{"id":161,"date":"2015-06-15T23:59:11","date_gmt":"2015-06-16T02:59:11","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/artigos\/?p=161"},"modified":"2015-06-15T23:59:11","modified_gmt":"2015-06-16T02:59:11","slug":"essa-droga-de-lingua-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/2015\/06\/15\/essa-droga-de-lingua-portuguesa\/","title":{"rendered":"ESSA DROGA DE L\u00cdNGUA PORTUGUESA!"},"content":{"rendered":"<p>\n\t<span style=\"line-height: 1.6em\">Thiago Carbonel<\/span>\n<\/p>\n<p>\n\tInstru&ccedil;&otilde;es: recomenda-se que voc&ecirc; leia este texto pr&oacute;ximo a um espelho, por ser&aacute; requisitado que contemple seu reflexo em algum momento da leitura.\n<\/p>\n<p>\n\tVoc&ecirc; j&aacute; parou para pensar em quem &eacute; voc&ecirc;? Ou melhor: o que &eacute; voc&ecirc;? Eu estou c&aacute; ponderando com meus bot&otilde;es que, muito provavelmente, pode at&eacute; ter parado, mas n&atilde;o pensou direito. Pois bem, estou aqui, nas tramas deste texto, para ajud&aacute;-lo, ajuda-la, ajud&aacute;-l@.<\/p>\n<p>\t<span style=\"line-height: 1.6em\">Comecemos com uma premissa b&aacute;sica, bem b&aacute;sica: a resposta que eu espero e que voc&ecirc; deveria esperar n&atilde;o &eacute; seu nome, seu endere&ccedil;o, o time para o qual torce, a escola de samba de seu cora&ccedil;&atilde;o. Tudo isso &eacute; uma parte pequenininha do todo magn&iacute;fico de seu verdadeiro &ldquo;eu&rdquo;, aquele que espero encontrar com minhas artimanhas ret&oacute;ricas. Um &ldquo;eu profundo&rdquo;, formado por uma esp&eacute;cie de DNA que n&atilde;o tem muito a ver (e n&atilde;o &ldquo;haver&rdquo;, ok?) com gen&eacute;tica ou biologia; uma longa fita simb&oacute;lica que cont&eacute;m absolutamente todas as part&iacute;culas de uma mem&oacute;ria que voc&ecirc; talvez n&atilde;o saiba que tem, mas lhe garanto que est&atilde;o a&iacute;, nas gavetas emperradas de uma parte de sua consci&ecirc;ncia e na quase totalidade de seu inconsciente. Pe&ccedil;o-lhe, neste momento calma, pois n&atilde;o estou pirando no papo psicanal&iacute;tico; estou sendo um pouco metaf&oacute;rico, outro tanto metaf&iacute;sico.<\/span>\n<\/p>\n<p>\n\tCreio que esteja em uma cadeira ou poltrona confort&aacute;vel, ou algo an&aacute;logo, ok? Relaxe, respire fundo e prepare-se para o que tenho a lhe dizer: h&aacute; algo a&iacute; nesse seu eu que voc&ecirc; nunca viu, uma esp&eacute;cie de rosto desconhecido que preciso lhe apresentar. N&atilde;o se assuste, n&atilde;o vai doer nem &eacute; algo que possa lhe machucar. Ao contr&aacute;rio, &eacute; um sujeito bem bacana, que est&aacute; a&iacute; desde que voc&ecirc; era bem crian&ccedil;a e come&ccedil;ou a balbuciar suas primeiras palavras. Na verdade, foi por causa delas que ele se assenhorou de um lotezinho de seu eu. Feita a advert&ecirc;ncia, pegue o espelho ou d&ecirc; um jeito de ver sua imagem neste exato instante.<\/p>\n<p>\t<span style=\"line-height: 1.6em\">O que voc&ecirc; v&ecirc;? Uma cara de bolacha? Rugas? Talvez algumas olheiras? Um rosto que podia ser melhorzinho? Hum, fa&ccedil;amos o seguinte: continue lendo como se estivesse com os olhos fechados, deixe minhas palavras o guiarem, confie em mim.