{"id":164,"date":"2015-06-18T17:19:30","date_gmt":"2015-06-18T20:19:30","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/artigos\/?p=164"},"modified":"2015-06-18T17:19:30","modified_gmt":"2015-06-18T20:19:30","slug":"do-boa-noite-ao-suave-na-nave-a-mudanca-na-fala-dos-telejornais","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/2015\/06\/18\/do-boa-noite-ao-suave-na-nave-a-mudanca-na-fala-dos-telejornais\/","title":{"rendered":"Do \u201cboa noite\u201d ao \u201csuave na nave\u201d: a mudan\u00e7a na fala dos telejornais"},"content":{"rendered":"<p>\n\t<em><strong>Guilherme Nali &#8211; jornalista de TV e historiador<a href=\"mailto:guilhermenali@gmail.com\"> &#8211; guilhermenali@gmail.com<\/a><\/strong><\/em>\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\t&ldquo;Depois do upload daquele v&iacute;deo no Facebook, muita gente deu um share e o post acabou se transformando num viral. Voc&ecirc; viu a menininha dan&ccedil;ando igual a Aretha Franklin? Hoje &eacute; um meme no mundo inteiro e j&aacute; corre no insta, WhatsApp e em muitos smartphones afora.&rdquo;\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\tDefinitivamente a l&iacute;ngua portuguesa falada no Brasil mudou. E quem disser que os termos acima n&atilde;o fazem parte do nosso vocabul&aacute;rio, ou servem para descaracteriz&aacute;-lo, est&aacute; completamente por fora.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\tA frase inicial est&aacute; abarrotada de estrangeirismos. Alguns, inclusive, j&aacute; est&atilde;o nos nossos dicion&aacute;rios, com grafia pr&oacute;pria &#8211; a palavra pick-up (ve&iacute;culo utilit&aacute;rio) pode ser escrita picape, por exemplo. E o que promove a absor&ccedil;&atilde;o desses termos &eacute; exatamente a populariza&ccedil;&atilde;o de seus significados. J&aacute; que o Brasil &eacute; essa salada de etnias e culturas, n&atilde;o h&aacute; nada mais brasileiro do que usar palavras estrangeiras. Talvez a palavra identidade seja o ingrediente que explique o que d&aacute; o tempero a essa cumbuca.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\tA l&iacute;ngua de um povo &eacute; o que define sua cultura, e por sua vez sua identidade. &Eacute; a palavra em conjunto de signos e significados que comp&otilde;e a forma com que uma comunidade se expressa, se relaciona e compreende o mundo a sua volta. Se a l&iacute;ngua est&aacute; em transforma&ccedil;&atilde;o isso significa que a identidade de seu grupo tamb&eacute;m est&aacute;. Neste movimento de mudan&ccedil;a o olhar diante dos fatos tamb&eacute;m ganha uma lente de aumento. O que antes passava despercebido ou ficava apenas na esfera privada, dentro das rela&ccedil;&otilde;es pessoais e familiares, ganha outras propor&ccedil;&otilde;es.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\tO que motivou a primeira frase foi um fato cotidiano, de uma pequena crian&ccedil;a americana, dando show de dan&ccedil;a em uma apresenta&ccedil;&atilde;o do bal&eacute; da escola, imitando a grandiosa Aretha Franklin, rainha do jazz, soul e R&amp;B. At&eacute; a&iacute; nada que n&atilde;o aconte&ccedil;a desde sempre, em escolinhas pelo mundo afora, nos eventos promovidos para os pais acharem tudo bonitinho. Mas o v&iacute;deo gravado pelo celular, ou melhor, um smartphone, e depois colocado no YouTube pela m&atilde;e da menina tomou propor&ccedil;&otilde;es inimagin&aacute;veis pelo mundo. Da internet para programas de televis&atilde;o, de entretenimento, e dos telejornais.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\tIsso porque muita gente teve uma sensa&ccedil;&atilde;o familiar ao ver os passos, caras e bocas daquela crian&ccedil;a sendo apenas crian&ccedil;a. A identidade est&aacute; no cotidiano e se fortalece quando os indiv&iacute;duos se reconhecem. Os meios de comunica&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m esse papel.