{"id":147,"date":"2014-07-09T20:28:40","date_gmt":"2014-07-09T23:28:40","guid":{"rendered":"http:\/\/cursocriar.com\/artigos\/?p=147"},"modified":"2014-07-09T20:28:40","modified_gmt":"2014-07-09T23:28:40","slug":"da-hast-du-dich-aber-anscheisen-lassen","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/2014\/07\/09\/da-hast-du-dich-aber-anscheisen-lassen\/","title":{"rendered":"DA HAST DU DICH ABER ANSCHEI\u00dfEN LASSEN"},"content":{"rendered":"<p>\n\t<em>Por Prof.Thiago Ianez Carbonel<\/p>\n<p>\t(antes que voc&ecirc; clique no &quot;see more&quot;\/&quot;ver mais&quot;, saiba que &eacute; longo &#8211; texto publicado no perfil pessoal do Facebook do professor em 09\/07\/2014)<\/em>\n<\/p>\n<p>\n\tSe Nelson Rodrigues ainda fosse vivo, e l&uacute;cido, o epis&oacute;dio de ontem teria lhe rendido cr&ocirc;nicas amargas e &oacute;timas oportunidades de tecer sua cr&iacute;tica &aacute;cida sobre variados temas. Nelson Rodrigues era um apaixonado pelo futebol e sabia, como ningu&eacute;m (exceto Lula, talvez), fazer analogias entre o esporte e praticamente qualquer assunto. Eu, por outro lado, s&oacute; gosto da Copa do Mundo e sei pouco sobre futebol &#8211; durante o m&ecirc;s que passou, soube o que &eacute; um impedimento, tiro de meta, escanteio; de ontem pra hoje, j&aacute; comecei a esquecer &#8211; e confesso que a &quot;febre&quot; passou. Mas como &quot;de tudo fica um pouco&quot;, res&iacute;duo drummondiano, dessa experi&ecirc;ncia restaram pontas soltas que, creio, rendem reflex&otilde;es.\n<\/p>\n<p>\n\tN&atilde;o tendo me decidido por um caminho dedutivo ou indutivo, resolvo quebrar paradigmas e serei fragment&aacute;rio em tributo ao resultado surreal (ou seria dada&iacute;sta?) do jogo de ontem. O que primeiro me ocorre &eacute; ponderar sobre como, nas &uacute;ltimas quatro semanas, uma campeonato mundial de futebol teve tamanho s pessimistas &#8211; alguns poucos, inteligentes; a maioria, oportunistas &#8211; e assumi uma posi&ccedil;&atilde;o racional e pragm&aacute;tica que tentarei explicar.\n<\/p>\n<p>\n\tA escolha do Brasil como pa&iacute;s-sede se deu numa infeliz coincid&ecirc;ncia com a eclos&atilde;o de uma sequ&ecirc;ncia de crises econ&ocirc;micas que come&ccedil;aram com a bolha imobili&aacute;ria dos Estados Unidos. &Agrave; &eacute;poca, creio que muitos dos poucos leitores se lembram, Lula, ent&atilde;o presidente, disse que seria uma &quot;marolinha&quot; para o Brasil. A revista VEJA fez piada com a compara&ccedil;&atilde;o e progn&oacute;sticos apocal&iacute;pticos; Folha de S&atilde;o Paulo, idem. Outros ve&iacute;culos midi&aacute;ticos foram reticentes e os especialistas na &aacute;rea econ&ocirc;mica se dividiram entre os que achavam melhor ser prudente e desacelerar a economia e os que achavam melhor acelerar ainda mais a economia por prud&ecirc;ncia &#8211; confesso que, quando estiver aposentado, vou fazer uma gradua&ccedil;&atilde;o &agrave; dist&acirc;ncia nessa &aacute;rea para entender o motivo de tantas diverg&ecirc;ncias.&nbsp;\n<\/p>\n<p>\n\tComo linguista, mas especificamente analista do discurso, minha opini&atilde;o foi se formando pelo julgamento do que me parecia ser o bom senso. Ap&oacute;s seis anos de governo Lula, e os meses que sobrevieram ao in&iacute;cio da crise, ele estava certo: os efeitos sofridos pela economia brasileira foram pequenos perto do que aconteceu nos Estados Unidos e na Europa. Ora, por que n&atilde;o dar cr&eacute;dito a um modelo de crescimento econ&ocirc;mico que at&eacute; mesmo os mais respeitados analistas internacionais estavam elogiando? Por que n&atilde;o crer que estava dando certo, quando era vis&iacute;vel (e ainda &eacute;, preciso ressaltar) que o Estado (comandado por um plano de governo) estava amparando a classe mais fragilizada e impulsionando, mesmo que timidamente, as demais?