<\/span>\n<\/p>\n<p>\n\tOlhos fixos no texto, imagine uma plan&iacute;cie meio &aacute;rida, com pouca vegeta&ccedil;&atilde;o, apenas algumas &aacute;rvores baixinhas, de tronco retorcido. Um vento seco, levemente frio bate em seu rosto. &Eacute; quase dia e, sobrepondo-se aos sons da manh&atilde; que se anuncia, voc&ecirc; ouve o som de cavalos trotando e muitos homens falando alto uns com os outros. Achegando-se sorrateiramente por detr&aacute;s de moitas densas, voc&ecirc; reconhece que esses caras s&atilde;o cavaleiros de armadura, ostentando estandartes com cruzes vermelhas. Eles est&atilde;o se movimentando com nervosismo, alinhando-se na margem de um rio e em busca, ao que tudo indica, de um lugar onde possam atravessar. Voc&ecirc; repara, ent&atilde;o, que, do outro lado, h&aacute; uma cidade em volta de um morro, no topo do qual h&aacute; um castelo r&uacute;stico. Que sons s&atilde;o esses? O que esses homens est&atilde;o falando? Quem &eacute; esse sujeito montado no cavalo mais robusto e cujo semblante voc&ecirc; acha que j&aacute; viu?\n<\/p>\n<p>\n\tDe s&uacute;bito, um torpor toma conta de seu corpo e o ch&atilde;o desaparece. Voc&ecirc;, agora, contempla uma luta e ouve o nome Afonso Henriques ser bradado em j&uacute;bilo e gl&oacute;ria; do alto, voc&ecirc; v&ecirc; Lisboa ser tomada pelos cavaleiros crist&atilde;os e j&aacute; identifica uma ou outra palavra. A imagem dura pouco, por&eacute;m; como uma cortina de fuma&ccedil;a almiscarada, sua consci&ecirc;ncia flutua entre os membros da nobreza portuguesa e seus ouvidos se encantam com o som cadenciado do banjo e do ala&uacute;de, tocados pelo que lhe parecem cavaleiros em um momento de &ldquo;relax&rdquo;. O que eles declamam junto com a m&uacute;sica lhe parece familiar, tem um qu&ecirc; de l&iacute;ngua portuguesa, num ritmo que voc&ecirc; jura j&aacute; ter escutado.\n<\/p>\n<p>\n\tEis que, do nada, irrompe um figura c&ocirc;mica paramentada como um ator de com&eacute;dia, declamando versos que mais parecem falas e todos no recinto riem. Voc&ecirc; n&atilde;o entende bem, mas se envolve no riso, se solta na trama que parece envolver um anjo, um diabo e figuras engra&ccedil;adas, quase todas pecadoras. Seu riso se expande e com ele sua consci&ecirc;ncia, e, ent&atilde;o, o voc&ecirc; acorda numa tapera no meio da mata e contempla um homem que escreve compulsivamente, esfor&ccedil;ando-se para se concentrar com o &uacute;nico olho que tem. Ao seu lado, uma bela e ex&oacute;tica indiana ignora sua presen&ccedil;a no ambiente. Fuma&ccedil;a e cheiro de maresia envolvem seu eu j&aacute; meio surtado e eis que est&aacute; em alto mar, ouvindo os gritos de j&uacute;bilo de marinheiros. Sua intui&ccedil;&atilde;o &eacute; que eles acabaram de fazer algo extraordin&aacute;rio, mas voc&ecirc; olha para o c&eacute;u e v&ecirc; o dia se transformar em noite com o levantar de um gigante, uma criatura que &eacute; o pr&oacute;prio rochedo da costa, perto do navios.