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\tA internet, como respons&aacute;vel pela converg&ecirc;ncia das m&iacute;dias, pelas redes sociais promove um fator que eleva o conceito de comunica&ccedil;&atilde;o de massa a en&eacute;sima pot&ecirc;ncia. Ela faz com que telejornais tradicionais, como o Jornal Nacional da Rede Globo, divulguem o que antes era inimagin&aacute;vel se ouvir da boca de Willian Bonner. A web, cada vez mais feita pelos pr&oacute;prios usu&aacute;rios, hoje produtores de conte&uacute;do e informa&ccedil;&atilde;o, ampliou o conceito do que &eacute; not&iacute;cia.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\t&Oacute;bvio que esses &ldquo;jornal&otilde;es&rdquo; est&atilde;o pautados em pesquisas sobre audi&ecirc;ncia, migra&ccedil;&atilde;o de telespectadores para canais fechados e a internet, faixa et&aacute;ria consumidora dos produtos vendidos nos comerciais, etc. E nessa briga por aten&ccedil;&atilde;o h&aacute; uma necessidade urgente de se adaptar a forma de trazer not&iacute;cias ao p&uacute;blico. Este, por sua vez, est&aacute; cansado de padr&otilde;es antigos, textos complicados, do que leve mais de tr&ecirc;s minutos para registrar a mensagem. O dinamismo est&aacute; de acordo com a velocidade que a informa&ccedil;&atilde;o &eacute; produzida, com a correria do mundo conectado. E o que vemos na tela s&atilde;o tentativas.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\t&Eacute; ineg&aacute;vel que a mudan&ccedil;a na fala do dia a dia &eacute; s&oacute; uma consequ&ecirc;ncia do desenvolvimento tecnol&oacute;gico. Mas a comunica&ccedil;&atilde;o tradicional, diante da complexidade dos grupos distintos em conviv&ecirc;ncia social, n&atilde;o acompanha tal velocidade. Como a teoria do economista brit&acirc;nico e pastor anglicano Thomas Malthus, do come&ccedil;o do s&eacute;culo XIX, que explicava que a produ&ccedil;&atilde;o de alimentos n&atilde;o acompanhava a alta da natalidade na idade m&eacute;dia. A primeira se fazia em PA &ndash; progress&atilde;o aritm&eacute;tica, ou soma &ndash; e a segunda em PG &ndash; progress&atilde;o geom&eacute;trica, ou multiplica&ccedil;&atilde;o. Logo haveria muito mais gente do que comida. S&oacute; que ele n&atilde;o contava com a ind&uacute;stria para enlatar tudo, colocar um pouco de s&oacute;dio e conservantes, e abastecer o universo. Assim &eacute; a nossa l&iacute;ngua com a tecnologia. E logo a industria cultural vai achar seu jeito de suprir a demanda.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\tNessa adapta&ccedil;&atilde;o ou transforma&ccedil;&atilde;o da linguagem para a TV conquistar o p&uacute;blico da internet vemos os programas de entretenimento no &ldquo;tudo pela audi&ecirc;ncia&rdquo; (j&aacute; tem at&eacute; alguns com esse nome). Esses est&atilde;o mais adiantados do que os telejornais. Exemplos interessantes de tentativas s&atilde;o: o Bom dia S&atilde;o Paulo (Globo), com o Rodrigo Bocardi em um paulistan&ecirc;s ir&ocirc;nico, cheio de g&iacute;rias e jarg&otilde;es; o Balan&ccedil;o Geral (Record), com seus v&aacute;rios apresentadores pelo interior, esbravejando o que muita gente gostaria de dizer; a Rachel Sheherazade (SBT), do SBT Brasil, com caretas e opini&otilde;es pol&ecirc;micas; as express&otilde;es do Chico Pinheiro (Globo), no Bom dia Brasil, como &ldquo;vida que segue&rdquo; ou &ldquo;hoje &eacute; sexta-feira gra&ccedil;as &eacute; Deus&rdquo;. Uma evolu&ccedil;&atilde;o e tanto a comparar com o come&ccedil;o dos anos dois mil &ndash; nem precisamos voltar nas primeiras transmiss&otilde;es, porque seria injusta a compara&ccedil;&atilde;o.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\tOutra tentativa de conversar com todos os p&uacute;blicos &eacute; o post di&aacute;rio de chamadas no Facebook dos telejornais. Um dos ass&iacute;duos &eacute; o C&eacute;sar Tralli (Globo), do SPTV. Essa promo&ccedil;&atilde;o na rede social, a aproxima&ccedil;&atilde;o dos navegantes da net, tem sido incorporada pelas afiliadas. Mas ser&aacute; que isso significa mesmo estar pr&oacute;ximo de uma linguagem popular, de como as pessoas se comunicam no mundo virtual ou at&eacute; mesmo pessoalmente?