\n<\/p>\n<p>\n\tA realiza&ccedil;&atilde;o de uma Copa do Mundo &eacute; um neg&oacute;cio como qualquer outro, guardadas as devidas ressalvas. H&aacute; um planejamento a longo prazo, os gastos devem ser meticulosamente descritos nos or&ccedil;amentos anuais, parcerias s&atilde;o estabelecidas, contratos s&atilde;o firmados, o setor privado obviamente entra na jogada, s&atilde;o feitos levantamentos do que precisa ser projetado em termos de mobilidade urbana, aeroportos, estrutura hoteleira, est&aacute;dios. N&atilde;o se trata de uma ci&ecirc;ncia exata, mas diante dos muitos olhares perscrutadores de hoje (m&iacute;dia, Minist&eacute;rio P&uacute;blico, sociedade civil via redes sociais) &eacute; ingenuidade (ou estupidez, ou ambos) querer valer-se da &quot;oportunidade&quot; para o cometimento de aberra&ccedil;&otilde;es administrativas que resultem em desvios fara&ocirc;nicos de verbas p&uacute;blicas. Corrup&ccedil;&atilde;o, maracut&aacute;ia, propinas, contratos licitat&oacute;rios descumpridos, bem, infelizmente s&atilde;o fen&ocirc;menos globais &#8211; vide Nixon (EUA), Sarcozy (Fran&ccedil;a), Berlusconi (It&aacute;lia) entre tantos outros. Assim como nestes pa&iacute;ses que parecem s&eacute;rios (ressalto: parecem mais s&eacute;rios que o nosso), h&aacute; in&uacute;meras investiga&ccedil;&otilde;es em curso, mas pouco se publica sobre o que n&atilde;o se alinha com a estrat&eacute;gia midi&aacute;tica em opera&ccedil;&atilde;o. E nesse momento n&atilde;o preciso nem dizer que a ordem &eacute; sabotar a reelei&ccedil;&atilde;o de Dilma Rousseff.\n<\/p>\n<p>\n\tAntes que o leitor comece a co&ccedil;ar as brotoejas de raiva, asseguro-lhes que este n&atilde;o &eacute; um texto de defesa pol&iacute;tica de quem quer que seja, ok? Sigamos adiante com o racioc&iacute;nio. Nos sete anos entre a escolha do Brasil como sede do evento e agora, os investimentos focados no mesmo foram altos, na casa de dezenas de bilh&otilde;es de reais. Uau, parece muito e &eacute; mesmo, mas n&atilde;o o suficiente para desencadear as cr&iacute;ticas que por esses anos ocuparam as colunas de articulistas que, para mim, chegaram a se tornar cansativos. Ao contr&aacute;rio dos comentaristas econ&ocirc;micos de peri&oacute;dicos mais respeitados, como o &quot;The economist&quot; ou o &quot;Financial times&quot;, os nossos especialistas alimentaram o alarmismo e as previs&otilde;es de uma copa apocal&iacute;ptica &#8211; em certo ponto, era poss&iacute;vel crer que no dia 12 de junho haveria um apocalipse zumbi no Itaquer&atilde;o e o cad&aacute;ver do General M&eacute;dici faria o discurso de abertura. Os dias que se seguiram mostraram o contr&aacute;rio e revelaram que, pelo menos no que se refere &agrave;s an&aacute;lises acad&ecirc;micas, o olhar estrangeiro ainda &eacute; melhor que o nosso.\n<\/p>\n<p>\n\tO mundo se entusiasmou com o Brasil e n&atilde;o foi apenas o envolvimento passional com o show do futebol. O Brasil p&ocirc;de mostrar-se como na&ccedil;&atilde;o que superou o patamar do &quot;na&ccedil;&atilde;o em desenvolvimento&quot; e j&aacute; est&aacute; entre as &quot;desenvolvidas com ainda muito a fazer&quot;. Os pr&oacute;prios brasileiros come&ccedil;aram, ainda engatinhando, a sair de suas posi&ccedil;&otilde;es defensivas em rela&ccedil;&atilde;o a si mesmos e ao pa&iacute;s e parecem crer mais nas possibilidades de que o Brasil d&ecirc; (mais) certo. As pesquisas do instituto DataFolha mostraram isso, os jornais e revistas chancelaram a tese ao se desculparem pelo tom alarmista de antes da copa (J.R. Guzzo, por exemplo), a m&iacute;dia como um todo se rendeu ao fato que, pelo menos enquanto evento em &acirc;mbito global, &quot;foi um bom neg&oacute;cio&quot;.