\n<\/p>\n<p>\n\tApavorado, voc&ecirc; some de novo e se v&ecirc; entre pessoas caminhando por Lisboa. Em princ&iacute;pio n&atilde;o tem certeza de onde est&aacute;, mas v&ecirc; o castelo no alto do monte e se lembra do in&iacute;cio da viagem. Percorre as ruas irregulares e se embriaga com os cheiros de oriente e de sardinha salgada. No rosto das pessoas h&aacute; seriedade e algo que lhe sugere medo. H&aacute; um clima de tens&atilde;o. Voc&ecirc; observa que h&aacute; um fluxo de gente a adentrar as v&aacute;rias igrejas, e voc&ecirc; entra tamb&eacute;m. &ldquo;S&atilde;o Vicente&rdquo;, voc&ecirc; ouve um menino com um sino chamando as pessoas, e descobre que &eacute; Dia de Todos os Santos. Confuso, entra. Acotovela-se entre os fi&eacute;is e aspira o cheiro da gente suada, mal vestida, entretanto t&atilde;o imbu&iacute;da numa f&eacute; que lhe escapa a compreens&atilde;o. Quando voc&ecirc; est&aacute; quase entrando no clima, um solavanco violento lhe joga no ch&atilde;o. N&atilde;o demora a se lhe revelar a causa: um terremoto. Seu instinto &eacute; correr e assim o faz, observando as paredes, por todos os lados ru&iacute;rem.\n<\/p>\n<p>\n\tQuando voc&ecirc; acha que &eacute; seu fim, levanta-se em uma cidadezinha pitoresca, bem longe do horror do cataclisma que presenciara antes. Est&aacute; numa carruagem improvisada, puxada por burros parrudos que bufam para levar a carga por caminhos improvisados entre olivais e pinhais. Ao seu lado, um sujeito elegante ouve uma hist&oacute;ria de amor entre dois primos, ocorrida durante uma guerra. Voc&ecirc; ouve fiapos da conversa, e quando est&aacute; quase compreendendo quem matou quem para ficar com quem, &ldquo;puff&rdquo;: a imagem se esvai em fuma&ccedil;a e l&aacute; vai voc&ecirc;, de novo, numa espiral descendente, aterrissar numa cidade de torre&otilde;es altos, medievais. Por todos os lados andam jovens com roupas estranhas. &ldquo;Ser&aacute; que estou em Hogwarts e vou topar com Harry Potter?&rdquo;. Voc&ecirc; pensa, mas j&aacute; n&atilde;o &eacute; inocente: logo percebe que est&aacute; em Coimbra e reconhece um sujeitinho esquisito, vivaz, que lhe pega pelo bra&ccedil;o como se o conhecesse h&aacute; muito tempo e o coloca numa carruagem (dessa vez bem fornida por cavalos de verdade) e d&aacute; ordem ao cocheiro para tocar rumo a Sintra.<\/p>\n<p>\t<span style=\"line-height: 1.6em\">Voc&ecirc; est&aacute; espantado. Ele pode ouvi-lo e v&ecirc;-lo? Ele diz que sim e se apresenta: &ldquo;Prazer, E&ccedil;a de Queir&oacute;s&rdquo;, diz cordialmente. &ldquo;Desculpe-me interpelar uma pessoa t&atilde;o subitamente como o fiz, mas devo aproveitar a oportunidade de dar c&aacute; com um brasileiro&rdquo;. Voc&ecirc; n&atilde;o entende nada, e pouco mais tira do distinto jovem de bigode e &ldquo;pince-nez&rdquo;. A viagem passa r&aacute;pido e logo voc&ecirc;s est&atilde;o entrando no Castelo da Pena, em Sintra, de onde podem contemplar o c&eacute;u como um infinito manto branco a cobrir o mundo.