n\u00e3o sabe onde fica, nem saber\u00e1. Na terra devastada, tudo \u00e9 prov\u00e1vel. Tudo \u00e9 poss\u00edvel. At\u00e9 falar franc\u00eas.<\/p>\n<p>A rep\u00f3rter visivelmente incomodada penetra no mercado da cidade. O cinegrafista fecha a imagem em um jovem que se debru\u00e7a sobre um monte de tecidos r\u00fasticos com paisagens pintadas por ele. Em todas elas, destaca-se o amarelo. O sol. Est\u00e3o cheias de homens remando canoas, h\u00e1 coqueiros em praias paradis\u00edacas defronte um mar azul. Ela pergunta: \u201c\u00c9 assim que voc\u00ea v\u00ea o Haiti?\u201d Ele, calmante, num portugu\u00eas afrancesado, responde: \u201cN\u00e3o. Esse \u00e9 o Brasil\u201d. \u201cEsse aqui, amarelo de sol, \u00e9 que \u00e9 o Haiti\u201d. \u201cMas, os quadros s\u00e3o muito parecidos. Cheios de cores vivas!\u201d, por qu\u00ea? Insiste a rep\u00f3rter? Ele lhe diz: \u201cAqui, as pessoas mijam, fazem coc\u00f4 nas ruas, jogam papel sujo. \u00c9 feio\u201d. \u201cEsse aqui, sim, com coqueiros, mar azul, sol \u00e9 o meu Haiti\u201d. Um Haiti que ele v\u00ea, mas nunca viu. Provavelmente, nunca ver\u00e1.<\/p>\n<p>A reportagem que eu fiz n\u00e3o foi exatamente assim, diria a rep\u00f3rter, talvez indignada: &#8220;Voc\u00ea pulou partes importantes\u201d. Talvez ela tenha raz\u00e3o. Mas, ela viu do que \u00e9. Viu onde o Haiti est\u00e1. Eu, o pintor an\u00f4nimo, o garoto desdentado vimos o Haiti que n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1. Cada cego v\u00ea com os olhos que tem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(PROF.: LUIZ CL\u00c1UDIO JUBILATO \u2013 10\/5\/14) A rep\u00f3rter cumpriu a pauta direitinho. Competente, dissertou sobre o belo trabalho dos soldados brasileiros na reconstru\u00e7\u00e3o de uma terra arrasada. Terra de sofrimento, desespero, mas cheia de dignidade. 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