\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\tO jarg&atilde;o &ldquo;desengessar&rdquo;, dito muito atualmente nas reda&ccedil;&otilde;es, significa &ldquo;seja mais natural&rdquo;. Ora, o termo de forma ou outra assume que o padr&atilde;o utilizado &eacute; pr&oacute;prio do ve&iacute;culo, e que apesar de falado, est&aacute; longe do coloquial. Ou seja, &eacute; engessado. Fica a pergunta: ser&aacute; que &eacute; poss&iacute;vel chegar a essa informalidade da l&iacute;ngua falada, com caracter&iacute;sticas da internet, em programas de exibi&ccedil;&atilde;o nacional, sem que haja qualquer estranhamento dos telespectadores na quest&atilde;o credibilidade? &Eacute; preciso lembrar que esta tal credibilidade &eacute; algo constru&iacute;do ao longo de anos a fio muito em fun&ccedil;&atilde;o deste tal padr&atilde;o engessado.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\tAlgumas considera&ccedil;&otilde;es da professora Dra. Val&eacute;ria Paz, linguista e consultora da Globo, podem ajudar a responder esse dilema. Segundo ela, o texto do telejornal est&aacute; entre a norma culta da l&iacute;ngua, formal, com a coloquial, a informal. O texto do telejornal, de acordo com a especialista, &eacute; um h&iacute;brido, une os g&ecirc;neros, e assume uma media&ccedil;&atilde;o quando primeiro &eacute; escrito e depois falado.&nbsp; Por isso mesmo, sempre ser&aacute; uma simula&ccedil;&atilde;o do natural.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\tBravo, professora Val&eacute;ria! S&oacute; isso basta para que as tens&otilde;es ao produzir um texto falado na TV diminuam e a t&atilde;o buscada naturalidade diminuam. Ao mesmo tempo nos desobriga a achar f&oacute;rmula para isso, j&aacute; que n&atilde;o h&aacute; f&oacute;rmula para a l&iacute;ngua falada. E assim nossa quest&atilde;o de debate muda. Deixa de ser o &ldquo;estamos no caminho certo ou errado?&rdquo; e passa a ser &ldquo;estamos experimentando as m&uacute;ltiplas possibilidades da l&iacute;ngua&rdquo;. Ponto.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\tDemore o tempo que for, fato &eacute; que as mudan&ccedil;as na fala da TV, sejam elas em telejornais, programas de entretenimento ou qualquer outro g&ecirc;nero, talvez n&atilde;o acabem t&atilde;o cedo. O que fica, ent&atilde;o, &eacute; o velho bom-senso. Como diria Arist&oacute;teles, o bom-senso &eacute; nossa capacidade intuitiva de encontrar um meio termo para nossas a&ccedil;&otilde;es. Sabe aquele limite entre o chique e o brega? De resto t&aacute; valendo, t&aacute; suave na nave, como diria o Chico Pinheiro.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\t&nbsp;\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\t<em><strong>Sugest&atilde;o de leitura e reportagem:<\/strong><\/em>\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\t<a href=\"http:\/\/revistalingua.com.br\/textos\/115\/uma-linguista-na-tv-346159-1.asp\">http:\/\/revistalingua.com.br\/textos\/115\/uma-linguista-na-tv-346159-1.asp<\/a>\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n\t<a href=\"http:\/\/globotv.globo.com\/rede-globo\/bom-dia-brasil\/v\/video-de-menina-de-6-anos-interpretando-aretha-franklin-vira-febre-na-web\/4244897\/\">http:\/\/globotv.globo.com\/rede-globo\/bom-dia-brasil\/v\/video-de-menina-de-6-anos-interpretando-aretha-franklin-vira-febre-na-web\/4244897\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guilherme Nali &#8211; jornalista de TV e historiador &#8211; guilhermenali@gmail.com &ldquo;Depois do upload daquele v&iacute;deo no Facebook, muita gente deu um share e o post acabou se transformando num viral. 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