{"id":3350,"date":"2014-05-07T09:01:46","date_gmt":"2014-05-07T12:01:46","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/?p=3350"},"modified":"2014-05-12T21:40:28","modified_gmt":"2014-05-13T00:40:28","slug":"a-saga-do-comigo-ninguem-pode","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/2014\/05\/07\/a-saga-do-comigo-ninguem-pode\/","title":{"rendered":"A SAGA DO COMIGO NINGU\u00c9M PODE I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left\">(O BOCA DO INFERNO &#8211; \u00a06\/5\/14)<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Parte 1: O SAPO BARBUDO &#8211; O MUNDO N\u00c3O \u00c9 COLORIDO<\/p>\n<p>Sa\u00ed de um buraco seco. Seco, cheio de poeira, daquele buraco, quem pode, sai. Nunca vi um caderno at\u00e9 um mala de um chefe de setor vir me encher o saco. Anotou que eu mais falava que fazia. Acho que \u00e9 por isso que nunca quis nem ver um caderno. Quem mandou estudar? Conhe\u00e7o muito chef\u00e3o desses que morreu sem saber o que tinha.<\/p>\n<p>Nunca sentei num banco de escola. O que eu sei, o torno me ensinou. O que eu n\u00e3o sabia, o torno cortou. Nunca aprendi a falar o portugu\u00eas direito, mas ningu\u00e9m numa f\u00e1brica fala portugu\u00eas direito. Oper\u00e1rio \u00e9 pov\u00e3o. E o pov\u00e3o n\u00e3o mexe com isso n\u00e3o. Bebe pinga, n\u00e3o tem essa de u\u00edsque, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Nunca frequentei uma faculdade, nem precisei. O pov\u00e3o sempre entendeu o que eu falo. E olha que eu falo, hein! Ainda quando h\u00e1 muitos companheiros para eu convencer. Nunca, na hist\u00f3ria desse pa\u00eds, um pobre fala para as massas insurrectas como eu. Greve \u00e9 comigo mesmo. Patr\u00e3o treme quando subo num palanque. As porradas que tomei da pol\u00edcia foram melhores que qualquer li\u00e7\u00e3o dentro de um livro. Aprendi que, quem tem companheiros, tem tudo: apanham junto e est\u00e3o sempre dispostos a correr, comer fuma\u00e7a e apanhar.<\/p>\n<p>Daqueles &#8220;malas&#8221; que leram aqueles livros cheios de palavras complicadas, virei \u00eddolo. Falaram tanta coisa de mim que nem eu nem me reconhecia. Era eu mesmo? Eu, agora lenda, virei li\u00e7\u00e3o. Os que escreveram aquelas teorias complicadas, metidos a entender o povo quer, nunca puseram a m\u00e3o na merda, nem o p\u00e9 no ch\u00e3o. Agora, seguem o que eu falo, como ovelhas indo para o abate sem saber. Falaram at\u00e9 que sou uma coisa estranha: um tal &#8220;marxista leninista&#8221;. Gritei logo: Que coisa de veado \u00e9 essa? Isso n\u00e3o sou, n\u00e3o. Sou nordestino, e macho. Nunca, na hist\u00f3ria desse pa\u00eds, se viu um l\u00edder t\u00e3o macho quanto eu.<\/p>\n<p>Disseram que eu era o profeta da revolu\u00e7\u00e3o. Defenderia uma tal de \u00e9tica. Pensei que era uma gostosa. Me enganei. Esses intelectuais, que estudaram tanto para nada, queriam fundar um partido pol\u00edtico para ganhar uma elei\u00e7\u00e3o. O estranho \u00e9 que eles eram da tal da elite, mas queriam expulsar a tal elite do poder. N\u00e3o entendi nada, mas topei. Peguei uma bandeira e dei a cara para bater. Falavam que tudo era em nome dessa tal de \u00e9tica. S\u00f3 se esqueceram de me explicar o que diabo era esse tro\u00e7o.