{"id":15,"date":"2013-09-09T17:47:24","date_gmt":"2013-09-09T20:47:24","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/artigos\/?p=15"},"modified":"2013-09-09T17:47:24","modified_gmt":"2013-09-09T20:47:24","slug":"eu-tenho-a-doenca-ela-nao-me-tem","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/2013\/09\/09\/eu-tenho-a-doenca-ela-nao-me-tem\/","title":{"rendered":"Eu Tenho a Doen\u00e7a, Ela N\u00e3o Me Tem"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><em><strong>Autor: Luiz Cl\u00e1udio Jubilato<\/strong><\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 algum tempo, estava assistindo \u00e0 mini-maratona do Rio de Janeiro, quando o rep\u00f3rter, entrevistando corredores an\u00f4nimos, virou-se para um e perguntou: \u2013 \u201cPor que a sua perna est\u00e1 tremendo?\u201d Ele respondeu: \u2013 \u201cPorque tenho esclerose m\u00faltipla\u201d. \u2013 \u201cMas, n\u00e3o d\u00f3i?\u201d \u2013 \u201cClaro que d\u00f3i!\u201d \u2013 \u201cMas, voc\u00ea vai correr mesmo assim?\u201d \u2013 \u201cVou.\u201d \u2013 Mas, por qu\u00ea?\u201d \u2013 Porque eu tenho a doen\u00e7a, mas a doen\u00e7a n\u00e3o me tem\u201d. Numa ensolarada manh\u00e3 de domingo, em que nada acontecia, esse homem an\u00f4nimo aconteceu em mim, fez com que eu mexesse em v\u00e1rias das minhas convic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Hoje, um poema de Manoel Bandeira, tuberculoso dos 18 aos 33 anos de idade, numa \u00e9poca em que se mal era praticamente incur\u00e1vel, remeteu-me \u00e0quela manh\u00e3 de domingo. Bandeira, nos \u00faltimos versos de Antologia, canta: Vou-me embora p\u2019ra Pas\u00e1rgada! \/ Aqui eu n\u00e3o sou feliz. \/ Quero esquecer tudo: \/ \u2013 A dor de ser homem\u2026 \/ Este anseio infinito e v\u00e3o \/ De possuir o que me possui. O poeta da vida, da estrela da vida inteira, pretendia, no seu anseio, controlar a tuberculose que controlava todos os seus movimentos, suas expectativas de futuro, seu desejo de vida, sua vontade de ter o outro e de ser possu\u00eddo pela paix\u00e3o e pelo corpo de algu\u00e9m. O tes\u00e3o de se entregar sem reservas, sem culpas, sem meias-palavras ou meia-boca. Manuel conseguiu venc\u00ea-la depois de perder a juventude para ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Hoje, dei de cara com um depoimento assustador de uma neurocientista americana, de 37 anos, chamada Jill Bolte Taylor. Uma serena mulher de olhos azuis como o mar driblou a morte tamb\u00e9m. Ao acordar na manh\u00e3 de 10 de dezembro de 1996 com uma dor aguda na cabe\u00e7a, percebeu algo tenebroso: estava sendo v\u00edtima de um derrame cerebral. Ela, que conhecia tudo sobre as v\u00e1rias \u00e1reas do c\u00e9rebro humano, sentiu na pele o que \u00e9 ser literalmente abandonada por ele. O mais curioso \u00e9 que, pela primeira vez na Hist\u00f3ria, ali estava a pessoa que poderia estudar esse \u00f3rg\u00e3o de dentro para fora. Depois de uma longa batalha, n\u00e3o apresenta qualquer seq\u00fcela da doen\u00e7a. A experi\u00eancia rendeu o livro A Cientista que curou seu pr\u00f3prio c\u00e9rebro. A obra j\u00e1 vendeu 500.000 exemplares nos EUA. S\u00e3o duas fa\u00e7anhas e tanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Parece que a grande li\u00e7\u00e3o aprendida por Jill Bolte e Manuel Bandeira para se curar foi tentar a todo custo domar o mal que insistia em possu\u00ed-los, subjug\u00e1-los. O corredor an\u00f4nimo, controlando a perna que insistia em fugir do seu controle, tomou seu destino nas m\u00e3os. N\u00e3o aceita a morte. N\u00e3o quer morrer. Luta contra ela, mesmo que ela se transmute num v\u00edrus, numa bact\u00e9ria, num defeito gen\u00e9tico. Dribla seus des\u00edgnios nos rem\u00e9dios, nas mesas de opera\u00e7\u00e3o, nas cl\u00ednicas est\u00e9ticas, nas academias de gin\u00e1stica e nos cremes rejuvenescedores. Brinca de Deus para engan\u00e1-la mapeando o genoma humano, entregando-se desesperadamente \u00e0s pesquisas sobre clonagem. A cada ano, novos cremes dentais, novas t\u00e9cnicas cir\u00fargicas, novas formas de alimenta\u00e7\u00e3o mais saud\u00e1veis visam empurrar a expectativa de vida para o fim do t\u00fanel da exist\u00eancia. No Jap\u00e3o, por exemplo, a esperan\u00e7a de vida para quem nasceu em 2003 \u00e9 de 81 anos. No Brasil \u00e9 de 73. Estamos longe ainda das na\u00e7\u00f5es desenvolvidas, mas melhoramos muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Se a ci\u00eancia n\u00e3o consegue resolver a imortalidade, procuramos a imortalidade na literatura, na m\u00fasica, na escultura, no cinema, na filosofia, nas coisas que realmente fazem sentido para n\u00f3s. Ao transmutamos a morte em personagem, temos a chance \u00fanica de mat\u00e1-la, destru\u00ed-la, ridiculariz\u00e1-la. Mas, precisamos repensar nossas a\u00e7\u00f5es. Com todos esses horm\u00f4nios, inseticidas e agrot\u00f3xicos consumidos em cada refei\u00e7\u00e3o, com tantos alimentos estranhos ao nosso organismo cheios de conservantes, espessantes, revigorantes, edulcorantes\u2026 torna-se quase imposs\u00edvel n\u00e3o morrer de c\u00e2ncer, de doen\u00e7as ligadas \u00e0 obesidade ou de doen\u00e7as degenerativas do c\u00e9rebro, como Ausaimer ou esclerose. Se o corredor de perna tr\u00eamula pode domar o seu destino, ent\u00e3o podemos, com um pouco de intelig\u00eancia e vontade, escrever o nosso. Sem defensivos agr\u00edcolas. Sem violentarmos a n\u00f3s mesmos. <em><strong>Publicado no Blog do Luiz Cl\u00e1udio<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor: Luiz Cl\u00e1udio Jubilato H\u00e1 algum tempo, estava assistindo \u00e0 mini-maratona do Rio de Janeiro, quando o rep\u00f3rter, entrevistando corredores an\u00f4nimos, virou-se para um e perguntou: \u2013 \u201cPor que a sua perna est\u00e1 tremendo?\u201d Ele respondeu: \u2013 \u201cPorque tenho esclerose m\u00faltipla\u201d. \u2013 \u201cMas, n\u00e3o d\u00f3i?\u201d \u2013 \u201cClaro que d\u00f3i!\u201d \u2013 \u201cMas, voc\u00ea vai correr mesmo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[4,6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15"}],"collection":[{"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}