\n<\/p>\n<p>\n\t&Eacute; claro que se reunirmos uma equipe de analistas e fizermos planilhas bonitinhas no Excel, vamos encontrar gastos que &quot;poderiam ter sido utilizados na sa&uacute;de e na educa&ccedil;&atilde;o&quot; (uso as aspas para marcar o lugar-comum). De fato, mas vejo, no meu &iacute;mpeto ainda contaminado por certo otimismo, como um &quot;investimento de prospec&ccedil;&atilde;o de neg&oacute;cios&quot;, an&aacute;logo ao que grandes empresas fazem para atrair investidores: oferecem e mostram o que h&aacute; de melhor para conseguir fechar bons contratos. Pode parecer infame tal compara&ccedil;&atilde;o quando se trata de grandes montantes de dinheiro oriundo dos cofres p&uacute;blicos; concordo, mas seria muita inoc&ecirc;ncia ignorar que esse tipo de pr&aacute;tica de d&aacute; aqui e em qualquer lugar. Ademais, tais gastos deixaram, entre algumas heran&ccedil;as malditas, contribui&ccedil;&otilde;es positivas &#8211; se caiu um elevado em Belo Horizonte, os aeroportos melhoraram muito, h&aacute; in&uacute;meras obras de mobilidade urbana que resolveram quest&otilde;es antigas de transportes em grandes cidades, houve gera&ccedil;&atilde;o de emprego, aumento de arrecada&ccedil;&atilde;o e por a&iacute; vai.\n<\/p>\n<p>\n\tMinha coloca&ccedil;&atilde;o central neste texto &#8211; e demoro a chegar nela, dada minha tend&ecirc;ncia a ser prolixo &#8211; &eacute; que a realiza&ccedil;&atilde;o da Copa do Mundo no Brasil foi um acerto estrat&eacute;gico do ponto de vista econ&ocirc;mico e pol&iacute;tico. Sei bem que sobre os argumentos que ofereci at&eacute; agora recair&atilde;o refuta&ccedil;&otilde;es robustas e &eacute; o que eu espero mesmo &#8211; na minha &aacute;rea profissional, um princ&iacute;pio fundamental &eacute; o de que ningu&eacute;m &eacute; dono da verdade e, complementando este, que a verdade &eacute; transit&oacute;ria, metaf&oacute;rica, mutante. Continuo achando que foi acertado o compromisso assumido pelo pa&iacute;s e que os resultados foram melhores que o esperado. O que teria acontecido se n&atilde;o o aceit&aacute;ssemos, ou se tiv&eacute;ssemos &quot;jogado a toalha&quot; (como sugeriu Roberto Pompeu de Toledo, em artigo publicado na VEJA em 02 de maio de 2011), n&atilde;o temos como saber, mas podemos, com algum cuidado, projetar a partir do que aconteceu quando, em 1986, a Col&ocirc;mbia desistiu de sediar o Mundial e passou a &quot;toalha&quot; ao M&eacute;xico. A Col&ocirc;mbia, por outras quest&otilde;es internas tamb&eacute;m, continuou um pa&iacute;s de pouca express&atilde;o, enquanto o M&eacute;xico, mesmo com o grande terremoto que abalou o pa&iacute;s naquele ano, soube tirar proveito do evento.\n<\/p>\n<p>\n\tE se o M&eacute;xico p&ocirc;de, por que o Brasil tamb&eacute;m n&atilde;o o far&aacute;? Reitero que at&eacute; aqui a Copa nos trouxe benef&iacute;cios concretos e imateriais (como a imagem positiva projetada para o mundo). Somo a eles a derrota de ontem. Como assim? A derrota foi um benef&iacute;cio? Caro leitor, depois de muito pensar a respeito conclu&iacute; que sim, trouxe. H&aacute; 64 anos, quando do MARACANA&Ccedil;O, um luto inconsol&aacute;vel caiu sobre o pa&iacute;s, numa derrota de 2 a 1 para o Uruguai; ontem, o povo brasileiro carnavalizou a derrota e soube aplaudir a