<\/p>\n<p>Mesmo n\u00e3o trabalhando mais, fundei com essa corja maluca o PT (Partido dos Trabalhadores). Fui entender o que era esse tal de partido, quando vi v\u00e1rios grupos partirem para a porrada ou xingarem uns aos outros dentro de assembl\u00e9ias. Dar o nome de Partdo dos Trabalhadores foi uma &#8220;roubada&#8221;. Trabalhador n\u00e3o vota em trabalhador. Esse povo metido a besta, que tamb\u00e9m n\u00e3o trabalhava, veio atr\u00e1s de mim, dos meus &#8220;companheiros&#8221;. Em nome dessa tal de \u00e9tica, fizemos coisas do &#8220;arco da velha&#8221;. Fizemos planos para derrubar a burguesia, derrubar o governo, derrubar macaco das \u00e1rvores, derrubar tudo o que desse.<\/p>\n<p>Quer\u00edamos virar tudo de pernas para o ar em nome da tal da revolu\u00e7\u00e3o. Primeiro, bagun\u00e7amos o governo daquele sujeito metido a intelectual, cujo nome virou sigla. Parecia sigla de inseticida, o tal FHC. Emperramos a tal de m\u00e1quina administrativa. O que ele fizesse, &#8220;vir\u00e1vamos no arranque&#8221;. N\u00e3o deix\u00e1vamos passar. Era a &#8220;zona do agri\u00e3o&#8221;, que nem breque de v\u00e1rzea. Foi a\u00ed que me explicaram o que era a tal da \u00e9tica. Para o partido do inseticida, funcionava de um jeito; para n\u00f3s, de outro; para o outro partido, de outro. Essa tal de \u00e9tica parecia uma puta, dava pra quem pagasse. Mas, dava voto: o povo nem sabia tamb\u00e9m o que era, como cabe\u00e7a de bacalhau, mas queria. Nunca, na hist\u00f3ria desse pa\u00eds, se viu um partido que mais defendesse a \u00e9tica do que o nosso. O povo acreditou na gente; a elite da elite, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Os companheiros da elite do partido queriam, porque queriam que eu mandasse no pa\u00eds. Queriam chegar ao poder. Coitados, achavam que mandariam em mim. Trouxas. Comigo ningu\u00e9m pode. E eles, que estudaram tanto, n\u00e3o sabiam diferenciar a raposa do lobo. Quem mandou estudar? Estudar, pra qu\u00ea? Eles se juntaram, eu falei, gritei, berrei e o pov\u00e3o me entendeu, a eles, n\u00e3o. Nunca vi, na hist\u00f3ria desse pa\u00eds, um homem berrar como eu. Me apelidaram de sapo barbudo, de nada adiantou. Perdi, perdi, perdi&#8230; at\u00e9 que ganhei. Se voc\u00ea n\u00e3o pode brigar contra a elite burguesa que manda, porque \u00e9 baixinho, nordestino, bebedor de pinga, com cara de duende, ent\u00e3o junte-se a ela. Entrou, na minha vida, porque o partido queria o primeiro Z\u00c9 burgu\u00eas. Estava garantida a vit\u00f3ria. A elei\u00e7\u00e3o estava no papo. Governar? Bom isso \u00e9 outra coisa. Tem, mas n\u00e3o tem explica\u00e7\u00e3o.<br \/>\n(CONTINUA)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(O BOCA DO INFERNO &#8211; \u00a06\/5\/14) Parte 1: O SAPO BARBUDO &#8211; O MUNDO N\u00c3O \u00c9 COLORIDO Sa\u00ed de um buraco seco. Seco, cheio de poeira, daquele buraco, quem pode, sai. Nunca vi um caderno at\u00e9 um mala de um chefe de setor vir me encher o saco. Anotou que eu mais falava que fazia. 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