<\/span>\n<\/p>\n<p>\n\tE&ccedil;a o chama a um canto e pede mil desculpas, mas deve ir resolver um mist&eacute;rio sobre uma morte ocorrida na estrada, mas que n&atilde;o se preocupe, pois um amigo o aguarda no p&aacute;tio do castelo. Voc&ecirc;, at&ocirc;nito e j&aacute; achando que est&aacute; ficando louco, entra e, por um instante, deixa-se maravilhar pelo azul vivo dos azulejos, pelo ambiente envolto por mist&eacute;rios do oriente e do ocidente em um &uacute;nico lugar. Perdido, mal repara no sujeito magro, de rosto afilado, bigode e &oacute;culos. Seu terno &eacute; pu&iacute;do e seu chap&eacute;u &eacute; velho. Ele o contempla e voc&ecirc;, ao contempl&aacute;-lo de volta, fica confuso, pois parece ora ver um homem mais elegante e s&eacute;rio, ora um sujeito tristonho, melanc&oacute;lico, ora um rosto vivaz de um campon&ecirc;s humilde, por&eacute;m esperto. O sujeito o olha de volta, com express&atilde;o de profunda compreens&atilde;o, e lhe acalma, dizendo que s&atilde;o alguns de seus outros &ldquo;eus&rdquo; que, &agrave;s vezes, v&ecirc;m &agrave; tona.\n<\/p>\n<p>\n\tCom ele, voc&ecirc; caminha ao longo da amurada do castelo e ele lhe fala sobre mil assuntos, numa profus&atilde;o confusa de ideias. Do nada, por&eacute;m, ele o empurra por uma brecha e, na queda, voc&ecirc; desce por uma esp&eacute;cie de t&uacute;nel m&aacute;gico, em cujas paredes est&atilde;o milhares, milh&otilde;es de livros. Junto com voc&ecirc; caem outras pessoas, mas que n&atilde;o parecem se dar conta que est&atilde;o caindo. S&atilde;o homens e mulheres que se tomam nos bra&ccedil;os, &agrave;s vezes se estreitando num abra&ccedil;o, &agrave;s vezes numa briga. Voc&ecirc; demora a perceber que s&atilde;o as milhares de personagens das hist&oacute;rias guardadas naquelas p&aacute;ginas por onde voc&ecirc; cai at&eacute; abrir os olhos diante deste e estar aqui, de volta comigo.\n<\/p>\n<p>\n\tEsta viagem que voc&ecirc; fez na verdade foi uma longa jornada adentro de voc&ecirc; mesmo, pois todas essas hist&oacute;rias e seres est&atilde;o a&iacute;, fazem parte do que voc&ecirc; &eacute;, de sua identidade. Voc&ecirc; &eacute; sua l&iacute;ngua e a mem&oacute;ria que vem com ela, uma bagagem secular, milenar na verdade. Poder&iacute;amos ter pulado mais longe no tempo, pois a&iacute; dentro, neste peito que cresce entre o amor e o fogo, entre a vida e o fogo, est&atilde;o todos os passos que nossa t&atilde;o embotada l&iacute;ngua portuguesa deu at&eacute; chegar a voc&ecirc;, quando, l&aacute; atr&aacute;s, seus pais lhe ensinaram a falar &ldquo;mama&rdquo;, &ldquo;papa&rdquo;.\n<\/p>\n<p>\n\tAlucinante, n&atilde;o? Alucinado eu, talvez voc&ecirc; pense, mas pe&ccedil;o que seja menos severo comigo e consigo mesmo. N&oacute;s temos em n&oacute;s essa mem&oacute;ria que, como uma beberagem xam&acirc;mica, pode nos levar longe, muito longe; muito mais longe do que qualquer &ldquo;vibe&rdquo; ou alucina&ccedil;&atilde;o, induzida ou n&atilde;o. E est&aacute; tudo aqui, bem dentro dessa droga que a nossa l&iacute;ngua portuguesa.\n<\/p>\n<p>\n\t<strong>Thiago Carbonell &eacute; professor de Reda&ccedil;&atilde;o, Linguagens e Literaratura do Criar Reda&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Thiago Carbonel Instru&ccedil;&otilde;es: recomenda-se que voc&ecirc; leia este texto pr&oacute;ximo a um espelho, por ser&aacute; requisitado que contemple seu reflexo em algum momento da leitura. Voc&ecirc; j&aacute; parou para pensar em quem &eacute; voc&ecirc;? Ou melhor: o que &eacute; voc&ecirc;? 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