sele&ccedil;&atilde;o alem&atilde; e soube entender (talvez n&atilde;o 100% racionalmente) que futebol pode ser uma paix&atilde;o nacional, mas &eacute; apenas um esporte. O que sobreveio, do choro de David Luiz, passando pela entrevista de Felip&atilde;o, chegando nos memes da derrota foi a sensa&ccedil;&atilde;o de que finalmente h&aacute; uma consci&ecirc;ncia coletiva (sempre com exce&ccedil;&otilde;es &#8211; vide o epis&oacute;dio lament&aacute;vel na Vila Madalena, ap&oacute;s da derrota) de que somos mais, muito mais que uma p&aacute;tria de chuteiras. A derrota serviu, ainda, para que entend&ecirc;ssemos a irracionalidade de crer na representatividade de um indiv&iacute;duo, como meton&iacute;mia do grupo &#8211; do mesmo que Neymar n&atilde;o podia ser o time inteiro, &eacute; imbecilidade imaginar que Dilma &eacute; o governo petista (por isso que odiar a pessoa da presidenta n&atilde;o faz sentido: o governo &eacute; uma equipe formada por interesses multipartid&aacute;rios sobre os quais a pessoa dela tem pouca ou nenhuma influ&ecirc;ncia).\n<\/p>\n<p>\n\tPerdermos &quot;de lavada&quot; serviu, enfim, para que v&iacute;ssemos &#8211; como o veem alem&atilde;es, ingleses, holandeses, franceses &#8211; que o jogo &eacute; apenas um entretenimento e que a tradi&ccedil;&atilde;o s&oacute; conta se com ela vier a estrutura. O Brasil se v&ecirc;, enfim, como o paradoxal &quot;pa&iacute;s do futebol&quot; com seus melhores jogadores na Europa, e consegue entender que a unidade do time alem&atilde;o decorre do fato de que aqueles jogadores trabalham juntos h&aacute; muito tempo, treinam juntos, t&ecirc;m entrosamento; ao passo que os nossos, assim como os argentinos, s&oacute; se veem alguns dias antes do in&iacute;cio do campeonato e seria um golpe de sorte essa gambiarra vencer a tradi&ccedil;&atilde;o estruturada de times como o da Alemanha ou da Holanda. Mesmo assim, acredito que a paix&atilde;o irracional desses dias valeu a pena. Valeu a pena, mas passou; foi uma onda cat&aacute;rtica necess&aacute;ria para, como uma terapia de choque, fazer despertar em n&oacute;s algo melhor.&nbsp;\n<\/p>\n<p>\n\t<strong>P.S. <\/strong>Ontem, numa interlocu&ccedil;&atilde;o produtiva com Luiz Cl&aacute;udio Jubilato, lembrei-me de &quot;As bacantes&quot;, de Eur&iacute;pedes, e de como o tr&aacute;gico grego soube tecer uma inteligente alegoria para mostrar o embate entre a raz&atilde;o e a tudo o que passional e il&oacute;gico. Na pe&ccedil;a, Dionisio pune os tebanos por deixarem de crer e o rei se sacrifica para salvar a cidade. A releitura da trama em nossa realidade fica como exerc&iacute;cio mental para o leitor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Prof.Thiago Ianez Carbonel (antes que voc&ecirc; clique no &quot;see more&quot;\/&quot;ver mais&quot;, saiba que &eacute; longo &#8211; texto publicado no perfil pessoal do Facebook do professor em 09\/07\/2014) Se Nelson Rodrigues ainda fosse vivo, e l&uacute;cido, o epis&oacute;dio de ontem teria lhe rendido cr&ocirc;nicas amargas e &oacute;timas oportunidades de tecer sua cr&iacute;tica &aacute;cida sobre variados [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/147"}],"collection":[{"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=147"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/147\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=147"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=147"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/cursocriar.com\/blogluizclaudio\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=147"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}